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O assentamento polar onde o sol não nasce durante 4 meses e a legislação proíbe as pessoas de morrerem no local

VitorPor Vitor
12/03/2026

A 78° de latitude norte, a meio caminho entre a Noruega continental e o Polo Norte, existe um assentamento de pouco mais de 2 mil habitantes onde o solo nunca descongela, os ursos polares superam a população humana e uma norma em vigor há mais de sete décadas determina que ninguém pode ser enterrado. Longyearbyen, no arquipélago de Svalbard, é o maior povoado do planeta acima de mil moradores nessa latitude.

Por que é “proibido” morrer em Longyearbyen?

A resposta está sob os pés dos moradores. O permafrost, camada de solo permanentemente congelada, impede que corpos enterrados se decomponham. O chão funciona como um freezer natural: bactérias, vírus e tecidos ficam preservados por tempo indeterminado. Em 1998, cientistas exumaram corpos de vítimas da gripe espanhola de 1918 no cemitério local e encontraram o vírus ainda preservado, 80 anos depois do sepultamento.

Desde a década de 1950, o governo norueguês proibiu novos enterros em Longyearbyen. Todas as entradas dos cemitérios existentes foram fechadas. Pessoas em estado terminal são transferidas de avião para o continente, a mais de 2 mil km de distância. Quem morre antes da transferência pode ser cremado, mas somente após um longo processo de licença estadual. Em 2024, uma proposta de atualização do regulamento de cemitérios reiterou a regra principal: caixões não podem ser sepultados em Longyearbyen.

A restrição não é punição, é precaução. Com o avanço do aquecimento global, o permafrost de Svalbard está derretendo a uma taxa de 0,8 °C por década. Se patógenos antigos forem liberados pelo degelo, o risco sanitário se torna real.

Longyearbyen destaca-se como o assentamento humano mais ao norte do mundo, onde a luz do sol desaparece por meses // (imagem ilustrativa)

A escuridão que dura quatro meses e o sol que nunca se põe

Longyearbyen vive entre dois extremos de luz. O sol da meia-noite ilumina a cidade sem pausa de 18 de abril a 24 de agosto, somando 128 dias consecutivos de luz. No sentido oposto, a noite polar se estende de 27 de outubro a 15 de fevereiro, totalizando 111 dias sem o sol cruzar a linha do horizonte. Devido às montanhas ao redor, a luz solar só atinge diretamente a cidade por volta de 8 de março.

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Essa data é tão importante que os moradores celebram a Solfestuka (Semana do Festival do Sol), um evento anual que marca o retorno dos raios solares após meses de escuridão. É uma das festas mais simbólicas do Ártico.

O cofre que guarda a última esperança da humanidade

A poucos quilômetros do centro, escavado dentro de uma montanha, o Svalbard Global Seed Vault armazena mais de 1 milhão de amostras de sementes de cultivos agrícolas de todo o mundo. Inaugurado em 2008, o cofre foi projetado para resistir a catástrofes naturais, guerras e mudanças climáticas. O permafrost mantém a temperatura natural em −6 °C, e um sistema de refrigeração complementar conserva as sementes a −18 °C.

O cofre já foi acionado na prática: em 2015, pesquisadores retiraram sementes depositadas pela Síria após o banco genético do país se tornar inacessível devido à guerra civil. É a prova de que o projeto não é apenas simbólico.

Longyearbyen brilha como a guardiã da humanidade ao abrigar o Cofre Global de Sementes nas entranhas da montanha // (imagem ilustrativa)

Leia também: 13.416 pessoas por km² e nenhum metro quadrado de área rural: a cidade mais apertada do Brasil fica colada em São Paulo

Ursos polares, armas obrigatórias e gatos proibidos

Svalbard abriga cerca de 3 mil ursos polares, mais do que a população humana do arquipélago inteiro. Por isso, desde 2012, qualquer pessoa que saia dos limites de um povoado é obrigada por lei a portar uma arma de fogo. Sinalizadores e dispositivos de alarme também são recomendados.

Outra regra incomum: gatos domésticos são proibidos em Longyearbyen para proteger as aves árticas que nidificam na região. Gestantes também são incentivadas a deixar a cidade e se mudar para o continente pelo menos um mês antes do parto, já que não há maternidade local.

Apesar do isolamento, a cidade é surpreendentemente cosmopolita. Svalbard é um território livre de vistos, e mais de 50 nacionalidades convivem em Longyearbyen.

O clima em números extremos

A temperatura média anual é de −6,9 °C. O mês mais quente, julho, registra média de apenas 4,7 °C. A menor temperatura já registrada foi −46,3 °C, em março de 1986. O quadro abaixo resume o que esperar em cada período:

Período Meses Temperatura média Luz O que define a estação
Noite polar Out-Fev −12 a −15 °C Escuridão total Aurora boreal, neve constante
Retorno do sol Mar-Mai −16 a −4 °C Crescente Solfestuka, paisagem congelada com luz
Sol da meia-noite Jun-Ago 3 a 6 °C 24h de sol Fauna ativa, passeios de barco, trilhas
Crepúsculo Set 0 a 2 °C Decrescente Últimas luzes, início do frio intenso

Dados climáticos baseados em registros do Instituto Meteorológico Norueguês e do INMET local. Condições podem variar.

O lugar onde a vida obedece ao gelo

Longyearbyen não é um destino turístico comum nem uma cidade convencional. É um experimento humano no limite do planeta, onde cada regra, do porte de armas à proibição de enterros, existe porque a natureza não negocia. O permafrost conserva sementes para o futuro e vírus do passado. O sol desaparece por meses e depois se recusa a se pôr. Os ursos têm prioridade.

Se algum lugar no mundo lembra que somos visitantes no planeta e não proprietários, esse lugar fica a 78° norte, entre geleiras e minas de carvão abandonadas, no assentamento mais improvável da Terra.

Longyearbyen destaca-se como o assentamento humano mais ao norte do mundo, onde a luz do sol desaparece por meses // (imagem ilustrativa)

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