Na semana que passou, aconteceu algo esquisito para os meus padrões: fui entrevistado por três pessoas. Geralmente sou eu quem faz as perguntas. Mas, nesta trinca de ocasiões, tive de responder à curiosidade alheia. Foram dois documentos e um podcast – este último, do empresário e investidor imobiliário Sidney Ângulo.
É interessante estar do outro lado do balcão, para experimentar o que os entrevistados sentem e exercitar um pouco a empatia. Obviamente, já tinha dado entrevistas antes. Talvez o fato de encarar três sessões de perguntas seguidas tenha me feito pensar a respeito.
Experimentei uma dinâmica do raciocínio completamente diferente. Quando sou o entrevistador, é como se minha mente se dividisse em duas durante a conversa. Uma parte está prestando atenção àquilo que o entrevistado fala e analisando detalhes, pois alguma coisa que foi dita pode merecer uma nova questão. A outra parte do cérebro está, primeiramente, elaborando a próxima pergunta; depois de elaborada, essa indagação é burilada. Por quê? A razão é trivial: muitas vezes, o jeito através do qual questionamos alguém é mais importante que o teor da pergunta em si.
Semanalmente, exercito o dom de entrevistar para meu programa na BM&C News. Mas a mecânica é um pouco diferente de um pingue-pongue, pois recebo sempre três convidados de uma vez só. Assim, preciso pensar na próxima pergunta (não uso roteiro) e encaixá-la no contexto de quem tem a palavra. Talvez não conseguisse fazer isso não fosse a experiência de décadas e um certo repertório que possuo sobre o mundo da economia e dos negócios.
Mas nem sempre foi assim. Lembro de quando fui entrevistar o economista John Kenneth Galbraith em sua residência em Cambridge, na rua de trás do campus da universidade de Harvard. Foi a única vez que fiquei nervoso em um colóquio. Tinha vinte e cinco anos de idade e percebi, naquele instante, que estava diante de um monstro sagrado da economia – e eu tinha apenas alguns anos de experiência. Foi um batismo de fogo, mas me saí bem. A minha entrevista se transformou em capa da revista EXAME.
Vejo uma entrevista como uma conversa. E percebi que meu estilo tinha alguma semelhança com o de dois jornalistas que se eternizaram como grandes perguntadores em programas de TV: David Frost (imagem) e James Lipton. O primeiro é conhecido pela entrevista que fez Richard Nixon admitir más práticas durante seu mandato na Casa Branca. Já Lipton é o apresentador do programa “Inside Actors Studio”, sempre encerrando seu bate-papo com um questionário fixo, retirado de uma atração da TV francesa chamada “Bouillon de Culture”.
Frost se tornou conhecido por unir elegância, preparo e firmeza em uma mesma conversa. Ele conduzia entrevistas com um tom sereno, mas sempre atento a um detalhe que poderia revelar algo importante. Sua habilidade de criar um clima de confiança permitia que figuras públicas se abrissem mais do que pretendiam e isso ficou evidente nas conversas históricas com Richard Nixon, nas quais Frost conseguiu extrair reflexões e admissão de responsabilidade em um momento delicado da política americana. Seu estilo combinava inteligência, calma e uma sensibilidade rara para perceber o instante certo de aprofundar uma pergunta. É um modelo que procuro seguir, embora me falte o tamanho do conhecimento e da inteligência do britânico.
Já James Lipton construiu um formato próprio em seu programa, no qual tratava a entrevista como uma jornada íntima pela vida e pela arte do convidado. Ele pesquisava cada biografia com rigor quase acadêmico e formulava perguntas longas, contextualizadas, que demonstravam respeito e compreensão profunda do percurso de cada artista. O ambiente silencioso, a plateia de estudantes e o tom de voz baixo criavam uma atmosfera de introspecção que levava muitos entrevistados a revelar memórias, fragilidades e processos criativos de forma espontânea. Lipton acreditava que a conversa só florescia quando o entrevistado se sentia verdadeiramente acolhido, e essa filosofia guiou toda a sua obra.
Esses dois ícones são o oposto dos entrevistadores agressivos monótonos, que considero absolutamente ineficazes. Quando um tom raivoso é colocado na pergunta, o entrevistado se fecha e não diz muita coisa. Curiosamente, dias atrás, fui almoçar com amigos e fui abordado por um telespectador. Ele disse que, com minha voz calma, conseguia arrancar tudo dos entrevistados. Não é bem verdade. Mas essa é a intenção.
*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide
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