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Nova Guerra Fria: disputa entre China e Ocidente redefine poder global e pressiona posicionamento do Brasil

Em entrevista ao BM&C Visões, jornalista Marcos Schotgues afirma que mundo entra em era de competição estratégica por tecnologia, influência e cadeias produtivas

Renata NunesPor Renata Nunes
18/02/2026

A ascensão da China, a reação do Ocidente e a reorganização das alianças internacionais indicam que o mundo vive uma nova Guerra Fria, desta vez menos ideológica e mais econômica, tecnológica e geopolítica. A avaliação é do jornalista especializado em Ásia, Marcos Schotgues, em entrevista à apresentadora Isabela Tacaki, no programa BM&C Visões.

Segundo ele, o cenário atual não se resume a disputas comerciais pontuais. Trata-se de uma transformação estrutural do sistema internacional.

“Estamos falando de uma disputa por poder global, tecnologia e influência que vai definir o rumo do século”, afirmou.

Na nova guerra fria, Ásia vira centro do tabuleiro global

Na análise de Schotgues, o Indo-Pacífico tornou-se o principal foco de tensão internacional. O avanço militar e econômico chinês, combinado com a resposta americana e o reposicionamento de aliados, reposiciona o Japão como peça estratégica.

Ele destacou que o país asiático passa por um processo gradual de remilitarização após décadas de pacifismo constitucional estabelecido no pós-Segunda Guerra Mundial.

“O Japão foi uma nação pacifista desde 1947, mas hoje enxerga riscos diretos de segurança nacional com a China ao lado e a possibilidade de conflito em Taiwan”, disse.

A mudança política recente no país, com liderança mais alinhada à direita, reflete esse ambiente. Segundo o entrevistado, a percepção de risco regional está ligada não apenas à rivalidade China-EUA, mas também à dependência energética e alimentar japonesa, já que se trata de uma ilha altamente dependente de rotas marítimas.

Guerra comercial é parte de estratégia maior

Para Schotgues, a chamada guerra comercial entre Estados Unidos e China é apenas uma face de um confronto mais amplo. Ele cita conceitos estratégicos históricos chineses para explicar a atuação de Pequim.

“A suprema arte da guerra é derrotar o inimigo sem combate. A disputa atual não necessariamente passa por conflito militar direto”, afirmou.

Nesse contexto, a competição ocorre em várias frentes:

  • comércio internacional e tarifas

  • tecnologia e inteligência artificial

  • cadeias produtivas

  • semicondutores

  • segurança cibernética

O objetivo, segundo ele, seria disputar a liderança global nas próximas décadas. Analistas internacionais frequentemente tratam essa estratégia como um projeto de longo prazo, voltado à reorganização da ordem internacional.

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Taiwan: ponto mais sensível da nova Guerra Fria

O principal foco de risco geopolítico, na visão do jornalista, é Taiwan. A ilha concentra grande parte da produção mundial de semicondutores avançados e possui importância militar estratégica.

“Taiwan é central por três motivos: tecnologia, geopolítica e legitimidade política”, explicou.

Ele afirma que a ilha:

  • abriga empresas líderes em chips avançados;

  • integra a cadeia de defesa do Pacífico ligada aos EUA;

  • representa um modelo político diferente do sistema chinês.

Um eventual conflito poderia impactar diretamente a economia global, sobretudo indústria eletrônica, automotiva e setor de tecnologia, altamente dependentes de semicondutores.

Reorganização econômica global

A nova disputa internacional já começa a alterar cadeias produtivas. Schotgues observa movimentos de reindustrialização nos Estados Unidos e tentativa de reduzir dependência de fornecedores chineses, especialmente em áreas consideradas críticas, como medicamentos, tecnologia e defesa.

Esse processo, conhecido internacionalmente como “de-risking”, busca diminuir riscos estratégicos sem romper completamente as relações comerciais.

“A ideia é reduzir dependência em setores sensíveis, não necessariamente parar de negociar”, afirmou.

Onde entra o Brasil nessa nova guerra fria

Para o entrevistado, países emergentes enfrentam um dilema estratégico. O Brasil mantém relações comerciais relevantes tanto com a China, principal parceiro comercial, quanto com o Ocidente, especialmente em investimentos, tecnologia e mercado financeiro.

“O risco é o país ficar apenas assistindo à mudança histórica sem definir estratégia própria”, avaliou.

Segundo ele, blocos multilaterais e alianças econômicas ganharão importância, e decisões sobre política industrial, energia e tecnologia serão determinantes para posicionamento internacional.

Cenários possíveis

Schotgues traça dois cenários principais para os próximos anos:

  1. Dissuasão — manutenção da rivalidade com tensão controlada, semelhante ao período entre EUA e União Soviética.

  2. Conflito regional — aumento de agressividade com possível crise envolvendo Taiwan.

“O objetivo das grandes potências tende a evitar guerra direta, mas o risco existe e cresce com a escalada tecnológica e militar”, afirmou.

nova guerra fria

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