A situação do déficit público brasileiro é insustentável. O governo age com irresponsabilidade fiscal, não corta despesas e vai se financiando através do mercado financeiro, ampliando cada vez mais a dívida estatal. O endividamento público passou de 71,7% do PIB no início de 2023 para 78,7% em 2025. As projeções do Tesouro para 2026 indicam a coisa deve piorar, podendo alcançar a marca de 83,6% do PIB.
Os representantes do governo mostram números para argumentar que o gasto público está controlado, mas basta ver a curva da dívida para ver que o discurso não bate com a realidade. Diante disso, o que deve fazer um candidato à presidência da República, especialmente alguém de direita como o senador Flávio Bolsonaro? É natural que sua equipe econômica se dedique a estudar formas para reduzir os gastos e atacar aquilo que faz o orçamento estatal sangrar.
Privatização de estatais, obviamente, é um dos caminhos, assim como o enxugamento do número de funcionários públicos. Mas um dos pontos importantes nesta equação é o pagamento de aposentadorias e benefícios continuados. Como se sabe, esses desembolsos estão vinculados ao salário-mínimo, que por sua vez está sujeito a aumentos reais de acordo com o crescimento do PIB. Além disso, as chamadas verbas carimbadas com educação e saúde elevam o piso obrigatório das despesas e engessam o orçamento da União.
Os especialistas da campanha de Flávio estudam saídas para esses problemas. Uma das possibilidades levantadas, segundo reportagem da Folha de S. Paulo, é corrigir os valores destinados a aposentadorias, saúde e educação pela inflação, mudando as regras atuais. Mexer com isso, no entanto, é um vespeiro político (tanto é que o candidato negou a existência destes estudos após a publicação do texto).
O que deveria fazer um candidato nessa hora? Falar a verdade e perder eventualmente votos ou fingir que nada será feito e deixar as más notícias para depois da posse?
Falar a verdade é sempre a melhor opção, mas neste caso o desgaste poderia ser fatal, em um cenário no qual a vitória no segundo turno deve ser obtida por margens mínimas.
O problema não é estudado apenas pelo candidato do PL. O núcleo duro do Planalto trabalha com a ideia de, em caso de reeleição, nomear um ministro da Fazenda alinhado com a ortodoxia econômica, para combater o déficit público. Neste caso, a ideia é repetir a solução dada por Dilma Rousseff no início de seu segundo mandato, quando ela escolheu Joaquim Levy para comandar a principal pasta econômica. O problema é que Levy passou a ser bombardeado diariamente por seus colegas de ministério e pelo PT.
A discussão sobre como enfrentar o desequilíbrio fiscal deve permanecer no centro do debate eleitoral, independentemente de quem vença a disputa. Qualquer governo que assumir em 2027 encontrará um orçamento pressionado por despesas obrigatórias crescentes, juros elevados e uma trajetória de endividamento que limita a capacidade de ação do Estado. A experiência recente mostra que ajustes dessa natureza exigem apoio político consistente e comunicação clara com a sociedade, algo que costuma se perder em meio às disputas internas e às resistências de grupos organizados. A escolha entre antecipar medidas impopulares ou adiá‑las para depois da posse acompanha todas as campanhas em momentos de aperto fiscal. O desafio é transformar diagnósticos conhecidos em decisões efetivas, capazes de estabilizar as contas públicas sem provocar rupturas políticas que inviabilizem a própria implementação das medidas.
Sobre o dilema de Flávio: provavelmente, a coisa certa a fazer é deixar as más notícias, em caso de vitória, para depois da posse.
*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide
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