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“Acordo de Mar-a-Lago”: mito, metáfora ou estratégia geopolítica?

Rui das NevesPor Rui das Neves
01/07/2026

Volta e meia, surge nas redes e em análises mais conspiratórias a expressão “acordo de Mar-a-Lago”, como se houvesse um grande pacto secreto, costurado entre bilionários, banqueiros centrais e líderes globais do espectro de direita nacionalista e populista, para redefinir o rumo da economia mundial. Mas, afinal, isso existe mesmo?

Primeiro ponto — e vamos direto a ele: não há nenhum acordo formal, reconhecido internacionalmente, chamado “Acordo de Mar-a-Lago” nos moldes de tratados históricos como o Acordo de Bretton Woods ou o Acordo do Plaza. O que existe é uma narrativa política e econômica que usa como símbolo o resort Mar-a-Lago, propriedade de Donald Trump.

Mas por que esse nome ganhou força?

O peso simbólico de Mar-a-Lago

Durante o governo Trump (2017–2021), Mar-a-Lago, localizado em Palm Beach, na Flórida, tornou-se um centro informal de poder. Líderes estrangeiros foram recebidos ali, decisões estratégicas foram discutidas no local e o espaço passou a ser visto como uma “Casa Branca de inverno”.

Quando investidores e analistas falam em “acordo de Mar-a-Lago”, normalmente estão se referindo a três possíveis ideias:

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1. Um suposto plano para enfraquecer o dólar;

2. Uma articulação para reformar o sistema monetário internacional;

3. Uma estratégia de reorganização geopolítica entre EUA e aliados.

Nada disso foi oficializado. Mas a discussão revela algo maior: a tensão crescente no sistema financeiro global.

Dólar forte demais?

O debate costuma aparecer junto com o tema do DXY (índice do dólar, artigo já escrito nesta coluna) e a tese do “excepcionalismo americano”, aquele período de cerca de 15 anos em que os Estados Unidos concentraram crescimento, inovação e atração de capital global.

Quando o dólar dispara, exportadores americanos perdem competitividade, empresas multinacionais sofrem com a conversão cambial e países emergentes sentem pressão nas dívidas em dólar. Em 1985, o mundo viveu algo parecido, e foi aí que nasceu o Acordo do Plaza, um pacto coordenado para desvalorizar o dólar frente ao iene e ao marco alemão.

Imagens: Google Earth e Forbes

Alguns analistas especulam que o novo governo Trump já estaria executando uma tentativa de algo semelhante, mas sem o formalismo multilateral. Daí a ideia de um “acordo de Mar-a-Lago”: uma coordenação mais política e menos institucional.

Mas o contexto global mudou…

A diferença é que o mundo de 2026 não é o de 1985.

Hoje temos:

1. Houve uma ascensão da China como potência sistêmica;

2. A expansão do bloco dos BRICS e de outros blocos alternativos;

3. Tentativas de “desdolarização” em acordos comerciais;

4. Tensões comerciais persistentes;

5. Cadeias produtivas sendo redesenhadas.

Porém, por mais que tentem, os EUA continuam e continuarão sendo o emissor da principal moeda de reserva do planeta. O dólar ainda domina reservas internacionais, comércio global e mercados financeiros. Enfraquecê-lo deliberadamente envolve riscos enormes: inflação importada, perda de confiança e fuga de capitais.

Estratégia política ou narrativa de mercado? Durante o governo Trump, vimos pressão sobre parceiros comerciais, tensões com bancos centrais, tarifas contra a China e até mesmo contra países “pseudoaliados”, além de críticas abertas a acordos multilaterais.

Isso alimenta a imaginação do mercado. Os investidores tentam antecipar cenários extremos, e esse nome, “Mar-a-Lago”, vira uma espécie de atalho narrativo para descrever uma guinada brusca na política econômica.

O que realmente importa para investidores

S existe algo concreto nessa história, é a discussão sobre:

1. Política cambial americana;

2. Sustentabilidade da dívida pública dos EUA;

3. Relação entre juros e crescimento;

4. Redesenho das cadeias globais de valor.

O mundo vive uma transição: da globalização hiperfinanceira para uma fase mais estratégica e fragmentada, com bilateralização. Países estão priorizando segurança energética, tecnológica e industrial.

Nesse ambiente, qualquer sinal vindo de Washington, especialmente se envolver mudanças na condução do dólar, sempre terá impacto imediato nos mercados globais.

Mais simbólico do que tratado

No fim das contas, o que está em jogo não é um acordo secreto, mas uma disputa aberta sobre qual será o próximo capítulo da economia global.

Mas uma coisa é certa: a postura geopolítica de Donald Trump sinaliza uma transição estratégica que busca reafirmar a incomparável liderança econômica dos EUA por meio de um realismo pragmático. Ao priorizar a segurança industrial, tecnológica e monetária americana sob a ótica do patriotismo econômico, essa abordagem acabou impondo limites severos à expansão multilateral de blocos alternativos de prevalência esquerdista ou ditatorial, como grande parte dos países dos BRICS, com vários deles sancionados, e o Foro de São Paulo, agora quase falido moralmente, além de conter a projeção de influência global da China e da Rússia. A ascensão do nacionalismo econômico de Donald Trump representou o xeque-mate no modelo tradicional de “Nova Ordem Mundial” e implodiu o tal consenso “globalista liberal” que estava ditando as regras do comércio desde o fim da Guerra Fria. Porém, longe de representar um isolamento passivo, a dinâmica centrada em Mar-a-Lago projeta os EUA como a potência indispensável e o verdadeiro eixo do sistema internacional, demonstrando ao mundo que qualquer redesenho da governança global e do futuro do dólar passará, inevitavelmente, pela chancela da determinação e da força estratégica americana.

*Coluna escrita por Rui das Neves, administrador de empresas, investidor e possui vasta experiência no como incorporador imobiliário.

*As opiniões transmitidas pelo colunista são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da BM&C News.

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