O número de empresas que recorrem à recuperação judicial disparou no Brasil e reacendeu o debate sobre o ambiente econômico enfrentado pelo setor produtivo. A escalada recente ocorre em um momento marcado por juros elevados, crédito mais restrito e aumento do endividamento corporativo.
Dados da série histórica mostram que os pedidos de recuperação judicial voltaram a acelerar nos últimos anos, após um período de queda observado entre 2019 e 2022.
Segundo dados públicos o número de empresas que pediram recuperação judicial ao longo da última década, a quantidades de empresas que buscaram proteção judicial contra credores atingiu 5.680 pedidos em 2025, o maior patamar da série recente.
O avanço chama atenção porque ocorre após anos em que o indicador havia recuado, o que levanta questionamentos sobre os fatores econômicos por trás desse movimento.
A série indica que o indicador atingiu um pico em 2016, durante a recessão econômica, voltou a cair gradualmente nos anos seguintes e voltou a acelerar a partir de 2023. Curiosamente, em governos petistas, esse número apresentou aumento, enquanto em governos não petistas, o número teve queda.
Ambiente econômico e recuperação judicial
Para Max Mustrangi, CEO da Excellance, o comportamento das recuperações judiciais está diretamente ligado ao ambiente econômico criado pelas políticas adotadas ao longo do tempo.
Segundo ele, fatores como juros elevados, deterioração fiscal e restrição de crédito acabam pressionando as empresas.
“Quando o risco aumenta, o crédito fica mais caro e mais restrito. As empresas passam a ter dificuldade de financiar suas operações e muitas acabam recorrendo à recuperação judicial”, afirma.
Na avaliação do executivo, o ambiente econômico influencia diretamente a capacidade das empresas de manter margens, acessar financiamento e sustentar o fluxo de caixa.
Entre os fatores que pressionam o setor produtivo estão:
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aumento da taxa de juros;
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deterioração do câmbio;
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retração da oferta de crédito;
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queda do poder de compra das famílias;
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aumento do endividamento corporativo.
“Esse conjunto de elementos cria um cenário de maior vulnerabilidade financeira para as empresas“, avalia.
Perfil das empresas em recuperação judicial mudou
Outro ponto destacado por Mustrangi é a mudança no perfil das empresas que recorrem à recuperação judicial.
Nos ciclos anteriores de crise, predominavam pedidos de micro e pequenas empresas, com volumes de dívida menores.
Hoje, segundo ele, o cenário é diferente.
Há maior participação de:
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empresas médias;
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grandes companhias;
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produtores rurais pessoa física.
Esse movimento amplia o impacto financeiro das recuperações judiciais sobre o sistema econômico.
“O volume de dívidas envolvidas nesses processos hoje pode ultrapassar centenas de bilhões de reais, ampliando os efeitos sobre o sistema financeiro, credores e cadeias produtivas“, avalia.
Recuperação judicial reflete problemas acumulados
Mustrangi ressalta que os pedidos de recuperação judicial não refletem apenas a situação econômica do momento, mas também problemas acumulados ao longo de vários anos.
“As empresas vão acumulando dificuldades ao longo do tempo até chegar ao momento em que entram na UTI, que é a recuperação judicial.”
Por isso, segundo ele, decisões econômicas tomadas em um determinado governo podem levar anos para aparecer nas estatísticas.
Política econômica e indicadores macroeconômicos
Para o executivo, fatores macroeconômicos como juros, inflação e crescimento econômico são consequência direta das políticas econômicas adotadas.
Ele afirma que ambientes com maior previsibilidade fiscal, menor pressão tributária e menor intervenção estatal tendem a favorecer o investimento e ampliar a oferta de crédito.
Já cenários de maior pressão fiscal e aumento do risco econômico podem levar à retração do crédito e ao aumento das dificuldades financeiras das empresas.
Embora os dados mostrem oscilações relevantes ao longo dos anos, o especialista ressalta que não é possível afirmar que mudanças de governo, por si só, provoquem aumento ou queda nas recuperações judiciais.
Segundo ele, o movimento depende principalmente do ambiente econômico criado ao longo do tempo.
“Os efeitos das decisões econômicas podem levar anos para aparecer nas estatísticas, tanto para o bem quanto para o mal”, afirma.












