Eu sempre achei curioso como o brasileiro consegue ser implacável diante de um erro no futebol e, ao mesmo tempo, generoso demais diante de um erro político. No jogo, ele enxerga tudo. Vê o passe mal dado, a perda de um pênalti ou errar um gol feito cara a cara com o goleiro adversário. Em 90 minutos, vira técnico, analista de desempenho e promotor público. Mas, quando o erro vem do seu político de estimação, a régua muda. O absurdo ganha contexto. A incoerência vira estratégia. O escândalo passa a ser “narrativa”. Aquilo que, no adversário, seria prova de decadência moral, no seu pupilo vira exagero da imprensa e perseguição.
A psicologia social ajuda a entender essa contradição. Em um estudo clássico sobre raciocínio motivado, a psicóloga Ziva Kunda mostrou que as pessoas nem sempre analisam informações para chegar à verdade. Muitas vezes, organizam argumentos para chegar à conclusão que já desejavam defender. Na política, esse mecanismo se intensifica. Charles Taber e Milton Lodge chamaram esse fenômeno de “ceticismo motivado”: somos mais rigorosos com evidências que atacam o nosso lado e mais tolerantes com evidências que o favorecem. Não se trata, portanto, apenas de falta de informação ou de inteligência. Muitas vezes, é a inteligência trabalhando como advogada de defesa da própria tribo.
No futebol, a distância emocional permite o julgamento. O jogador pode ser ídolo, pode ter feito história, pode ter decidido uma final, mas dificilmente representa a identidade moral do torcedor. Se ele erra, o brasileiro critica sem sentir que está traindo a si mesmo. Na política, o vínculo costuma ser mais profundo. O político deixa de ser apenas um representante e passa a funcionar como uma extensão simbólica do eleitor. A teoria da identidade social, desenvolvida por Henri Tajfel e John Turner, ajuda a explicar esse ponto: quando uma pessoa se enxerga como parte de um grupo, tende a proteger esse grupo porque, em alguma medida, está protegendo a própria imagem. Criticar o líder, nesse caso, parece menos um gesto de lucidez e mais uma ameaça ao pertencimento.
É por isso que o mesmo brasileiro que exige profissionalismo absoluto de um camisa 9 aceita improviso, contradição e cinismo de quem ocupa cargo público. No futebol, ele pede mérito. Na política, oferece desculpa. No futebol, quer VAR para qualquer lance duvidoso. Na política, desliga a câmera quando o lance envolve o seu lado. Talvez uma das grandes contradições nacionais esteja justamente aí: sabemos cobrar desempenho quando o erro custa uma classificação, mas ainda hesitamos em cobrar responsabilidade quando o erro custa dinheiro público, confiança institucional e futuro coletivo.













