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Fed corta juros em 0,25 p.p. no intervalo de 3,5% a 3,75%

Renata Nunes Por Renata Nunes
11/12/2025
Em ECONOMIA

O FED anunciou nesta quarta-feira (10) um corte de 0,25 ponto percentual na taxa de juros dos Estados Unidos, levando o intervalo para 3,50% a 3,75%. A decisão já era amplamente esperada pelo mercado, e abre uma nova fase no ciclo monetário norte-americano após meses de debates sobre a desaceleração econômica e o comportamento da inflação.

A BM&C News fará cobertura ao vivo do discurso de Jerome Powell a partir das 16h, com análise e comentários de especialistas. Confira:

Cenário econômico: emprego enfraquece e inflação permanece elevada, aponta Fed

Segundo o FOMC, indicadores mais recentes confirmam um ambiente de atividade moderada. O comitê observa:

  • crescimento econômico ainda positivo, porém moderado;
  • ganhos de emprego mais lentos em 2025;
  • elevação gradual da taxa de desemprego ao longo do ano;
  • inflação em alta desde o início do ano, permanecendo “algo elevada”.

O colegiado afirma que busca, no longo prazo, máximo emprego e inflação de 2%, mas reconhece que a incerteza sobre o cenário econômico segue elevada. Além disso, destaca que os riscos negativos para o emprego aumentaram nos últimos meses, alterando o balanço de riscos que orienta a política monetária.

Comunicado reforça monitoramento contínuo e possibilidade de ajustes

O FOMC reiterou que está preparado para alterar a trajetória da política monetária caso riscos adicionais impeçam o cumprimento das metas de emprego e inflação. O comitê seguirá acompanhando:

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  • condições do mercado de trabalho;
  • pressões inflacionárias;
  • expectativas de inflação;
  • condições financeiras;
  • desenvolvimentos internacionais.

Essa postura indica que não há trajetória predefinida para novos cortes, tudo dependerá da evolução dos dados.

Fed volta a comprar Treasuries de curto prazo

Outro ponto importante do comunicado foi o anúncio de que o Federal Reserve voltará a comprar Treasuries de curto prazo, quando necessário, para manter um nível “amplo” de reservas bancárias.

O comitê afirma que os saldos de reservas caíram para patamar considerado adequado, e as compras serão acionadas conforme necessário para preservar o bom funcionamento do sistema financeiro.

Decisão não foi unânime: divisão clara no FOMC

O corte de 0,25 p.p. não contou com unanimidade. Os votos foram distribuídos da seguinte forma:

Votaram a favor da redução de 0,25 p.p.:

  • Jerome Powell, Chair
  • John C. Williams, Vice Chair
  • Michael S. Barr
  • Michelle W. Bowman
  • Susan M. Collins
  • Lisa D. Cook
  • Philip N. Jefferson
  • Alberto G. Musalem
  • Christopher J. Waller

Votos contrários (3 dissensos):

  • Stephen Miran, defendeu corte maior, de 0,50 p.p.;
  • Austan Goolsbee, preferia manter a taxa inalterada;
  • Jeffrey Schmid, também defendia nenhuma mudança.

Essa composição mostra divergência relevante no comitê: parte considera que a economia exige estímulo mais agressivo, enquanto outra avalia que cortar juros neste momento não seria apropriado diante da inflação ainda elevada.

Análise de Gustavo Cruz: a divisão do Fed e o componente político que deve marcar 2026

Para Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, o ponto mais relevante da decisão não foi apenas o corte de 0,25 p.p., mas a divergência explícita dentro do comitê e o sinal político que começa a ganhar espaço na condução da política monetária americana.

Ele destaca que, apesar do receio do mercado de um comunicado excessivamente “hawkish”, o FOMC mostrou um quadro misto: parte dos dirigentes defenderam manutenção e até alta dos , enquanto outro grupo vê espaço para reduções mais agressivas.

Cruz chama atenção especial para o voto de Stephen Miran, indicado pelo governo Trump, que novamente defendeu um corte maior, de 0,50 p.p., e projetou juros em 2% já no próximo ano, alinhado ao discurso público do presidente.

“Esse posicionamento é um indicativo do que pode ocorrer com o novo comando do Fed em 2026, quando a influência política pode pesar mais nas discussões internas”, destacou Cruz.

Ele ressaltou ainda revisões importantes nas projeções: alta do PIB para 2026 (de 1,8% para 2,3%) e redução da inflação projetada (de 2,6% para 2,4%), fatores que tornam mais plausíveis cortes adicionais abaixo de 3%, caso a produtividade, impulsionada pela adoção de inteligência artificial, avance como esperado.

“O debate de 2026 será diferente: não será apenas técnico, será também político”, conclui Cruz.

Análise de Bruno Perri: Fed mantém porta aberta, mas divisão interna limita previsibilidade

Para Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, a decisão do Fed veio exatamente como o mercado precificava, com um corte de 25 pontos-base já amplamente antecipado. Ele destaca, porém, que a ausência de consenso entre os diretores reduz a visibilidade sobre os próximos passos e torna mais provável uma eventual pausa na próxima reunião.

Segundo Perri, o comunicado reforça a postura data dependent, reconhecendo a moderação da atividade e o enfraquecimento do mercado de trabalho, ao mesmo tempo em que aponta inflação ainda acima da meta e incerteza elevada.

“O corte foi motivado mais pelo risco crescente no emprego do que pela inflação corrente. Novos cortes continuam no radar, mas dependerão do comportamento do payroll e da dinâmica do mercado de trabalho. Caso os dados se deteriorem rapidamente, há espaço para uma nova redução já no início do ano, embora a resistência de parte do comitê torne esse cenário menos automático“, destaca Perri. 

Destaques do pronunciamento de Powell: cautela com dados, riscos assimétricos e discussão aberta sobre novos cortes

No pronunciamento que se seguiu à decisão, Jerome Powell reforçou que os dados disponíveis indicam pouca mudança nas perspectivas de emprego e inflação desde a última reunião, mas alertou que parte das informações recentes pode estar distorcida pela paralisação do governo federal, que interrompeu a coleta de dados em outubro e parte de novembro.

Powell afirmou que tanto demissões quanto contratações permanecem baixas, mas reconheceu que os riscos para o mercado de trabalho estão inclinados para baixo, enquanto os riscos para a inflação permanecem pressionados para cima.

O presidente do Fed classificou a taxa de juros atual como estando no limite superior da faixa neutra e disse que o Comitê está “bem posicionado para esperar e ver” como a economia evolui antes de decidir sobre o ritmo dos próximos cortes, destacando que ainda não há decisão para a reunião de janeiro.

Powell também explicou a divisão interna do FOMC, observando que todos concordam sobre o enfraquecimento do mercado de trabalho, mas divergem na avaliação dos riscos inflacionários. Ele reiterou que a inflação de serviços mostra sinais de desaceleração, enquanto a de bens reflete principalmente tarifas, e disse acreditar que, sem tarifas, a inflação já estaria próxima de 2%.

Ao justificar o início das compras de Treasuries de curto prazo para manter reservas amplas, Powell enfatizou que o ambiente segue desafiador e sem caminhos livres de risco, deixando claro que as discussões internas foram respeitosas, porém firmes, e que o debate daqui para frente será sobre “parar de cortar aqui ou reduzir as taxas um pouco, ou mais do que um pouco”.

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