No extremo norte do Brasil, um paredão de rocha com topo plano marca a fronteira tríplice entre Brasil, Venezuela e Guiana. O Monte Roraima é uma das formações rochosas mais antigas da Terra e abriga espécies que não existem em nenhum outro lugar do planeta.
O que é um tepui e por que Roraima é tão antigo?
Tepui é o nome que o povo indígena Pemon dá às montanhas de topo plano da região, que significa, em sua língua, algo próximo de casa dos deuses. A UNESCO classifica essas formações como um conjunto biogeológico único, com rochas originadas entre 1,5 e 2 bilhões de anos atrás, entre as mais antigas já expostas no planeta.
O processo que deu forma ao Roraima levou mais de 200 milhões de anos de erosão contínua sobre blocos de arenito e quartzito. O resultado é um platô cercado por paredões verticais que podem chegar a mil metros de altura, conforme descrição do World Heritage Datasheet do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). Essas rochas são tão antigas que guardam evidências geológicas da época em que América do Sul e África formavam um único continente.

Por que a montanha é chamada de mundo perdido?
O apelido nasceu em 1912, quando o escritor britânico Arthur Conan Doyle publicou O Mundo Perdido, romance em que um platô isolado na América do Sul abriga dinossauros sobreviventes. A descrição se inspirou diretamente nos relatos de exploradores que haviam subido o Roraima no fim do século XIX.
O isolamento no topo do tepui permitiu que espécies evoluíssem de forma independente por milhões de anos. Lá vivem plantas carnívoras como a Heliamphora, endêmica dos tepuis, e o sapinho preto Oreophrynella quelchii, que não salta: em vez disso, rola para escapar de predadores. Em 2009, a Pixar usou as formações do Roraima e dos tepuis vizinhos como referência para criar o Paraíso das Cachoeiras no filme Up: Altas Aventuras.
Onde ficam os três países ao mesmo tempo?
O ponto exato onde as três fronteiras se encontram é uma pirâmide de concreto chamada Marco BV-8, a 2.734 metros de altitude. O vértice divide as águas entre bacias que descem para territórios de três nações distintas.
O cume máximo do Roraima, chamado Maverick, está a 2.810 metros e fica em solo venezuelano. Cerca de 85% do tepui pertence à Venezuela, 10% à Guiana e apenas 5% ao Brasil, segundo levantamento do blog Entre Parques, que cruza os dados com documentos do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Em 2025, uma expedição do ICMBio instalou a primeira placa informativa do Parque Nacional do Monte Roraima no Marco, conforme divulgou o próprio instituto.

Território sagrado protegido por 3 nações
Para os povos Pemon, Ingarikó e Macuxi, a montanha é a casa de Makunaima, herói criador que, segundo a tradição, derrubou a árvore da vida e originou o tepui. A proteção oficial atravessa três sistemas distintos de unidades de conservação.
Do lado brasileiro, o Parque Nacional do Monte Roraima protege 116.747,80 hectares desde 28 de junho de 1989. A área fica totalmente sobreposta à Terra Indígena Raposa Serra do Sol e tem gestão compartilhada entre ICMBio, Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e a comunidade Ingarikó. Do lado venezuelano, o tepui integra o Parque Nacional Canaima, 30 mil quilômetros quadrados reconhecidos como Patrimônio Mundial pela UNESCO desde 1994.

6 a 9 dias de caminhada para chegar ao topo
O único acesso ao platô parte do lado venezuelano, pela cidade de Santa Elena de Uairén. A expedição clássica percorre cerca de 80 a 100 km entre ida e volta, tradicionalmente distribuídos em 6 a 9 dias, com guias e carregadores da etnia Pemon de contratação obrigatória.
O ponto mais crítico da subida é a chamada rampa, uma fenda natural aberta no paredão vertical que funciona como escada para o topo. No platô, os visitantes dormem em abrigos naturais formados por grandes rochas, conhecidos localmente como hotéis. Segundo o World Heritage Outlook da IUCN, vinculado à UNESCO, o governo venezuelano limitou em 2024 a capacidade do Roraima a 247 pessoas por visita, distribuídas em 19 grupos, com máximo de 152 turistas simultâneos no topo.
Curiosidades do topo: cristais, jacuzzis e a ventana
O platô do Roraima é um labirinto de rochas escuras cobertas por líquens, cortado por riachos gelados e pontuado por formações que ganharam nomes próprios dos guias Pemon. Cada atração exige horas de caminhada a partir dos acampamentos.
- Vale dos Cristais: extensão coberta por fragmentos naturais de quartzo branco. É expressamente proibido retirar qualquer pedra do local.
- Jacuzzis: piscinas naturais de fundo forrado por cristais, com águas geladas e transparentes.
- La Ventana: abertura na rocha com vista direta para o tepui vizinho Kukenán e para um abismo vertical.
- El Foso: cratera circular com água escura no interior, formada pela erosão ao longo de milênios.
- Maverick: ponto culminante a 2.810 metros, com vista de 360 graus sobre a Gran Sabana venezuelana.
Quem sonha com a expedição mais desafiadora do mundo, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Rolê Família, que conta com mais de 1,5 milhão de visualizações, onde Bruno e Paula mostram um documentário completo sobre o Monte Roraima, incluindo trilhas, lendas e a magia da Venezuela:
Quando o clima favorece a subida?
A temporada mais seca vai de dezembro a março, quando as chances de céu limpo no topo aumentam. Chuva, sol e neblina podem se alternar em poucas horas ao longo de todo o ano, e a temperatura no platô pode cair perto de 0°C à noite, mesmo próximo à linha do Equador.
As temperaturas variam de 2°C a 18°C no topo, com média anual de 10°C e precipitação média de 1.900 mm por ano, conforme dados do ICMBio. Na base, o clima tropical se impõe, com calor constante e temperaturas que podem passar dos 30°C em Pacaraima e Santa Elena.
Como chegar ao sopé do mundo perdido?
A jornada começa em Boa Vista, capital de Roraima, de onde se percorrem cerca de 215 km pela BR-174 até Pacaraima, na fronteira com a Venezuela. Mais 13 km adiante fica Santa Elena de Uairén, base das expedições guiadas.
De Santa Elena, veículos 4×4 credenciados levam até a comunidade indígena de Paraitepuy em cerca de 2 horas por estrada de terra. Passaporte válido ou identidade em bom estado e comprovante internacional de vacinação contra febre amarela são exigências obrigatórias para a travessia.
Suba ao topo e descubra uma das formações mais antigas do mundo
O Monte Roraima condensa em um só lugar a geologia de 2 bilhões de anos, a mitologia de três povos indígenas e espécies que não existem em nenhum outro ponto da Terra. É uma das poucas experiências no planeta em que cada passo atravessa fronteiras e eras.
Você precisa encarar os dias de trilha e chegar ao topo do Roraima para entender por que essa montanha continua inspirando cientistas, escritores e cineastas há mais de um século.














