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Negócios no Brasil em 2026: as novas regras do jogo empresarial

Geopolítica, capital estrangeiro e novas regras contratuais redefinem a forma de fazer negócios no Brasil

Redação BM&C NewsPor Redação BM&C News
26/01/2026

O ano de 2025 marcou uma inflexão relevante na forma como os negócios são estruturados globalmente. A combinação entre tensões geopolíticas, avanço da inteligência artificial, mudanças regulatórias e novas dinâmicas de poder nas empresas redefiniu o ambiente para investidores e empresários, especialmente em mercados emergentes como o Brasil.

Essa é a leitura de Renato Ochman, especialista em empresas familiares e negociações complexas, entrevistado por Isabela Tacaki no programa BM&C Visões. Para ele, 2025 não foi apenas um ano difícil, mas um novo paradigma para o capitalismo contemporâneo.

“Foi um ano de desafios, mas os negócios não deixaram de acontecer. Eles apenas precisaram ser rapidamente readaptados”, afirmou.

Como ficam os negócios? Menos globalização, mais proteção, mas com limites

Segundo Ochman, o mundo deixou de operar sob a lógica clássica da globalização irrestrita. O avanço de políticas protecionistas, disputas comerciais e rearranjos geopolíticos fez com que países passassem a priorizar seus próprios interesses estratégicos.

“A globalização fez todo mundo achar que estava no mesmo circuito. Hoje isso mudou. Cada país cuida do seu quintal”, explica.

Apesar disso, ele pondera que a interdependência econômica continua sendo estrutural. Nenhuma economia consegue operar de forma isolada, especialmente em cadeias produtivas complexas como tecnologia, energia e alimentos.

“Politicamente pode existir protecionismo, mas nos negócios isso será sempre superado. Nenhum país vive sem o outro.”

Brasil entre China e Estados Unidos: uma janela histórica

Na disputa por protagonismo entre China e Estados Unidos, Ochman vê o Brasil diante de uma oportunidade rara. O movimento de industrialização da Ásia, com abertura de fábricas na Índia e Indonésia, amplia a demanda por alimentos, energia e matérias-primas, áreas onde o Brasil possui vantagem competitiva.

“O Brasil pode se tornar um grande fornecedor global de alimentos e energia para sustentar esse novo ciclo de crescimento”, afirma.

Além disso, o avanço da inteligência artificial e da economia de dados cria uma nova fronteira: infraestrutura energética e hídrica para data centers.

“O Brasil tem água, energia e recursos naturais. Pode ser protagonista no grande ciclo de fornecimento para a IA, se superar seus entraves institucionais.”

O principal entrave dos negócios no Brasil: regulação e segurança jurídica

Para Ochman, o maior obstáculo para o Brasil capturar esse fluxo de investimentos não é econômico, mas institucional. A legislação complexa, lenta e pouco previsível afasta o capital estrangeiro.

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“O investidor não quer benefício fiscal. Ele quer segurança jurídica e previsibilidade.”

Segundo ele, o modelo jurídico brasileiro ainda carrega traços excessivamente formais, herdados da tradição portuguesa, enquanto o mundo caminha para contratos autoaplicáveis e regulações mais objetivas.

“A regulamentação no Brasil demora anos. O investidor estrangeiro não entende essa morosidade.”

Reforma tributária: mais clareza ou mais dúvida?

Na avaliação do especialista, a reforma tributária trouxe mais incerteza no curto prazo, tanto para investidores nacionais quanto estrangeiros.

“A dúvida é igual para todos. Criamos uma nova estrutura de cobrança que ainda não está clara nem para o próprio Estado.”

Ele acredita, no entanto, que o ambiente tende a se estabilizar em 2026, à medida que órgãos públicos e empresas passem a interpretar e aplicar a nova legislação.

“Mesmo com dúvidas, isso será superado. O Brasil continuará sendo importador de capital.”

Negócios mais rápidos, ativos mais leves

Uma das transformações mais profundas, segundo Ochman, está no perfil dos ativos. Empresas de tecnologia, IA e data centers operam com ativos leves, ou seja, sem imóveis, máquinas ou estoques relevantes.

“São empresas que valem bilhões e têm poucos anos de existência. O principal ativo é a inteligência.”

Isso muda radicalmente a lógica dos contratos, das garantias e da própria negociação.

“Os negócios hoje são fechados em dias, às vezes em uma semana. Não há mais tempo para processos longos.”

Novas garantias e contratos automáticos

Com menos ativos físicos, as garantias passam a ser financeiras e contratuais: recebíveis futuros, seguros de performance e cláusulas autoexecutáveis.

“O pulo do gato são cláusulas automáticas. Se houver descumprimento, a penalidade é imediata.”

Ele critica o modelo tradicional brasileiro, baseado em indenizações judiciais.

“No Brasil, uma disputa pode durar 20 anos. Nesse tempo, quem perde é a empresa.”

Por isso, os contratos modernos priorizam mecanismos de saída automática, penalidades pré-definidas e garantias líquidas.

O papel do negociador profissional

Outro ponto central da análise é a valorização do negociador profissional. Para Ochman, o Brasil ainda subestima esse papel. Segundo ele, negociar não é vencer, mas entender prioridades.

“Todo mundo acha que é bom negociador. Mas quando se trata do próprio negócio, a emoção atrapalha. Conceder não é perder. É identificar o que é importante para o outro e o que não é essencial para você.”

Nas empresas familiares, a dinâmica é ainda mais complexa. Ochman afirma que os conflitos raramente são financeiros, são disputas por poder, vaidade e reconhecimento.

“O desejo do herdeiro é poder. Não é patrimônio.”

Por isso, a sucessão precisa começar cedo e ser tratada como um processo psicológico antes de jurídico.

“O fundador pensa com a própria cabeça, mas raramente entende a cabeça de cada filho.”

Ele defende a atuação de consultores externos e conselhos independentes para profissionalizar decisões e reduzir conflitos emocionais.

Governança e liderança: o fator decisivo

Para Ochman, o Brasil tem muitas boas empresas familiares, mas precisa avançar em governança para atrair investidores estrangeiros.

“O investidor não quer entrar em briga familiar.”

No plano macro, ele aponta que a principal variável para o futuro do país não é fiscal, mas de liderança.

“Sem boa liderança, não há mudança institucional, nem crescimento sustentável.”

Segundo ele, o mundo vive uma transição geracional de lideranças, e o Brasil precisa formar novos líderes, empresariais e políticos, capazes de lidar com um ambiente mais complexo, veloz e competitivo.

“A renovação é fundamental. Lideranças longas e sem renovação se tornam um problema.”

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