A diplomacia brasileira voltou ao centro do debate em meio a um cenário internacional marcado por guerras, tensões comerciais, protecionismo e disputa entre grandes potências. No BMC Talks, da BM&C News, o embaixador Paulo Roberto de Almeida afirmou que o Brasil precisa rever prioridades em política externa diante de uma ordem global mais fragmentada e de instituições multilaterais cada vez mais pressionadas.
A avaliação parte de uma mudança estrutural no sistema internacional. Depois de décadas de globalização, abertura comercial e fortalecimento de organismos multilaterais, o mundo passou a conviver com novas barreiras, rivalidades estratégicas e disputas por influência. Para Almeida, esse ambiente exige do Brasil maior clareza sobre seus interesses nacionais, capacidade de negociação e consciência dos limites de atuação de uma potência média.
“O Brasil sempre teve a aspiração de participar do círculo restrito das grandes potências”, afirmou Paulo.
Ordem global perde força diante do protecionismo
Para o embaixador, a ordem internacional baseada em princípios liberais, cooperação e regras multilaterais foi resultado direto das tragédias do século XX. A Carta da ONU, os acordos de comércio e os organismos internacionais surgiram como instrumentos para preservar a paz, estimular o desenvolvimento e reduzir a imprevisibilidade nas relações entre Estados.
Nos últimos anos, porém, esse arranjo passou a ser pressionado por práticas protecionistas, diplomacia de poder e ações unilaterais de grandes potências. Almeida comparou o momento atual a elementos dos anos 1930, não como repetição automática de um conflito global, mas como sinal de deterioração das regras que sustentaram o sistema internacional nas últimas décadas.
“Temos um certo sabor de anos 30”, observou Paulo Roberto de Almeida.
Itamaraty e política externa nem sempre caminham juntos
Um dos pontos centrais da entrevista foi a distinção entre política externa e diplomacia. Segundo Almeida, a política externa é definida pela Presidência da República, enquanto a diplomacia funciona como instrumento operacional para defender os interesses nacionais. Em alguns períodos, houve convergência entre esses campos; em outros, o Itamaraty precisou lidar com orientações presidenciais mais personalistas ou ideológicas.
O embaixador também afirmou que o Itamaraty tem uma tradição de formulação técnica, cultura institucional e defesa de princípios, mas passou a conviver com tensões internas ao longo das últimas décadas. Para ele, diplomatas não devem atuar apenas sob hierarquia e disciplina, mas também com capacidade crítica para avaliar instruções e cenários de negociação.
“A primeira função do diplomata é pensar”, ressaltou Paulo Roberto de Almeida.
OMC perde protagonismo em meio à crise do comércio global
A Organização Mundial do Comércio foi apresentada como um instrumento que, durante anos, permitiu ao Brasil defender seus interesses diante de potências maiores. Almeida lembrou que o país teve vitórias relevantes em disputas envolvendo setores como aviação, algodão e combustíveis, justamente por se apoiar nas regras multilaterais do comércio internacional.
Esse sistema, no entanto, perdeu força com o fracasso da Rodada Doha, a paralisação de mecanismos decisórios e o avanço de medidas unilaterais. Para o embaixador, a política tarifária dos Estados Unidos, especialmente sob Donald Trump, atingiu fundamentos centrais da OMC e reforçou uma lógica bilateral que enfraquece países médios como o Brasil.
“Trump simplesmente destruiu a cláusula nação favorecida com pequenos tarifaços no seu primeiro mandato”, avaliou Paulo Roberto de Almeida.
ONU segue relevante, apesar da fragilidade institucional
O debate também abordou a Organização das Nações Unidas e a antiga reivindicação brasileira por um assento permanente no Conselho de Segurança. Almeida reconheceu que a ONU tem dificuldades para impedir guerras, invasões e violações do direito internacional, especialmente quando grandes potências estão envolvidas.
Ainda assim, o embaixador afirmou que o Brasil tem interesse em preservar o multilateralismo, porque países médios dependem de regras, fóruns e coalizões para equilibrar a força das grandes potências. Para ele, a prioridade brasileira deveria estar menos na ambição de ocupar o centro decisório global e mais na cooperação internacional voltada ao desenvolvimento.
“A ONU está fragilizada, mas é o único instrumento que se dispõe para o exercício da diplomacia multilateral e para a cooperação internacional”, explicou Paulo Roberto de Almeida.
Brics, Ucrânia e coerência diplomática
Almeida também analisou o impacto de alianças como o Brics sobre a política externa brasileira. Na avaliação dele, a aproximação com China e Rússia criou dilemas para o Brasil, especialmente diante de violações do direito internacional, como a invasão da Ucrânia. O embaixador criticou a postura brasileira de tratar situações desse tipo com cautela excessiva ou silêncio diplomático.
Para ele, o Brasil continua relevante no cenário internacional, mas corre o risco de comprometer a coerência histórica de sua diplomacia ao se alinhar a interesses de autocracias ou relativizar princípios que tradicionalmente defendeu. A posição brasileira, segundo Almeida, deveria se aproximar mais de outras potências médias, como Canadá, países escandinavos, União Europeia, Indonésia, México e Argentina.
“O Brasil não é um anão diplomático”, destacou Paulo Roberto de Almeida.
Governança interna limita ambição externa do Brasil
Na leitura do embaixador, o principal desafio brasileiro não está apenas no ambiente externo, mas na governança interna. Almeida apontou problemas estruturais como baixa qualidade educacional, excesso de regulamentação, carga tributária elevada, patrimonialismo, corrupção e dificuldade de inserção nas grandes cadeias globais de valor.
Para ele, o Brasil avançou em momentos específicos, como na estabilização econômica do Plano Real e no crescimento do agronegócio, mas deixou de concluir reformas fundamentais. A consequência é um país com potencial diplomático e econômico relevante, mas limitado por obstáculos domésticos que reduzem sua capacidade de competir e influenciar.
“O problema básico do Brasil é a falta de educação de qualidade”, analisou Paulo Roberto de Almeida.
Polarização pode condicionar próximos passos da política externa
Na conclusão do BMC Talks, Almeida afirmou que o Brasil vive uma polarização com efeitos diretos sobre a política externa. De um lado, há uma direita alinhada a Donald Trump; de outro, uma esquerda que busca aproximação com China, Rússia e uma ideia de projeção internacional nem sempre compatível com a capacidade real do país.
O desafio, segundo a leitura apresentada no programa, será superar essa lógica de alinhamentos automáticos e recuperar uma diplomacia orientada por interesses nacionais, desenvolvimento, cooperação e inserção internacional pragmática. Em um mundo mais fechado e competitivo, a diplomacia brasileira tende a ser cada vez mais exigida como ferramenta de estratégia econômica e política.












