A divulgação do IPCA de fevereiro, que registrou alta de 0,70%, reacendeu o debate no mercado sobre os próximos passos da política monetária e o tamanho do eventual corte da taxa Selic na reunião do Copom da próxima semana. Embora o resultado tenha vindo acima das expectativas de parte dos analistas, o índice segue acumulando inflação abaixo de 4% em 12 meses, o que mantém em aberto o cenário para a condução dos juros. Em meio a um ambiente ainda marcado por incertezas externas, especialmente ligadas ao impacto da alta do petróleo e por sinais mistos na dinâmica inflacionária doméstica, economistas avaliam que a autoridade monetária deve adotar postura cautelosa.
IPCA de fevereiro acima do esperado reforça cautela sobre juros
Na avaliação do Departamento de Pesquisa Econômica do Banco Daycoval, o IPCA superou a projeção da instituição, estimada em 0,65%, devido principalmente à surpresa altista nos preços de alimentos no domicílio. Apesar disso, a casa manteve a projeção de inflação de 3,8% para o fim de 2026, destacando que a principal contribuição de alta veio dos serviços, pressionados pelos reajustes sazonais em educação e pela elevação das passagens aéreas.
“O núcleo de serviços subjacentes também avançou acima do esperado, reforçando o desafio para o Banco Central no controle das pressões inflacionárias ligadas a itens intensivos em trabalho“, avalia o relatório.
Para o Daycoval, a expectativa central ainda é de corte de 0,25 ponto percentual na Selic, mas o conflito no Oriente Médio e o IPCA mais pressionado introduzem um viés de manutenção.
Risco geopolítico entra no radar da inflação
Para o economista Maykon Douglas, embora o resultado tenha ficado acima do consenso, o índice representa o menor patamar para fevereiro desde 2020, sinalizando os efeitos do aperto monetário já realizado. Segundo ele, os serviços intensivos em trabalho mostram sinais de pico, com desaceleração pelo segundo mês consecutivo, ainda que permaneçam distantes da meta inflacionária.
“No curto prazo, o principal risco segue sendo a evolução das tensões geopolíticas e o impacto sobre os combustíveis, especialmente diante da defasagem entre os preços domésticos e internacionais. Mesmo assim, o economista mantém a expectativa de um corte de 25 pontos-base na Selic na reunião do Copom“, avalia o economista.
Composição qualitativa pior do que o esperado
Já Mariana Rodrigues, economista da SulAmérica Investimentos, avalia que o IPCA trouxe uma composição qualitativa pior do que o esperado, com inflação de serviços ainda pressionada e desempenho menos favorável de componentes como alimentação no domicílio e bens industriais, que vinham contribuindo para revisões baixistas nas projeções.
“Diante da alta recente do petróleo, a projeção de inflação da instituição, em 4,1% para 2026, já passa a apresentar viés altista“, avalia.
Inflação de serviços sustenta postura conservadora
Na leitura de Gabriel Pestana, economista sênior da Genial Investimentos, o resultado acima das estimativas, tanto da casa quanto do mercado, indica uma deterioração marginal da inflação, concentrada principalmente em serviços e nos núcleos. Embora parte da surpresa esteja associada a fatores pontuais, como impacto menor do que o esperado da chamada “semana do cinema”, o avanço dos núcleos e a resiliência dos serviços reforçam a necessidade de cautela por parte do Banco Central.
“O dado fortalece a expectativa de redução no ritmo de flexibilização monetária, com maior probabilidade de um corte de 0,25 ponto percentual, em vez de movimentos mais intensos“, avalia.













