Mesmo com o dólar em queda, negociando abaixo dos R$ 5 em determinados momentos, o custo de operações no exterior segue pressionado por outros fatores, como a alta do petróleo em meio a tensões geopolíticas e o aumento do IOF para 3,5%. Esse conjunto tem reduzido o benefício do câmbio mais favorável e provocado uma mudança gradual no comportamento de brasileiros que enviam recursos ao exterior.
O encarecimento dessas transações não está concentrado apenas no imposto. Ao considerar o spread cambial, tarifas bancárias e encargos de instituições intermediárias, o custo total de uma remessa pode atingir entre 5% e 7% do valor transferido, o que tem pressionado tanto pessoas físicas quanto empresas a reavaliar como operam fora do país. Uma das formas é o uso de stablecoins, ativos digitais atrelados a moedas fortes, como o dólar.
A migração está diretamente ligada à eficiência operacional. Diferentemente das remessas tradicionais, que envolvem múltiplas instituições e etapas, as transferências com stablecoins ocorrem de forma mais direta, com custos significativamente menores e liquidação em poucos minutos.

Além disso, há um ganho relevante em previsibilidade. No modelo tradicional, o valor que chega ao destinatário pode variar devido a taxas aplicadas ao longo do processo. Já nas operações com ativos digitais, a tendência é de maior controle sobre o valor final recebido, o que tem impacto direto na organização financeira de empresas e indivíduos. “A mudança de comportamento já estava em curso. O IOF de 3,5% é o gatilho que tornou a conta óbvia para quem ainda não vinha prestando atenção. Uma transferência em stablecoin em redes eficientes custa centavos, independentemente do valor transferido”, explica Guilherme Sacamone, CEO da OKX no Brasil.
Além do custo, a velocidade também se torna um diferencial. Transações com stablecoins são liquidadas em minutos, 24 horas por dia, enquanto remessas bancárias dependem de horários comerciais e podem levar dias para serem concluídas.
Mudança de comportamento
A adoção dessas soluções não está mais restrita a investidores sofisticados. Dados de mercado indicam que o Brasil já figura entre os países com maior uso de criptoativos, com as stablecoins ganhando protagonismo como ferramenta de pagamento.
Na prática, pessoas físicas têm utilizado esses ativos como forma de preservação de valor, convertendo recursos em dólar digital no momento do investimento. Já empresas começam a adotar stablecoins como meio padrão para pagamentos internacionais, especialmente em setores como tecnologia, serviços e e-commerce.
Segundo Sacamone, esse movimento deixou de ser pontual. “Empresas estão começando a tratar stablecoins como trilho padrão para pagar prestadores e fornecedores internacionais, em vez de exceção”, afirma.
Impacto pode atingir o sistema financeiro
A expansão desse modelo pode gerar efeitos mais amplos, indo além da experiência do usuário e atingindo a própria estrutura do sistema financeiro tradicional.
A tendência é de que a adoção de novas infraestruturas de pagamento pressione instituições a revisarem modelos de receita baseados em tarifas e spreads cambiais. Ao mesmo tempo, abre-se espaço para uma reconfiguração das formas de intermediação financeira.
No campo fiscal, o debate ainda está em estágio inicial. Embora exista a preocupação com possíveis impactos na arrecadação de impostos como o IOF, especialistas apontam que a discussão também envolve oportunidades de longo prazo relacionadas à digitalização de ativos e à atração de capital.
Para Sacamone, a mudança é de infraestrutura, e não apenas de produto. “Instituições que resistem para preservar receitas existentes não estão se protegendo. Estão se posicionando para serem disruptadas”, afirma. No campo fiscal, o executivo aponta que o debate vai além da perda de arrecadação de curto prazo. Ele destaca que países como os Estados Unidos já utilizam stablecoins como instrumento indireto de financiamento da dívida pública, ao exigir lastro em títulos do governo.
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