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Opinião: “Uma China diferente”

Marcus Vinícius de Freitas Por Marcus Vinícius de Freitas
23/12/2024
Em OPINIÃO

O nível de desinformação existente no Brasil sobre a China é impressionante. E num cenário eleitoral eivado de ideias equivocadas, com uma polarização pouco saudável para o País, o incremento de desinformação sobre o gigante asiático é preocupante. Ideologicamente, o Brasil parece parado no tempo, desconhecendo as mudanças ocorridas no mundo desde 1989. No entanto, é a partir de 1978, com o processo de Reforma e Abertura na China que o país muda radicalmente daquilo convencionado como Comunismo Soviético. O Socialismo com Características Chinesas pouco tem a ver com a aquilo que foi implementado na União Soviética e muito menos com o ideário esquerdista europeu e norte-americano prevalecente atualmente. Na China, a expressão “com características chinesas” deve ser levado em consideração porque é o elemento definidor de toda e qualquer percepção existente na sociedade. 

A China sofre também de uma campanha internacional, orquestrada pelo Ocidente, no sentido de difamar o país ou criar uma narrativa totalmente distante da realidade de um país que logrou, nas últimas cinco décadas, fazer uma alteração profunda numa sociedade milenar, diversa e enorme. Administrar um país com 1.4 bilhão de pessoas, quase cinco mil anos de história, 55 minorias, 56 grupos étnicos, 7 grandes dialetos e mais de 300 línguas, é uma tarefa complexa. Em 1978, a renda per capita chinesa era de cerca de US$ 228.52 (a brasileira, cerca de US$ 2,100.00). Já em 2023, a renda per capita chinesa alcançou US$ 12,621.72 e a do Brasil US$ 10,642.44. O salto na renda per capita impressiona. E não parou por ai. O objetivo é chegar a US$ 20- 25 mil em 2049, quando a República Popular da China completar cem anos. 

O país asiático se consolidou a partir de uma base sólida: educação, poupança e competição. Este trinômio fez com que a China alcançasse novos patamares de desenvolvimento, sempre com a humildade de um aprendiz. Os produtos chineses – todos se recordam – eram de qualidade questionável. No entanto, a exemplo daquilo que ocorreu com o Japão, a China aperfeiçoou a qualidade da sua mão-de-obra e dos seus produtos, mas sempre produzindo os mais variados tipos e qualidades para atender a demanda dos compradores. Na China, pode-se encontrar o mesmo produto com os mais variados preços, conforme a vontade e exigência e qualidade demandada pelo comprador. E, no mundo empresarial, o crescimento chinês se baseia num trinômio importante: larga escala, margens reduzidas e longo prazo. 

Mas a história recente chinesa é quase autoexplicativa: de um país de campesinos a cientistas que vêm explorando o espaço, a Lua e até Marte; de um país pobre que gera diariamente milhões de empregos em todo o mundo; de uma sociedade trabalhadora que com esforço enorme enfrentou – e enfrenta – ainda os desafios da poluição, mas que industrializaram o país como nenhum outro no mundo. 

Não há dúvida que o sucesso chinês passa muito por seu tecido social. O país, que tem regras de convivência harmônica para uma grande população, tem alcançado níveis de qualidade de vida invejáveis ao Ocidente. E, para o chinês, a questão mais importante do pacto social – a segurança coletiva – é inigualável. Mas aqui se pode incorrer no erro de acreditar que câmeras e um sistema jurídico eficaz são a razão para as coisas funcionarem. Não é verdade. O fato é que o ideário político que Confúcio estabeleceu no país faz com que a cultura do mérito seja prevalecente. E o conceito de respeito à propriedade alheia seja respeitada também impressiona. 

Neste sentido, gosto de contar duas histórias interessantes que ocorreram recentemente comigo na China. Ao chegar na China em 2018, adquiri uma bicicleta para utilizar diariamente. Passados 6 anos da aquisição, optei por adquirir uma nova, mais moderna e com mais marchas. Decidi, então, que utilizaria a solução adotada em muitas cidades do mundo: deixaria a bicicleta na rua e, certamente, ela seria furtada. Assim o fiz. Deixei a bicicleta na rua, sem cadeado, pronta para ser levada embora. Três meses depois, a bicicleta se encontrava, no mesmo lugar, sem que ninguém tivesse sequer mexido nela. E, recentemente, encontrei na Sala dos Professores da universidade onde leciono, um sabonete líquido que eu havia deixado naquele lugar há mais de cinco anos. Viver numa sociedade assim é uma experiência única de vida. 

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Mesmo os norte-americanos – sempre críticos a tudo – reconhecem e expressam satisfação com o fato de viverem numa sociedade sem armas, com a garantia de que seus filhos irão e retornarão das escolas com vida. Na China não se veem pichações, não se sente o cheiro de maconha, e as pessoas podem utilizar joias e dirigirem tranquilamente. E isto não é por causa do governo, mas sim pela natureza do povo e do compromisso coletivo da sociedade em construir – e reconstruir quantas vezes forem necessárias – uma sociedade eficiente, moderna e empreendedora. Ao longo deste período em que tenho vivido na China, raramente encontrei algum estrangeiro que não vivesse feliz no gigante asiático, apesar das diferenças culturais e do idioma. 

Não é fácil construir uma nação, principalmente com uma história tão longa e uma população tão numerosa. Mas se há uma lição da China ensina é de que é possível mudar a história de um país profundamente, desde que haja um esforço coletivo, crença nas possibilidades e nos sonhos, e um governo que esteja atento às demandas da população. A qualidade dos quadros públicos é primordial para o sucesso de uma nação. 

Confúcio, o mais influente filósofo chinês de todos os tempos, costumava afirmar: “Se você tem uma laranja e troca com outra pessoa, que também tem uma laranja, cada um fica com uma laranja. Mas se você tem uma ideia e troca com outra pessoa, que também tem uma ideia, cada um fica com duas.” Assim, trocar ideias com o gigante asiático e a maneira como logrou resultados tão positivos pode ser algo muito mais rico do que o equivocado temor atribuído à China por falta de conhecimento. Trocar ideias só enriquecem. 

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