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A Guerra do Irã e os Limites do Poder Americano

Marcus Vinícius de FreitasPor Marcus Vinícius de Freitas
28/05/2026

Durante décadas, os Estados Unidos consolidaram a imagem de uma potência capaz de projetar força militar em qualquer região do planeta e, ao mesmo tempo, moldar a arquitetura política internacional segundo seus próprios interesses estratégicos. Desde o fim da Guerra Fria, Washington acostumou-se a operar segundo a lógica da primazia: não bastava vencer guerras; era necessário definir os termos da ordem global. Contudo, a crescente escalada envolvendo Irã, Israel e os próprios Estados Unidos revela uma transformação mais profunda e desconfortável: a superioridade militar americana já não garante estabilidade política, legitimidade internacional ou capacidade efetiva de reorganizar regiões inteiras.

O problema central não está na ausência de poder militar. Os Estados Unidos continuam sendo, de longe, a maior potência bélica do mundo. Seu orçamento militar supera o das principais potências combinadas; sua presença naval permanece dominante; sua capacidade tecnológica continua incomparável. E a China não pretende assumir essa posição. No entanto, é importante ressaltar que a guerra contemporânea deixou de ser decidida exclusivamente por meios convencionais. O que se observa no Oriente Médio é a erosão gradual da capacidade de converter poder militar em resultados estratégicos duradouros.

O Irã representa precisamente esse dilema. Desde a Revolução Islâmica de 1979, Teerã sobreviveu a sanções, isolamento diplomático, sabotagens, assassinatos seletivos, pressão econômica e campanhas permanentes de contenção. Qualquer análise puramente material sugeriria que o regime iraniano já deveria ter colapsado há décadas. Não colapsou. Pelo contrário: adaptou-se. Desenvolveu uma sofisticada estratégia assimétrica baseada na resiliência, na influência regional, em redes de aliados não estatais (muitas vezes, no terrorismo) e na capacidade de impor custos indiretos aos seus adversários.

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Esse fenômeno expõe uma mudança estrutural da geopolítica contemporânea. As grandes potências já não enfrentam apenas exércitos nacionais tradicionais, mas ecossistemas inteiros de resistência híbrida, guerra informacional, atores não estatais, milícias regionais e conflitos prolongados de desgaste. Em termos clássicos, Washington continua capaz de destruir. O que já não consegue fazer com a mesma eficácia é reconstruir legitimidade política após a destruição.

O histórico recente confirma essa tendência. O Afeganistão terminou com a retirada humilhante de Cabul. O Iraque desorganizou profundamente o equilíbrio regional sem produzir estabilidade duradoura. Na Líbia, a intervenção ocidental removeu um regime, mas abriu espaço para uma fragmentação crônica. Mesmo na Ucrânia, apesar do apoio militar ocidental, o conflito transformou-se em uma guerra prolongada de exaustão estratégica. Agora, no caso iraniano, reaparece o mesmo paradoxo: enorme capacidade militar combinada com crescente incapacidade de produzir uma ordem sustentável.

O aspecto mais relevante talvez seja o psicológico e o sistêmico. Durante décadas, a credibilidade americana baseou-se não apenas na força, mas na percepção global de inevitabilidade. Havia a convicção de que os Estados Unidos dispunham de recursos materiais, legitimidade política e capacidade estratégica para impor custos intoleráveis aos adversários. Hoje, essa percepção encontra-se fragmentada. Cada novo conflito prolongado acende dúvidas sobre os limites reais da liderança americana.

A China e a Rússia compreenderam que desafiar Washington frontalmente talvez seja desnecessário. Basta elevar progressivamente os custos econômicos, militares e diplomáticos da presença americana em múltiplos teatros simultaneamente. A lógica já não é derrotar os Estados Unidos em uma batalha decisiva, mas sim desgastar sua capacidade de coordenação global ao longo do tempo.

Nenhuma potência consegue sustentar indefinidamente uma presença militar global sem uma base industrial proporcional à sua ambição estratégica. A transferência de cadeias produtivas, o avanço da financeirização da economia e o aumento contínuo do endividamento público criaram uma contradição crescente entre o poder militar e a capacidade econômica de longo prazo. Em um mundo cada vez mais multipolar, a verdadeira disputa já não ocorre apenas nos campos de batalha, mas também nas fábricas, nos semicondutores, na energia, na logística e no controle das cadeias globais de valor.

Paradoxalmente, a maior vulnerabilidade dos Estados Unidos talvez seja precisamente a herança do próprio sucesso. Durante mais de três décadas de hegemonia incontestada, consolidou-se em Washington a expectativa de que a superioridade militar inevitavelmente produziria obediência política. O século XXI vem demonstrando o contrário. O poder militar continua essencial, mas já não é suficiente para garantir legitimidade, estabilidade ou consenso internacional. A guerra envolvendo o Irã parece revelar o fim de uma era em que o poder norte-americano parecia ilimitado.

*Coluna escrita por Marcus Vinícius de Freitas, professor visitante na China Foreign Affairs University, e Senior Fellow no Policy Center for the New South. Tem vasta experiência em relações internacionais e é colunista da BM&C News.

*As opiniões transmitidas pelo colunista são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da BM&C News.

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