A escalada das tensões geopolíticas no Oriente Médio reacendeu as preocupações sobre os impactos do petróleo na economia global e na segurança energética de países importadores. Em entrevista ao programa Strike, da BM&C News, o ex-presidente da Petrobras, Jean Paul Prates, afirmou que o Brasil ainda enfrenta vulnerabilidades importantes, sobretudo pela dependência da importação de diesel, combustível essencial para transporte, agronegócio e logística.
Embora o país tenha alcançado a autossuficiência na produção de petróleo, o sistema de refino ainda não atende completamente à demanda doméstica. Atualmente, cerca de 20% do diesel consumido no Brasil é importado, o que mantém o país exposto às oscilações do mercado internacional e aos efeitos de conflitos externos sobre preços e oferta física de combustíveis.
“Ao longo desse tempo, nós corremos atrás de termos um parque de refino que conseguisse atender às demandas do Brasil. No entanto, essa segunda parte é bem mais complexa do que simplesmente produzir petróleo de qualquer tipo, a qualquer preço”, afirmou Jean Paul Prates.
Dependência do diesel mantém vulnerabilidade econômica
O ex-presidente da Petrobras explicou que o petróleo continua sendo a commodity mais globalizada e imprevisível da economia mundial. Segundo ele, nenhum país consegue controlar integralmente o preço do barril, já que fatores como conflitos armados, ataques terroristas e crises institucionais interferem diretamente na formação dos preços internacionais.
Nesse contexto, Prates destacou que a busca pela autossuficiência energética atravessou diferentes governos brasileiros desde a era Vargas. Na avaliação dele, independentemente da orientação ideológica, sempre houve consenso sobre a importância estratégica de reduzir a dependência externa em combustíveis fósseis.
“Para qualquer país é importante não depender do petróleo externo ou depender o mínimo possível, porque o petróleo é a commodity com a variação mais globalizada de todas”, ressaltou Jean Paul Prates.
Refino integrado é peça central do abastecimento
Durante a entrevista, Prates também criticou a venda de refinarias isoladas da Petrobras nos últimos anos. Segundo ele, o sistema nacional de refino opera de maneira integrada e depende de trocas técnicas, logísticas e operacionais entre diferentes unidades para garantir eficiência e estabilidade no abastecimento.
Na avaliação do especialista, refinarias desconectadas tendem a perder competitividade, elevar custos e reduzir a capacidade de adaptação diante de oscilações de demanda ou interrupções no fornecimento. Ele citou casos como a refinaria da Bahia e outras unidades vendidas em processos de desinvestimento.
“Refino não é um negócio como uma fábrica de salgado ou um restaurante de sanduíche. Você não consegue montar uma refinaria do lado da outra e fazê-las competir como em outros mercados”, argumentou Jean Paul Prates.
Guerra prolongada aumenta risco de escassez
Prates explicou que os efeitos de um conflito internacional sobre o mercado de petróleo acontecem em etapas. Inicialmente, o abastecimento segue relativamente estável devido aos navios cargueiros que já estão em deslocamento. Porém, caso a crise se prolongue, os estoques globais começam a ser consumidos e o mercado passa a precificar riscos maiores de escassez.
Segundo ele, o transporte marítimo de petróleo opera em ritmo lento, o que faz com que os impactos logísticos apareçam semanas ou até meses após o início das tensões geopolíticas. Nesse cenário, países mais dependentes da importação enfrentam pressões crescentes sobre custos e segurança energética.
“Os tanqueiros que já tinham saído ainda iam levar um mês, um mês e meio, dois meses para chegar aos seus destinos. Só que agora esses estoques já estão começando a chegar no descontamento”, explicou Jean Paul Prates.
Subsídios e soberania energética
Para reduzir os impactos da alta internacional do petróleo, Prates defendeu o uso temporário de subsídios e subvenções governamentais. Segundo ele, o modelo adotado pelo governo busca compensar importadores de diesel sem transferir integralmente os custos da crise ao consumidor final.
Na avaliação do ex-presidente da Petrobras, a estratégia utiliza receitas extraordinárias obtidas com a exportação de petróleo para amortecer os efeitos da disparada do barril sobre frete, inflação e atividade econômica. Ele ressaltou que mecanismos semelhantes são utilizados internacionalmente em períodos de choque geopolítico.
“Isso é exercício da soberania, na sua mais bela acepção da palavra. O governo está compartilhando essa receita extraordinária com os cidadãos e consumidores”, avaliou Jean Paul Prates.
Formação de preços vai além da cotação internacional
Ao longo da conversa, Prates também comentou o fim da Política de Paridade de Importação (PPI), adotada anteriormente pela Petrobras. Segundo ele, o modelo fazia com que o consumidor brasileiro pagasse preços equivalentes aos praticados no mercado internacional mesmo em um país produtor e refinador de petróleo.
O especialista argumentou que o preço final dos combustíveis no Brasil resulta de uma combinação de fatores, incluindo logística, impostos, mistura obrigatória de biocombustíveis, margens de distribuição e condições regionais de mercado. Para ele, não existe um único preço global válido para todos os países ou regiões.
“O preço do Brasil é o preço do mercado brasileiro. Havia uma ilusão de que o PPI era o preço global de mercado, mas esse é o preço do trader, não o preço do combustível para cada cidadão em cada país”, concluiu Jean Paul Prates.














