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Copom decide Selic sob pressão de inflação e gastos do governo

Mercado espera corte de 0,25 ponto percentual, mas bancos veem espaço menor para novas reduções diante da piora das expectativas, atividade resiliente e riscos no cenário externo

Maurílio GoeldnerPor Maurílio Goeldner
16/06/2026

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central chega à reunião desta quarta-feira diante de um cenário mais complexo para a condução dos juros no Brasil. A expectativa majoritária entre economistas e instituições financeiras é de uma nova redução de 0,25 ponto percentual na taxa Selic, atualmente em 14,50% ao ano, o que levaria os juros básicos para 14,25% ao ano.

Apesar do provável corte, a discussão central do mercado não está apenas na decisão desta reunião, mas no tom do comunicado e na sinalização para os próximos encontros. A piora das expectativas de inflação, a resiliência da atividade econômica, os riscos fiscais e o ambiente externo ainda incerto reduziram o espaço para uma continuidade mais confortável do ciclo de flexibilização monetária.

Levantamento com economistas aponta que a maior parte dos participantes espera uma redução de 0,25 ponto percentual nesta reunião. Entre os bancos e casas de análise, a visão predominante também é de corte, mas com uma comunicação mais dura e maior cautela em relação aos próximos passos.

Na avaliação da XP, o recuo recente do petróleo ajuda a aliviar parte das pressões, mas não elimina os demais fatores que seguem pressionando a inflação. A casa projeta nova redução de 0,25 ponto percentual na Selic, para 14,25% ao ano, mas avalia que o Copom deve destacar no comunicado a deterioração do cenário inflacionário e os riscos para a convergência da inflação à meta.

A XP também considera que o ciclo de cortes está próximo de uma pausa. O cenário-base da instituição ainda contempla duas reduções adicionais de 0,25 ponto percentual, levando a Selic a 14% ao ano, mas a própria análise admite que o Banco Central pode interromper o ciclo após a decisão desta semana, caso o quadro de inflação e expectativas não apresente melhora.

O Itaú BBA segue linha semelhante. Em relatório, o banco projeta corte de 25 pontos-base, levando a Selic a 14,25% ao ano. A instituição, porém, espera que o Copom mantenha as opções em aberto para a próxima reunião e indique que o espaço remanescente para novas calibrações se tornou mais incerto. Para o banco, o quadro exige equilíbrio entre o avanço gradual da flexibilização e o risco de deterioração adicional do ambiente inflacionário.

O Santander também aponta para continuidade da calibração em junho, com Selic a 14,25% ao ano. No entanto, o banco passou a esperar uma pausa no ciclo de afrouxamento no segundo semestre e projeta Selic em 13,75% ao fim de 2026. A leitura é de cautela, em meio à pressão das curvas de juros globais, à aversão ao risco e à percepção de maior complexidade no cenário doméstico.

No BTG Pactual, a avaliação é de que a Selic deve cair uma última vez nesta reunião, para 14,25% ao ano, e permanecer estável até o fim de 2026. O banco revisou para cima suas projeções de inflação e destacou que o balanço de riscos segue inclinado para cima, em razão do choque nos preços de energia, da persistência da inflação de serviços, da desancoragem das expectativas e do quadro fiscal.

O Bank of America também passou a trabalhar com um cenário de ciclo mais curto. O banco projeta apenas mais um corte de 0,25 ponto percentual em junho e uma sinalização de pausa, elevando sua estimativa para a Selic ao fim de 2026 para 14,25% ao ano.

Entre os analistas locais, a avaliação também é de cautela. Rafael Cardoso, economista-chefe do Daycoval, afirma que o banco espera um corte de 0,25 ponto percentual nesta reunião, mantendo a trajetória de reduções graduais. “Da última reunião para agora, a gente pode dizer que as coisas ficaram um pouco mais complicadas da ótica da inflação”, avalia ele.

O economista cita uma combinação de fatores que limita a margem de atuação do Copom: inflação mais pressionada, piora das expectativas, atividade econômica ainda resiliente e ambiente internacional adverso. Mesmo com sinais recentes de encaminhamento do conflito no Oriente Médio, o quadro doméstico segue difícil para a autoridade monetária. “Mesmo quando a gente desconsidera o conflito do Oriente Médio, a situação para o Banco Central local ainda é bastante difícil”, observa Cardoso.

Ao mesmo tempo, ele espera que o comunicado traga uma sinalização de maior incerteza, sem necessariamente encerrar o ciclo de cortes. Na visão do economista, a autoridade monetária pode adotar uma postura mais conservadora no discurso, diante da deterioração das expectativas, da inflação corrente e dos riscos climáticos associados ao El Niño no segundo semestre.

“O Banco Central vai deixar as portas abertas para a próxima reunião, ganhar esses 45 dias para reavaliar a situação lá na frente”, conclui Rafael Cardoso.

A decisão ocorre em um momento em que o mercado financeiro elevou novamente suas projeções para a Selic ao fim de 2026, de acordo com o Boletim Focus. A mediana das expectativas passou para 13,75% ao ano, reforçando a percepção de juros elevados por mais tempo. A projeção para o IPCA de 2026 também subiu, chegando a 5,3%, acima do teto da meta de inflação.

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Esse quadro aumenta a importância da comunicação do Copom. Se o Banco Central cortar os juros, mas adotar um tom duro, a leitura pode ser de que a redução desta semana representa uma calibragem final antes de uma fase de espera. Se o comunicado deixar espaço claro para novas quedas, a curva de juros pode reagir com algum fechamento nos vencimentos mais curtos, embora o mercado ainda mantenha prêmios elevados.

Para investidores, a principal mensagem é que o ciclo de queda da Selic tende a ser mais limitado do que se imaginava meses atrás. A renda fixa pós-fixada segue beneficiada pelo nível elevado dos juros, enquanto os títulos prefixados e indexados à inflação continuam sensíveis ao tom do Copom e à evolução das expectativas. Na bolsa, setores mais dependentes de crédito e consumo tendem a reagir à percepção sobre a duração dos juros altos.

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