O ex-governador Romeu Zema tem poucos anos de atividade política, mas aprendeu muito bem a explorar os temas que interessam o eleitor e que não são lapidados pelos adversários. Um destes assuntos, por exemplo, é a atual insatisfação que existe na sociedade brasileira em relação à atuação do Supremo Tribunal Federal. Em pesquisa recente do Datafolha, 75% dos brasileiros acham que o STF acumula poder demais e 55% acreditam que magistrados da corte estejam envolvidos no escândalo do Banco Master.
No programa de governo apresentado ontem por Zema, chama a atenção o conjunto de três propostas relativas ao Judiciário. A primeira seria acabar com as decisões monocráticas do Supremo. Outro ponto é tornar obrigatória a investigação de ministros do STF quando houver maioria no Senado (isso impediria que pedidos de impeachment ficassem na gaveta da presidência da casa). Por fim, Zema propõe que parentes de ministros dos tribunais superiores não atuem nessas cortes.
Em tese, são boas ideias e estão em sintonia com o descontentamento da população com o Supremo. Ocorre, porém, que são medidas que interferem diretamente nos Poderes Judiciário e Legislativo, nos quais o presidente da República não apita nada. Portanto, pode-se dizer que o ex-governador esteja jogando para a torcida. Além disso, a possibilidade de emplacar, caso chegue ao Planalto, qualquer uma dessas três ideias é nula – a não ser que consiga o apoio do STF e do Senado, o que hoje seria improvável.
Nos últimos dias, é a segunda vez que Zema fustiga o STF. Na segunda-feira, em encontro com empresários em São Paulo, disse o seguinte: “Dias Toffoli e Alexandre de Moraes não merecem só processo de impeachment, merecem prisão”.
No final de semana passado, Zema apareceu com o senador Flávio Bolsonaro em um vídeo bem-humorado. A sintonia entre os dois parece extrapolar as fronteiras do mundo digital. O ex-governador, assim, parece atuar em dobradinha com o senador, atacando o STF em seu lugar.
A suposta parceria com Flávio Bolsonaro reforça essa estratégia, mas há um elemento adicional: por causa da situação jurídica do pai, o senador evita confrontos diretos com ministros do Supremo, o que abre espaço para que Zema assuma esse papel.
As propostas apresentadas pelo ex-governador sobre o Judiciário, ao mesmo tempo, podem ampliar sua visibilidade nacional. Nesse contexto, Zema tenta se consolidar como referência no campo conservador, usando o embate com o STF como forma de projeção política e como instrumento para dialogar com um eleitorado que vê o Judiciário com desconfiança. Mas dificilmente vai conseguir tomar de Flávio Bolsonaro o protagonismo entre os eleitores de direita e uma parte dos moderados.
*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide
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