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“Conjuntura acende alerta para dívida, juros e crise”, diz Otávio Fakhoury

Para o empresário, o modelo baseado em dívida se esgota e a pressão econômica aumenta.

Renata NunesPor Renata Nunes
11/12/2025

A conjuntura econômica e política do Brasil em 2025 é o tema da discussão que recebeu o empresário e investidor Otávio Fakhoury. Em entrevista ao BM&C Talks, ele afirmou que o país vem sustentando o crescimento com endividamento e expansão de gastos públicos, em um cenário de juros de dois dígitos e confiança limitada na política fiscal.

Fakhoury lembrou que, nas últimas três décadas, o Brasil perdeu peso industrial e passou a depender principalmente de agronegócio, serviços e gasto do governo para compor o PIB. Ao mesmo tempo, a máquina pública cresceu sem que houvesse, de fato, um controle estrutural das despesas.

Da bonança das commodities ao nó fiscal nunca desfeito: a conjuntura em evidência

Ao comparar o momento atual com a crise de 2015–2016, Fakhoury destacou que o país surfou, por muitos anos, a onda das commodities em alta e do forte superávit externo. Esse período permitiu pagar a dívida com o FMI, recomprar títulos no exterior e conviver com aumento de gastos sem explosão imediata dos juros.

Quando o preço do minério de ferro e o ambiente global mudaram, o choque veio em forma de recessão, queda de atividade e deterioração fiscal. Reformas aprovadas após o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff ajudaram a reorganizar parcialmente a economia, mas, segundo Fakhoury, o problema central permaneceu:

“Nenhum governo resolveu o tema do gasto público. A pandemia só ampliou o tamanho da conta e recolocou a dívida em trajetória de alta”, avaliou.

Dívida alta, juros em dois dígitos e prêmio de risco elevado

Hoje, o país convive em uma conjuntura com dívida pública caminhando para 85%–90% do PIB e taxa básica em patamar elevado. Na avaliação de Fakhoury, a taxa de juros de longo prazo, em torno de dois dígitos, reflete o prêmio de risco exigido pelo mercado diante da percepção de que o governo privilegia aumento de arrecadação, e não controle de gastos.

Ele vê, no horizonte, três riscos principais:

  • pressão por soluções inflacionárias para reduzir o peso real da dívida;

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  • questionamentos à autonomia do Banco Central;

  • ou necessidade de um ajuste duro, com medidas impopulares, logo após as eleições de 2026.

Eleições de 2026, “trade Tarcísio” e o cálculo da Faria Lima

A política entra diretamente nessa equação. Fakhoury avalia que parte da melhora recente de alguns ativos brasileiros está ligada à aposta do mercado em mudança de governo em 2026, com a construção de um candidato de centro-direita percebido como mais austero – com destaque para o nome do governador Tarcísio de Freitas.

Ao mesmo tempo, ele lembra que o presidente Lula segue competitivo e com a máquina na mão, o que tende a resultar em expansão de gastos e benefícios em ano eleitoral, aumentando a incerteza sobre a trajetória fiscal.

Na leitura de Fakhoury, o Centrão observa essa dinâmica não apenas sob a ótica de cargos e emendas, mas também da preservação do próprio poder político. Se perceber risco de concentração excessiva de poder no Executivo, poderia repetir o movimento de afastamento visto no final do governo Dilma.

Sistema financeiro: do caso Master ao risco de subprime à brasileira

Fakhoury também chamou atenção para a conjuntura do sistema financeiro, citando o caso do Banco Master como exemplo de fragilidade relevante. A intervenção na instituição consumiu uma parcela significativa dos recursos do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e, para ele, mostrou os limites de um modelo que empurra o risco adiante até o ponto de ruptura.

Ele afirmou não acreditar em “incompetência” do regulador e lembrou que o Banco Central acompanha, em tempo quase real, as posições dos bancos. Na visão do empresário, houve interesses cruzados e conivência em torno da expansão de produtos ligados ao banco até o desfecho da liquidação.

Além disso, Fakhoury alertou para o avanço de recursos de origem criminosa, como os associados ao PCC, em setores formais da economia, inclusive no mercado financeiro, o que ele considera apenas “a ponta do iceberg”.

Outro ponto de preocupação é a inadimplência em alta no agro, no varejo e entre as famílias, em um país que se acostumou a consumir com crédito e tem taxa de poupança baixa. Como parte desse risco é securitizada e revendida via fundos e estruturas fora do balanço dos grandes bancos, ele vê elementos que lembram uma crise subprime, com risco pulverizado no chamado shadow banking.

Ajuste depois de 2026: escolha difícil, mas inevitável

O diagnóstico final de Fakhoury é que, qualquer que seja o vencedor de 2026, o próximo governo terá de enfrentar a questão fiscal de maneira frontal e logo no início do mandato. Medidas impopulares, como redução de benefícios, freio em subsídios e revisão de despesas, tendem a ser o preço para evitar uma crise mais aguda à frente.

Na comparação com a Argentina de Javier Milei, ele destaca que o Brasil não vive, hoje, um trauma econômico equivalente, o que torna politicamente mais difícil explicar a necessidade de um ajuste. Mas, se nada mudar na conjuntura de dívida alta, juros elevados, crédito fragilizado e incerteza política, a conta tende a chegar.

Fakhoury avalia a conjuntura no BM&C Talks

"Conjuntura acende alerta para dívida, juros e crise", diz Otávio Fakhoury. Foto: BM&C News.

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