BM&C NEWS
  • AO VIVO 🔴
  • MERCADOS
  • ECONOMIA
  • POLÍTICA
Sem resultado
Veja todos os resultados
  • AO VIVO 🔴
  • MERCADOS
  • ECONOMIA
  • POLÍTICA
Sem resultado
Veja todos os resultados
BM&C NEWS
Sem resultado
Veja todos os resultados

Uma cidade fantasma de luxo: o mistério da vila no litoral de São Paulo que foi abandonada pelo mar e hoje é parque natural

Vitor Por Vitor
14/04/2026
Em Cidades

Distrito de Guaraqueçaba, no litoral norte do Paraná, Ararapira já foi uma das vilas mais movimentadas de todo o trajeto entre São Paulo e Curitiba, até que o mar começou a levar tudo embora. Hoje, restam apenas as ruínas, uma igreja que data do século XVIII e o silêncio profundo da Mata Atlântica.

De movimentado entreposto colonial a vila fantasma no espaço de um século

São José do Ararapira foi uma das 21 vilas fundadas pela coroa portuguesa na Capitania de São Paulo ao longo do século XVIII, tendo sido elevada à condição de freguesia em 1776. Sua posição era bastante estratégica: a vila ficava bem no meio do caminho marítimo que ligava as baías de Cananéia e Paranaguá, servindo como ponto de parada quase obrigatório para viajantes, comerciantes e tropeiros que faziam a conexão entre São Paulo e Curitiba pela costa. A presença europeia na região, no entanto, é ainda mais antiga. O aventureiro alemão Hans Staden já havia registrado, em 1547, sua entrada na barra do Superagui durante uma forte tempestade, descrevendo o encontro com portugueses que já estavam por ali estabelecidos. Antes mesmo da expulsão dos jesuítas, a ordem religiosa fundou um estabelecimento de caráter agrícola no istmo do Superagui, local que é mencionado nas cartas de Anchieta como Supraya, um dos caminhos que levavam ao Paraguai.

Ararapira une o mistério das ruas engolidas pelo mar à força da mata que retoma o resto // Créditos: Wikipédia // Wikimedia Commons

Em seu período de maior prosperidade, que vai das décadas de 1930 a 1950, Ararapira chegou a abrigar cerca de 500 famílias. A vila contava com grandes armazéns que chegavam a vender tecidos vindos da Inglaterra, além de padarias, uma agência dos correios, cartório, uma delegacia que tinha até cela própria e um motor movido a diesel que era o responsável por fornecer energia elétrica para todos. Ao som das violas e das sanfonas, a comunidade inteira se reunia na praça central para dançar o tradicional fandango. As festas em homenagem ao padroeiro São José, celebradas todo dia 19 de março, eram consideradas as mais concorridas de todo o litoral que se estende entre os dois estados.

Ararapira oferece um cenário de abandono poético entre o Paraná e São Paulo // Créditos: Wikipédia // Wikimedia Commons

Os três duros golpes que esvaziaram a vila: o canal, a lei e o mar

O primeiro desses golpes foi de natureza política. No ano de 1920, uma lei de âmbito federal alterou os limites da divisa entre os estados de São Paulo e do Paraná, transferindo Ararapira do município de Cananéia (SP) para Guaraqueçaba (PR). Os moradores, que eram paulistas de nascimento, se revoltaram com a mudança. A maior parte deles decidiu abandonar a vila e acabou fundando o povoado de Ariri, que ficava do lado paulista, levando consigo uma boa parcela da vida econômica e social que até então sustentava o lugar.

O segundo golpe veio da geografia. Durante a década de 1950, a abertura do Canal do Varadouro acabou por transformar o istmo do Superagui em uma ilha artificial, o que alterou de forma significativa o regime das marés na região. As correntes marítimas começaram a corroer a planície costeira com uma velocidade cada vez maior. De acordo com relatos de antigos moradores, a força da erosão já foi responsável por levar embora mais de 70 metros de terra firme e por derrubar mais de vinte construções de valor histórico. Armazéns que antes abasteciam toda a região simplesmente desapareceram de um dia para o outro no fundo do canal lagunar. Ao mesmo tempo, as novas estradas que iam sendo abertas pelo interior do continente passaram a absorver todo o fluxo de tráfego entre os dois estados, e a vila foi perdendo a sua principal razão de existir como ponto de parada e entreposto comercial.

O terceiro golpe foi ambiental. Na década de 1990, a criação do Parque Nacional do Superagui proibiu plantações e inviabilizou a permanência de quem ainda resistia. Em 1999, a UNESCO declarou a região Patrimônio Natural da Humanidade. Em 2000, a última moradora fixa faleceu durante uma viagem de barco rumo a Paranaguá, e Ararapira ficou oficialmente desabitada.

Quem busca mistérios em lugares abandonados, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Marcel Jurado – FPV BACANA, que conta com mais de 1.400 mil visualizações, onde Marcel explora a cidade fantasma de Ararapira sumindo no mar:

Leia Mais

Oymyakon é o assentamento humano permanente mais frio da Terra (imagem ilustrativa)

A cidade mais fria do mundo: o vilarejo onde o termômetro já marcou -71°C, os carros nunca desligam e 500 almas sobrevivem onde a vida parece impossível

14 de abril de 2026
A capital das bicicletas tem o maior estacionamento do mundo para 12.500 bicicletas e trata o carro como visita indesejada

A capital das bicicletas tem o maior estacionamento do mundo para 12.500 bicicletas e trata o carro como visita indesejada

13 de abril de 2026

O que o tempo não levou: ruínas entre a mata e o canal

Chegar de barco a Ararapira é, antes de mais nada, avistar uma encosta que está inteiramente coberta por tijolos desmoronados, como se a vila tivesse sido cortada ao meio por uma lâmina afiada. Tudo aquilo que conseguiu sobreviver à força da erosão acabou sendo engolido pela Mata Atlântica, e o resultado final é um cenário que mais parece ter saído de um filme em que a natureza saiu vencedora.

  • Igreja de São José (século XVIII): permanece de pé com as portas abertas. Um dos dois sinos de bronze originais ainda pode ser badalado; o outro desapareceu. A imagem de São José que datava da fundação foi roubada no início dos anos 2000 e substituída por outra, colocada em uma pequena capela de madeira dentro da nave. A luz filtrada pelas árvores que cresceram ao redor cria uma penumbra que reforça a sensação de tempo suspenso.
  • Cemitério: parcialmente tomado pela vegetação, ainda é utilizado pelas comunidades caiçaras vizinhas. Túmulos antigos dividem espaço com raízes que avançam entre as lápides. O local foi alvo de vandalismo e violação de sepulturas, o que mobilizou pedidos de proteção por parte de descendentes.
  • Encosta erodida: o ponto mais impactante é a beira do Canal do Ararapira, onde a planície simplesmente acaba em um barranco de tijolos, pedras e raízes expostas. É possível ver os alicerces das construções que o mar levou. Pesquisadores da Universidade Federal do Paraná monitoram o avanço, que pode provocar o rompimento total da restinga no Estreito do Melão e formar uma nova ilha até a década de 2030.
  • Antiga delegacia e trilhas: os caminhos da vila se transformaram em trilhas que cruzam casas em ruínas invadidas pela mata, os restos da delegacia e galpões comerciais. Latas enferrujadas, garrafas e pedaços de cerâmica surgem entre folhas no chão, como uma arqueologia acidental.
  • Vila Americana e casas remanescentes: algumas moradias mais recentes ainda são visitadas ocasionalmente por proprietários e dispõem de geradores. Um único morador informal, contratado pelos donos das casas, cuida das trilhas e tenta inibir a ação de saqueadores.
Ararapira integra ruínas preservadas à natureza selvagem em uma vila que o tempo esqueceu // Créditos: Wikipédia // Wikimedia Commons

A terra que não para de se mover debaixo dos pés

A força da erosão que foi a responsável por esvaziar Ararapira não deu nenhum sinal de que tenha parado. O Canal do Ararapira, esse braço de mar que faz a separação entre os estados do Paraná e de São Paulo, funciona como um rio de traçado bastante sinuoso que corrói uma de suas margens com uma intensidade cada vez maior a cada novo ciclo de marés. No trecho que é conhecido como Estreito do Melão, a estreita faixa de restinga que separa o oceano aberto do canal já encolheu de 100 metros para apenas cerca de 20 metros. De acordo com o geólogo Rodolfo José Angulo, que é professor da UFPR, o rompimento completo dessa barreira é dado como algo inevitável e deve ocorrer em algum momento entre os anos de 2032 e 2034.

Quando esse rompimento de fato acontecer, um trecho de aproximadamente 6 quilômetros ao sul do estreito ficará completamente cercado por água, formando assim uma nova ilha a partir do que é hoje a Ilha do Cardoso. A expectativa é que a barra que existe atualmente venha a se fechar por conta do acúmulo de sedimentos, alterando de forma significativa as rotas de navegação e afetando diretamente os manguezais, a atividade da pesca artesanal e pelo menos seis comunidades caiçaras tradicionais que vivem na região. Em 2018, um episódio de características bem semelhantes já havia ocorrido na Enseada da Baleia, quando uma forte ressaca abriu uma nova passagem para o mar e forçou a realocação de diversas famílias. A Justiça já deu um prazo de 45 dias para que o governo apresente as providências que serão tomadas em relação a esse novo e iminente avanço do mar.

Ararapira brilha como um testemunho histórico da erosão e da memória caiçara // Créditos: Wikipédia // Wikimedia Commons

Leia também: Na Suíça, os pobres vivem em “favelas” que oferecem uma qualidade de vida muito superior à de muitas cidades do mundo inteiro

Uma vila que só desperta de seu silêncio uma vez por ano

Todos os anos, no dia 19 de março, os antigos moradores e seus descendentes retornam de barco a Ararapira para celebrar a tradicional Festa de São José. Eles começam a chegar com mais ou menos uma semana de antecedência: pintam as fachadas das casas, limpam as trilhas, fazem os pequenos reparos necessários na igreja e deixam tudo preparado para a grande celebração. Nos anos de maior movimento, a festa já chegou a reunir cerca de 300 pessoas em uma vila onde já não mora mais ninguém. É o único momento em que Ararapira consegue lembrar, ainda que por um breve instante, daquilo que um dia já foi: música, comida farta e vozes que ecoam pelas mesmas paredes que, durante o resto do ano, ouvem apenas o som do vento e o estalido da mata que não para de crescer.

Apesar de ser considerada Patrimônio Natural e Histórico do Paraná desde o longínquo ano de 1970, e mesmo estando inserida em uma área que foi reconhecida pela UNESCO como Reserva da Biosfera, a vila jamais chegou a receber um tombamento formal por parte do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Tanto os historiadores quanto os ex-moradores defendem a necessidade de uma reforma na igreja, a realização de obras para conter o avanço do barranco e a criação de um memorial que preserve essa memória. Por enquanto, esse pedido ainda segue sem qualquer tipo de resposta, enquanto o Canal do Ararapira continua levando embora, tijolo por tijolo, aquilo que ainda resta de uma das vilas mais antigas de todo o litoral sul do Brasil.

Caso prisão de Alexandre Ramagem: o que significa estar sob custódia do ICE nos Estados Unidos

Sun Tzu, autor de A Arte da Guerra: “Conheça o inimigo e a si mesmo; em cem batalhas nunca estarás em perigo”

Esqueça o rubi! Esta gema de dureza 3 é tão rara e frágil que raramente pode ser lapidada, sendo um fenômeno da geologia

A linha férrea mais íngreme do mundo desce 866 metros em apenas 20 quilômetros passando por 18 túneis escavados à mão na rocha maciça

Com 3.364 km de extensão pelo deserto mais seco do mundo, a rodovia chilena surge como um desafio de engenharia em clima extremo

Arqueólogos encontram no sul do Chile moeda de prata de 1584 enterrada sob igreja e localizam colônia espanhola abandonada há 440 anos

Quem somos

A BM&C News é um canal multiplataforma especializado em economia, mercado financeiro, política e negócios. Produz conteúdo jornalístico ao vivo e sob demanda para TV, YouTube e portal digital, com foco em investidores e executivos.

São Paulo – Brasil

Onde assistir

Claro TV+ – canal 547
Vivo TV+ – canal 579
Oi TV – canal 172
Samsung TV Plus – canal 2053
Pluto TV

Contato

Redação:
[email protected]

Comercial:
[email protected]

Anuncie na BM&C News

A BM&C News conecta marcas a milhões de investidores através de TV, YouTube e plataformas digitais.

COPYRIGHT © 2026 BM&C News. Todos os direitos reservados.

Bem-vindo!

Faça login na conta

Lembrar senha

Retrieve your password

Insira os detalhes para redefinir a senha

Conectar

Adicionar nova lista de reprodução

Sem resultado
Veja todos os resultados
  • AO VIVO 🔴
  • MERCADOS
  • ECONOMIA
  • POLÍTICA

COPYRIGHT © 2026 BM&C News. Todos os direitos reservados.