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Ele rastejou 100 metros por galerias alagadas e achou no teto de uma caverna na França as pegadas de dinossauro mais gigantes já vistas no subterrâneo

Laila Por Laila
02/05/2026
Em Ciências Naturais

Você consegue imaginar olhar para o teto de uma caverna e ver pegadas de dinossauros de cabeça para baixo? Foi exatamente isso que o paleontólogo Jean-David Moreau encontrou após rastejar por 100 metros de galerias alagadas na Caverna de Castelbouc, no sul da França. As marcas têm 1,25 metro, cinco dedos visíveis e deixadas por saurópodes há 168 milhões de anos.

Por que as pegadas de dinossauros aparecem no teto e não no chão?

Em dezembro de 2015, o paleontólogo Jean-David Moreau, da Universidade Bourgogne Franche-Comté, foi o primeiro a identificar as marcas no teto da Caverna de Castelbouc: não pegadas convencionais, mas contramoldes, o negativo positivo das impressões originais deixadas há 168 milhões de anos por três grandes saurópodes que caminhavam pela margem de um mar raso que cobria o sul da França.

Ao longo de milhões de anos, a erosão cárstica dissolveu a argila original e escavou a caverna, deixando apenas os moldes expostos no teto. O resultado é o mesmo de encher uma pegada na lama com gesso e depois remover toda a lama ao redor: sobra apenas o molde em relevo, suspenso onde antes havia chão.

Ao longo de milhões de anos, a erosão cárstica dissolveu a argila original e escavou a caverna, deixando apenas os moldes expostos no teto

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As pegadas de dinossauros medem até 1,25 metro e têm cinco dedos visíveis

Cada marca chega a 1,25 metro de comprimento, com cinco dedos claramente distinguíveis. A atribuição é aos saurópodes, os principais dinossauros herbívoros de pescoço longo, parentes do Brachiosaurus, que naquele período estavam em plena expansão pelo mundo.

As trilhas confirmam que esses animais habitavam ambientes costeiros e zonas úmidas no Jurássico Médio europeu, um período com poucos fósseis ósseos conhecidos. Os rastros funcionam como uma das únicas evidências diretas do comportamento e do habitat dos saurópodes nessa fase da evolução. A descoberta foi publicada em 25 de março de 2020 no Journal of Vertebrate Paleontology, conforme reportado pelo Science News.

Por que cada expedição a Castelbouc exige até 12 horas subterrâneas?

A operação de campo é extenuante. A equipe passa até 12 horas subterrâneas por expedição, rastejando por passagens apertadas num sistema cárstico úmido e escuro, desconfortável mesmo para espeleólogos experientes. Partes da Caverna de Castelbouc ficam periodicamente alagadas, restringindo as visitas a períodos de seca.

Cada expedição exige carregar, por onde os pesquisadores avançam de joelhos e cotovelos, equipamentos como câmeras, iluminação especializada e scanners a laser. São esses scanners que permitem documentar as superfícies do teto com precisão milimétrica sem contato direto com as estruturas.

O canal Abimes Spéléologie, com 316 inscritos e especializado em explorações subterrâneas, registrou uma das expedições à Grotte de Castelbouc em julho de 2025, com 122 visualizações. No vídeo a seguir, é possível ver as condições reais do ambiente onde as pegadas foram encontradas:

Cavernas cársticas e afloramentos: qual preserva melhor os rastros?

Afloramentos expostos sofrem com chuva, variação de temperatura e vento, o que fragmenta e degrada rastros ao longo dos séculos. Cavernas profundas, por serem protegidas desses fatores, podem preservar superfícies de rastros maiores e em melhor estado de conservação, tornando-se um ambiente fossilífero de valor excepcional.

A diferença entre os dois ambientes vai além do acesso: envolve qualidade de preservação, área contínua de superfície e risco de degradação. A tabela abaixo compara os dois cenários nos fatores mais relevantes para a pesquisa de rastros:

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Fator Afloramento ao ar livre Caverna cárstica
Exposição à erosão Alta Baixa
Conservação das superfícies Fragmentada Extensa e contínua
Acesso para pesquisa Simples Exige expedições especializadas
Registros confirmados com pegadas Centenas de sítios Apenas 2 no mundo

Por que pegadas de dinossauros em cavernas naturais são tão raras?

A equipe de Moreau é uma das apenas duas no mundo a ter encontrado registros desse tipo em cavernas cársticas naturais. Esse dado revela o quanto esse ambiente paleontológico permanece inexplorado, apesar do potencial de conservação superior ao da superfície.

Segundo o Phys.org, na época da publicação, Moreau liderava a exploração de outra caverna profunda com centenas de pegadas de dinossauros, cujos resultados não haviam sido divulgados. O próprio pesquisador descreveu os achados como potencialmente os mais expressivos de todos.

Quais tecnologias permitem mapear rastros no teto de uma caverna?

Documentar rastros em tetos de cavernas exige soluções que vão além dos métodos tradicionais de campo. Scanners a laser de alta precisão criam modelos tridimensionais das superfícies sem toque físico, preservando a integridade dos contramoldes. Iluminação rasante, posicionada em ângulos baixos em relação ao teto, revela relevos de poucos milímetros que seriam invisíveis com luz direta.

Cada ferramenta cumpre uma função específica na cadeia de documentação. Abaixo, os principais equipamentos usados em expedições como a de Castelbouc e o que cada um entrega na prática:

  • Scanner a laser terrestre: captura até 1 milhão de pontos por segundo, gerando nuvens de pontos 3D com precisão milimétrica
  • Fotogrametria digital: reconstrói volumetricamente cada contramolde sem contato com a superfície
  • Iluminação rasante ajustável: revela microrelevos e bordas das pegadas invisíveis sob luz direta
  • Mapeamento topográfico subterrâneo: contextualiza a posição exata de cada trilha no sistema de cavernas

O que Castelbouc revela sobre o Jurássico Médio europeu

Para a paleontologia do Jurássico Médio, cada trilha preservada em calcário é uma fonte direta de dados sobre locomoção, comportamento e habitat dos saurópodes. As três trilhas de Castelbouc indicam que esses animais percorriam ativamente as margens costeiras da região, num tempo em que a Europa era um arquipélago de ilhas rasas banhadas por mares tropicais.

O que Moreau encontrou rastejando no escuro não é apenas uma curiosidade geológica: é evidência de que animais de várias toneladas pisaram aquela costa há 168 milhões de anos, e que o registro dessa passagem sobreviveu suspenso no teto de uma caverna, esperando ser lido por quem fosse longe o suficiente para procurar.

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