Durante décadas, a Guerra Fria foi representada por submarinos nucleares, silos de mísseis e ogivas capazes de destruir o planeta. A nova Guerra Fria é silenciosa, invisível e roda dentro de data centers refrigerados no Texas, em Nevada ou nas províncias industriais chinesas. Seus soldados não usam uniforme. São engenheiros de machine learning. E suas armas não explodem cidades: desligam infraestrutura, manipulam informação, invadem redes elétricas, identificam vulnerabilidades militares e potencialmente tomam decisões de combate em milissegundos.
A imagem romântica da inteligência artificial como ferramenta para produtividade corporativa ou criação de imagens divertidas está rapidamente ficando obsoleta. Anthropic, OpenAI, Google DeepMind, Microsoft, xAI de Elon Musk e até Meta já fazem parte, direta ou indiretamente, da arquitetura estratégica do Ocidente. Do outro lado, China, Huawei, Baidu, Tencent e DeepSeek avançam dentro da lógica da chamada “fusão civil-militar”, onde a fronteira entre setor privado e Estado praticamente não existe.
A ironia é quase cinematográfica. Durante anos, parte da Silicon Valley vendeu ao mundo a narrativa de uma tecnologia “humanista”, preocupada com ética, inclusão e riscos existenciais. Mas basta observar para onde o dinheiro está indo. O Pentágono voltou a se tornar um dos maiores indutores tecnológicos do planeta. O Project Maven, inicialmente criado para análise de imagens de drones, evoluiu para sistemas muito mais amplos de inteligência operacional. Palantir, Anthropic, Microsoft e OpenAI orbitam cada vez mais próximos da defesa americana.
Anthropic talvez seja o caso mais emblemático porque tenta manter a aura de “consciência moral da IA”. Seu fundador, Dario Amodei, critica armas totalmente autônomas e fala constantemente sobre segurança algorítmica. Mas ao mesmo tempo a empresa desenvolve sistemas altamente eficazes em identificação de vulnerabilidades cibernéticas, análise estratégica e automação de inteligência. Na prática, isso significa capacidade dual: defesa e ataque.
E aqui existe um ponto fundamental que ainda não entrou plenamente no debate público: a inteligência artificial não é apenas uma tecnologia. Ela é infraestrutura de poder estatal.
Quem dominar IA avançada terá vantagem militar, econômica, energética, financeira e diplomática. Não por acaso, os Estados Unidos restringiram exportações de chips Nvidia para a China. Não se trata de protecionismo comum. É contenção estratégica. Sem semicondutores avançados, modelos de IA perdem capacidade de treinamento em larga escala. Hoje, um cluster de GPUs pode valer geopoliticamente mais do que um esquadrão de tanques.
O problema é que essa disputa não ficará limitada aos dois blocos principais. Europa, Índia, Oriente Médio e até potências regionais precisarão escolher como se posicionar. A União Europeia tenta criar uma terceira via regulatória baseada em governança e privacidade, mas corre o risco de descobrir que excesso de regulação pode transformá-la em mera consumidora de tecnologia americana e chinesa. Os Emirados Árabes investem bilhões tentando virar hubs de IA para fugir da dependência futura. A Índia acelera porque percebeu que quem ficar para trás nessa corrida perderá relevância estratégica por décadas.
E então surge o caso brasileiro. O Brasil talvez seja um dos países mais vulneráveis desse novo tabuleiro porque ainda insiste em enxergar inteligência artificial como pauta acadêmica, de compliance ou de automação corporativa pontual. Enquanto Washington e Pequim tratam IA como questão de soberania nacional, parte da elite brasileira ainda discute apenas regulação abstrata ou impacto sobre empregos administrativos.
Mas a nova guerra tecnológica não perguntará se o país está preparado. Ela afetará diretamente bancos, sistema elétrico, agronegócio, logística portuária, telecomunicações e até a estabilidade política. Um país altamente digitalizado, mas sem capacidade própria robusta em semicondutores, cibersegurança e IA estratégica, torna-se dependente de infraestrutura estrangeira. Dependência tecnológica, no século XXI, é uma forma sofisticada de vulnerabilidade geopolítica.
O Brasil corre o risco de virar apenas território operacional de tecnologias criadas fora daqui: servidores americanos, cloud chinesa, algoritmos estrangeiros, chips asiáticos e segurança digital terceirizada. Em outras palavras: um país consumidor dentro de uma guerra travada por outros.
Existe ainda uma camada mais inquietante. Durante a Guerra Fria nuclear, a lógica era a da “destruição mútua assegurada”. Hoje começa a emergir algo semelhante no ambiente digital: “mutual assured disruption”. Não é necessário destruir fisicamente uma cidade para paralisar um país. Basta comprometer sistemas financeiros, energia, comunicação e logística simultaneamente. IA reduz drasticamente o tempo entre ataque e resposta. Em alguns cenários militares, humanos talvez sequer consigam reagir na velocidade dos algoritmos.
A questão central deixou de ser se a inteligência artificial será militarizada. Isso já aconteceu. A verdadeira pergunta agora é outra: quais países terão capacidade de participar da construção dessa nova ordem tecnológica, e quais apenas assistirão, vulneráveis, à disputa entre os novos impérios algorítmicos?
*Coluna escrita por Fabio Ongaro, economista, empresário italiano no Brasil e CEO da Energy Group
*As opiniões transmitidas pelo colunista são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da BM&C News.
*Leia mais colunas do autor aqui.














