A ascensão da China, a reação do Ocidente e a reorganização das alianças internacionais indicam que o mundo vive uma nova Guerra Fria, desta vez menos ideológica e mais econômica, tecnológica e geopolítica. A avaliação é do jornalista especializado em Ásia, Marcos Schotgues, em entrevista à apresentadora Isabela Tacaki, no programa BM&C Visões.
Segundo ele, o cenário atual não se resume a disputas comerciais pontuais. Trata-se de uma transformação estrutural do sistema internacional.
“Estamos falando de uma disputa por poder global, tecnologia e influência que vai definir o rumo do século”, afirmou.
Na nova guerra fria, Ásia vira centro do tabuleiro global
Na análise de Schotgues, o Indo-Pacífico tornou-se o principal foco de tensão internacional. O avanço militar e econômico chinês, combinado com a resposta americana e o reposicionamento de aliados, reposiciona o Japão como peça estratégica.
Ele destacou que o país asiático passa por um processo gradual de remilitarização após décadas de pacifismo constitucional estabelecido no pós-Segunda Guerra Mundial.
“O Japão foi uma nação pacifista desde 1947, mas hoje enxerga riscos diretos de segurança nacional com a China ao lado e a possibilidade de conflito em Taiwan”, disse.
A mudança política recente no país, com liderança mais alinhada à direita, reflete esse ambiente. Segundo o entrevistado, a percepção de risco regional está ligada não apenas à rivalidade China-EUA, mas também à dependência energética e alimentar japonesa, já que se trata de uma ilha altamente dependente de rotas marítimas.
Guerra comercial é parte de estratégia maior
Para Schotgues, a chamada guerra comercial entre Estados Unidos e China é apenas uma face de um confronto mais amplo. Ele cita conceitos estratégicos históricos chineses para explicar a atuação de Pequim.
“A suprema arte da guerra é derrotar o inimigo sem combate. A disputa atual não necessariamente passa por conflito militar direto”, afirmou.
Nesse contexto, a competição ocorre em várias frentes:
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comércio internacional e tarifas
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tecnologia e inteligência artificial
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cadeias produtivas
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semicondutores
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segurança cibernética
O objetivo, segundo ele, seria disputar a liderança global nas próximas décadas. Analistas internacionais frequentemente tratam essa estratégia como um projeto de longo prazo, voltado à reorganização da ordem internacional.
Taiwan: ponto mais sensível da nova Guerra Fria
O principal foco de risco geopolítico, na visão do jornalista, é Taiwan. A ilha concentra grande parte da produção mundial de semicondutores avançados e possui importância militar estratégica.
“Taiwan é central por três motivos: tecnologia, geopolítica e legitimidade política”, explicou.
Ele afirma que a ilha:
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abriga empresas líderes em chips avançados;
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integra a cadeia de defesa do Pacífico ligada aos EUA;
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representa um modelo político diferente do sistema chinês.
Um eventual conflito poderia impactar diretamente a economia global, sobretudo indústria eletrônica, automotiva e setor de tecnologia, altamente dependentes de semicondutores.
Reorganização econômica global
A nova disputa internacional já começa a alterar cadeias produtivas. Schotgues observa movimentos de reindustrialização nos Estados Unidos e tentativa de reduzir dependência de fornecedores chineses, especialmente em áreas consideradas críticas, como medicamentos, tecnologia e defesa.
Esse processo, conhecido internacionalmente como “de-risking”, busca diminuir riscos estratégicos sem romper completamente as relações comerciais.
“A ideia é reduzir dependência em setores sensíveis, não necessariamente parar de negociar”, afirmou.
Onde entra o Brasil nessa nova guerra fria
Para o entrevistado, países emergentes enfrentam um dilema estratégico. O Brasil mantém relações comerciais relevantes tanto com a China, principal parceiro comercial, quanto com o Ocidente, especialmente em investimentos, tecnologia e mercado financeiro.
“O risco é o país ficar apenas assistindo à mudança histórica sem definir estratégia própria”, avaliou.
Segundo ele, blocos multilaterais e alianças econômicas ganharão importância, e decisões sobre política industrial, energia e tecnologia serão determinantes para posicionamento internacional.
Cenários possíveis
Schotgues traça dois cenários principais para os próximos anos:
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Dissuasão — manutenção da rivalidade com tensão controlada, semelhante ao período entre EUA e União Soviética.
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Conflito regional — aumento de agressividade com possível crise envolvendo Taiwan.
“O objetivo das grandes potências tende a evitar guerra direta, mas o risco existe e cresce com a escalada tecnológica e militar”, afirmou.













