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Mercado monitora risco de sanções dos EUA com julgamento do Bolsonaro no radar

Redação BM&C News Por Redação BM&C News
02/09/2025
Em MERCADOS, polêmica

O início do julgamento do Bolsonaro adiciona uma nova camada de incerteza ao cenário doméstico e ao relacionamento com os Estados Unidos, justamente no momento em que o comércio bilateral está sob tarifas extraordinárias. Investidores acompanham de perto potenciais desdobramentos, desde sanções restritas a autoridades até medidas que atinjam setores econômicos e seus reflexos sobre atividade, câmbio e confiança. Além disso, a discussão ocorre em paralelo a um quadro de política monetária restritiva no Brasil e a limites fiscais mais apertados, o que amplia a sensibilidade a choques externos.

Nesse sentido, especialistas consultados pela BM&C News destacam que a chave está na natureza das eventuais sanções e no andamento do contencioso jurídico nos EUA. Por outro lado, há consenso de que a leitura do mercado será pragmática: o efeito direto sobre o PIB tende a ser limitado se as medidas permanecerem no campo pessoal das autoridades. Enquanto isso, a hipótese de penalidades econômicas mais amplas reforça o risco de desaceleração adicional e de ruídos sobre a credibilidade de políticas públicas e contratos, com efeitos indiretos sobre decisões de investimento.

Julgamento de Bolsonaro: possíveis sanções tem impacto “quase nulo”

Para Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, a intensidade do choque depende do alvo e do alcance de eventuais medidas. “Se as sanções ficarem exclusivamente no campo de autoridades, o impacto econômico é quase nulo”, afirma. Ele pondera, contudo, que a história muda caso o comércio seja afetado. “Quando há sanções no campo econômico, pode haver um efeito doloroso para empresas brasileiras, ainda que não seja devastador”. Nas contas do economista, a combinação entre tarifas e participação das exportações no produto aponta para “uma desaceleração de cerca de 0,3% do PIB”.

Agostini ressalta que o timing preocupa, o efeito viria em um período de desaceleração cíclica, dada a política monetária restritiva. “O grande problema é se o governo quiser ampliar ainda mais o apoio às empresas fora do arcabouço fiscal; isso deteriora a credibilidade junto a agentes econômicos”, diz. Para ele, interferências externas que abalem garantias contratuais tendem a contaminar decisões de investimento e a precificação de risco.

O que está em jogo no contencioso jurídico dos EUA?

Bruno Corano, economista, contextualiza que o litígio tarifário nos Estados Unidos envolve uma disputa constitucional e processual. Segundo ele, a Corte de Comércio considerou a utilização do International Emergency Economic Powers Act adequada, mas um tribunal de apelações viu ilegalidade, e a Suprema Corte suspendeu os efeitos práticos até outubro, devendo ainda decidir se acolhe o caso. “As reações do governo Trump em relação a uma possível condenação são imprevisíveis, mas não acho que por causa do julgamento as tarifas subam a 70%, 80% ou 100%”, afirma.

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Créditos: depositphotos.com / stillfx

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Corano acrescenta que, caso as tarifas venham a ser derrubadas mais adiante, abre-se outro problema: restituições potencialmente bilionárias, “podendo passar de trilhão” a quem pagou, algo de grande complexidade para o Tesouro americano. Em sua avaliação, a indefinição jurídica pode se arrastar por vários trimestres, o que prolonga a incerteza e dificulta o planejamento de empresas inseridas em cadeias globais.

O que o mercado teme no julgamento do Bolsonaro?

Além de monitorar decisões judiciais e a postura da Casa Branca, o mercado mapeia riscos de segunda ordem: ruídos sobre o arcabouço fiscal, pressões por subsídios setoriais e tentativas de reprecificação de ativos sensíveis a comércio exterior. Nesse sentido, a leitura dominante é que o impacto médio no crescimento pode ser administrável, mas a “taxa de desconto” aplicada a projetos, via percepção de insegurança jurídica ou de incerteza regulatória, tende a subir se o ruído político perdurar.

  • Cenários de sanção: efeito “quase nulo” se restrito a autoridades; maior risco se atingir comércio e cadeias produtivas.
  • Estimativa de PIB: Agostini projeta desaceleração próxima de 0,3 p.p., condicionada à abrangência e ao timing das medidas.
  • Contencioso nos EUA: disputa constitucional pode se estender; suspensão de efeitos até outubro e possível julgamento posterior, segundo Corano.
  • Canal fiscal: tentativas de compensação fora do arcabouço podem erodir a confiança e encarecer o custo de capital.

Narrativas políticas e o risco de criminalizar o mercado

Em paralelo ao julgamento de Bolsonaro, ganha tração a tentativa de associar o episódio a uma culpabilização ampla do mercado financeiro. Para os economistas, há um risco claro nessa escolha retórica: confundir o papel do sistema formal, regulado por Banco Central e CVM, com práticas ilícitas que devem ser coibidas. Ao deslocar o debate para a criminalização de investidores, gestores e empresas, a narrativa pode produzir um tiro no pé, ao elevar a percepção de risco e desorganizar canais de financiamento produtivo.

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