A crise envolvendo os CDBs do Banco Master reacendeu um debate sensível no mercado financeiro: até que ponto os sinais de risco eram visíveis, e por que ninguém reagiu a tempo? Para Miguel Daoud, analista de economia e política, o problema não foi exatamente uma falha pontual de instituições, mas uma dinâmica de mercado que se construiu de forma quase automática, impulsionada por promessas de retorno que não se sustentavam na realidade.
“O começo disso tudo foi o Master pregando que pagava 140% do CDI, 130%, com propagandas massivas. Isso por si só já deveria acender um alerta”, afirmou Daoud, em entrevista à BM&C News.
CDBs do Master: a lógica que empurrou o risco ao investidor
Segundo o analista, a diferença brutal de rentabilidade em relação aos grandes bancos criou um efeito de comparação inevitável. Enquanto instituições tradicionais ofereciam CDBs na faixa de 98% a 102% do CDI, o Master aparecia com retornos muito acima da média.
“O investidor olha e fala: ‘por que eu estou recebendo isso aqui se tem banco pagando muito mais e ainda com garantia do FGC?’”, disse.
A partir desse ponto, a própria demanda dos clientes passou a pressionar plataformas e distribuidoras a ofertarem os títulos, criando um ciclo de retroalimentação. O risco, na prática, era transferido ao investidor, com o FGC (Fundo Garantidor de Créditos) sendo usado como principal argumento comercial.
“Foi uma dinâmica de mercado que foi se autoconstruindo. O cliente forçava, as plataformas acabavam oferecendo, e o FGC virava uma espécie de selo psicológico de segurança”, avaliou.
Investigação e uso do FGC como marketing
O caso ganhou novos contornos com a abertura de investigações envolvendo instituições como XP, BTG e Nubank, justamente pela comercialização dos CDBs do Master usando o FGC como principal fator de venda.
Para Daoud, embora o modelo de distribuição mereça críticas, não há evidência clara de conivência deliberada das instituições.
“O produto não estava proibido pelo Banco Central, nem pela CVM, nem por nenhum outro órgão. Então não dá para dizer que alguém sabia que ia dar problema e mesmo assim vendeu para lucrar”, afirmou.
Ele ressalta que alguns grandes bancos optaram por não distribuir esses títulos, justamente por considerarem o risco elevado. Outros, no entanto, acabaram entrando no movimento, seja por decisão estratégica, seja pela pressão comercial dos próprios clientes.
“Não tem atividade econômica que sustente isso”
Na avaliação do analista, o principal sinal de alerta sempre esteve na própria taxa oferecida. Para ele, era matematicamente improvável que um banco conseguisse gerar retorno suficiente para sustentar pagamentos de 130% ou 140% do CDI de forma consistente.
“Qualquer pessoa de bom senso sabia que isso ia terminar mal. Não tem atividade econômica que pague isso. Nem tráfico de droga daria tanto dinheiro assim”, ironizou.
Daoud afirma que o caso expõe um problema estrutural do mercado: a tendência de transformar produtos financeiros em mercadorias de prateleira, onde o foco está mais na rentabilidade prometida do que na análise real do risco do emissor.
“O FGC virou uma muleta. Em vez de avaliar o risco do banco, o investidor compra a ideia de que está protegido, e isso distorce completamente a lógica de precificação”, concluiu.
Caso dos CDBs do Master acende alerta
Para o analista, o episódio dos CDBs do Master deve deixar um legado importante: a necessidade de rever a forma como produtos de crédito bancário são distribuídos no Brasil.
Mais do que responsabilizar instituições específicas, Daoud defende que o mercado precisa discutir com mais profundidade os incentivos do modelo atual, que muitas vezes empurra risco para o investidor final, travestido de segurança institucional.
“O problema não é só quem vende. É o sistema inteiro que permite que promessas irreais virem produto de massa”, afirmou.













