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Um cancelamento que mostra o lado bolsonarista do PT

Neste feriado, as redes sociais foram sacudidas por posts que tachavam a jornalista Andreza Matais, de “O Estado de S. Paulo”, como a “dama das fake news”

Aluizio Falcão Filho Por Aluizio Falcão Filho
22/11/2023
Em OPINIÃO

Neste feriado, as redes sociais foram sacudidas por posts que tachavam a jornalista Andreza Matais, de “O Estado de S. Paulo”, como a “dama das fake news”. Tal epíteto tem origem na reportagem que mostrou duas reuniões que secretários do ministério da Justiça tinham feito com a presença de Luciane Barbosa Farias, casada com o traficante “Tio Patinhas” e apelidada de “primeira-dama do Comando Vermelho amazonense”. Andreza é editora-executiva responsável pela publicação deste artigo.

Conforme o caso foi ganhando força e desgastando a imagem do ministro da Justiça, Flávio Dino, uma verdadeira milícia digital foi criada para atacar a jornalista, em uma estratégia muito parecida com o que já se observou no passado contra a colunista e apresentadora Vera Magalhães nos tempos do governo de Jair Bolsonaro.  Os ataques mostram que o PT aprendeu muito bem as técnicas de bullying digital e de distorção da realidade.

Logo após a publicação do artigo, houve uma enxurrada de postagens que colocavam Dino nessas reuniões – o que nunca houve. Daí a ideia de dizer que Andreza era a “dama das fake news”. Ocorre que o Estadão jamais publicou isso. Portanto, trata-se de uma acusação falsa.

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Além disso, espalhou-se um boato de que colaboradores do jornal tinham feito uma denúncia contra Andreza no Ministério Público do Trabalho, alegando pressão para ligar o ministro Dino a Luciane. Esse rumor tem tudo para ser falso. Para começar, em mais de trinta anos de jornalismo, nunca vi um repórter reclamar de pressões internas junto às autoridades. Além disso, os autores da reportagem continuaram no caso, publicando outras matérias. Fariam isso se tivessem denunciado a chefia? A lógica diz que não.

Mas vamos supor que Andreza tenha pressionado seus repórteres para saber se havia uma conexão entre Dino e Alexandra. Pergunta-se: e daí? É dever de quem chefia uma redação ampliar o espectro de denúncias que serão publicadas. Foi o que Andreza fez.

Mas as acusações foram adiante. Posts afirmam que ela teria publicado duas reportagens com acusações falsas em direção ao PT, ambas em 2015. Ocorre que tais artigos foram baseados em documentos vazados por autoridades, que mostram até a troca de e-mails entre os envolvidos nos dois casos. A Justiça não condenou ninguém? É verdade. Mas isso quer dizer que as matérias sejam fake news? Não necessariamente.

A técnica de intimidação pessoal contra jornalistas não é nova. Eu mesmo cansei de receber telefonemas anônimos com ameaças quando dirigi a revista Época. A diferença, porém, é o uso da rede social, que se transforma em um sistema de apedrejamento cibernético, provocando uma torrente incalculável de apupos que podem intimidar até o mais frio dos mortais.

O uso das redes para atacar jornalistas foi um esporte favorito dos bolsonaristas, muitas vezes utilizando o expediente de espalhar fakes. Além de Vera Magalhães, Miriam Leitão e Patrícia Campos Mello também foram atacadas nessa época (curiosamente, as vítimas favoritas desta turba digital são as mulheres).

Andreza Matais foi prontamente defendida pela Associação Nacional dos Jornais e pelo próprio Estadão. “O uso de métodos de intimidação contra veículos e jornalistas não se coaduna com valores democráticos e demonstra um flagrante desrespeito à liberdade de imprensa. Também evidencia uma prática característica de regimes autocráticos de, com o apoio de dirigentes políticos, sites e influenciadores governistas, tentar desviar o foco de reportagens incômodas por meio de ataques contra quem as apura e as divulga”, diz a nota divulgada pela ANJ.

O diretor de redação de “O Estado de S. Paulo”, Eurípedes Alcântara, também se manifestou. “A reação furiosa orquestrada nas redes sociais contra jornalistas do Estadão em nada diminui a qualidade da apuração da reportagem sobre as intimidades da dama do tráfico com altos funcionários públicos. Ela mostra apenas a incapacidade de certos setores de conviver com o jornalismo independente”, publicou o jornalista.

A conduta dos petistas nas redes sociais mostra que, em matéria de tentar destruir a reputação dos jornalistas, estão em pé de igualdade com a milícia digital bolsonarista. Durante muito tempo, ouvimos falar que existia um gabinete do ódio instalado no governo anterior. O que a atual administração está fazendo, porém, não é muito diferente. Será que, para o PT, gabinete do ódio de esquerda é algo aceitável?

*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho jornalista, articulista e publisher do portal Money Report, Aluizio Falcão Filho foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide;


As opiniões transmitidas pelos nossos colunistas são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da BM&C News.

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