No chão do Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa, um mapa-múndi de pedra marca os portos onde as caravelas portuguesas aportaram. Entre milhares de localidades, só duas cidades brasileiras aparecem: Porto Seguro e Cananéia, com a inscrição Cananea, 1502. A cidade do extremo sul paulista guarda quase 495 anos de história e foi apontada pela revista Condé Nast Traveler como o melhor roteiro ecológico do mundo.
Por que Cananéia disputa o posto de cidade mais antiga do Brasil?
A disputa começa em 12 de agosto de 1531, quando Martim Afonso de Sousa aportou na região e fincou um marco de pedra na Ilha do Cardoso, hoje guardado no Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro. Foram cinco meses antes da fundação oficial de São Vicente.
A diferença é técnica: faltam documentos que comprovem o status de vila na época, e por isso São Vicente leva o título oficial. Pesquisadores e o próprio governo paulista reconhecem que já havia povoamento europeu em Cananéia antes disso, ligado ao misterioso Cosme Fernandes, o Bacharel, degredado português que vivia entre os Carijós.

Vale a pena viver em uma cidade tombada pela UNESCO em três camadas?
Vale para quem busca silêncio, mar calmo e natureza preservada como rotina. Cananéia tem cerca de 12 mil habitantes, vive da pesca e do turismo, e ostenta um conjunto de reconhecimentos ambientais que poucos municípios do mundo conseguem reunir.
O território está inserido em três camadas de proteção internacional reconhecidas pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), segundo a Fundação Florestal de São Paulo:
- Sítio do Patrimônio Mundial Natural: reconhecido em 1999 como parte das Reservas da Mata Atlântica do Sudeste, conforme a UNESCO.
- Zona Núcleo da Reserva da Biosfera: ratificada em 2005 pela mesma agência da ONU.
- Sítio Ramsar: a Área de Proteção Ambiental Cananéia, Iguape e Peruíbe entrou na lista mundial de zonas úmidas de importância internacional em 2017, segundo o Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO USP).
- Berçário marinho: o complexo estuarino é apontado pela União Internacional de Conservação da Natureza como o terceiro maior estuário do mundo em produtividade primária.

Reconhecimento internacional: ostras premiadas pela ONU e roteiro nº 1
O reconhecimento mais lembrado vem da revista americana Condé Nast Traveler, que apontou Cananéia como o melhor roteiro ecológico do mundo, segundo a Plataforma de Turismo do Governo de São Paulo.
Há também um prêmio internacional pouco conhecido fora do Vale do Ribeira. A Cooperativa dos Produtores de Ostra de Cananéia (Cooperostra), formada por moradores do quilombo do Mandira, recebeu o Prêmio Iniciativa Equatorial da ONU na Cúpula Mundial para o Desenvolvimento Sustentável de Joanesburgo, em 2002, conforme a Prefeitura de Cananéia. Hoje a ostra cananeense é considerada uma das melhores do país.
O que fazer em Cananéia além do passeio aos golfinhos?
O destino une centro histórico tombado, ilhas selvagens e gastronomia caiçara. Os principais passeios partem do píer municipal, na Avenida Beira Mar, e levam a praias acessíveis apenas por barco.
Os pontos turísticos mais procurados são:
- Parque Estadual da Ilha do Cardoso: 22 mil hectares de Mata Atlântica preservada, com trilhas, cachoeiras e praias desertas como a Pereirinha e a do Marujá.
- Museu Histórico e Artístico Victor Sadowski: abriga o tubarão-branco taxidermizado de 5,5 metros e 3,5 toneladas, segundo maior já capturado no mundo, pescado em 1992 a 27 km da costa.
- Igreja de São João Batista: erguida em 1577 com calcário de conchas e óleo de baleia, serviu de fortaleza contra piratas e mantém frestas laterais para tiros de defesa.
- Baía dos Golfinhos: passeio de escuna pelo estuário entre Ilha Comprida e Ilha do Cardoso, com avistamento quase garantido de botos-cinza.
- Reserva Extrativista do Mandira: comunidade quilombola que cultiva ostras de forma sustentável, com cachoeira, trilhas e restaurantes simples no manguezal.
- Cachoeira do Pitu: queda d’água com piscina natural a 13 km do centro, na antiga região de mineração de Itapitangui.
Na hora de comer, a cidade é considerada a capital gastronômica do Vale do Ribeira. Os pratos típicos são:
- Ostras frescas do Mandira: servidas in natura ou gratinadas direto dos viveiros do mangue, em comunidade certificada pela ONU.
- Caldeirada caiçara: peixes frescos da pesca artesanal cozidos com leite de coco, batata e legumes, prato símbolo da culinária local.
- Pastel de ostra: frito na hora com recheio generoso, vendido em bares de comunidade como o do Nei Mandira.
- Farofa de ostra: acompanhamento típico que entra em quase todos os pratos tradicionais cananeenses.
Quem deseja conhecer o litoral sul de São Paulo, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Uma Janela | Huba e Lidi, que conta com mais de 70 mil visualizações, onde Humberto e Lidi mostram o melhor roteiro em Cananéia, incluindo golfinhos e a história local:
Qual a melhor época para visitar Cananéia?
O clima é subtropical úmido e a região está entre as mais chuvosas de São Paulo, o que mantém o verde da Mata Atlântica o ano todo. O inverno é a temporada mais seca e ideal para observação de fauna.
Veja como cada estação se comporta na cidade:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à cidade mais antiga do litoral paulista?
Cananéia fica a cerca de 270 km da capital, e o trajeto principal é pela BR-116 (Rodovia Régis Bittencourt) até a saída 464, seguindo pela SP-226. A viagem leva entre 3h30 e 4h de carro. De Curitiba, são pouco menos de 300 km. Não há aeroporto local, e dentro do município os deslocamentos para ilhas e praias são feitos exclusivamente de barco a partir do píer central.
Por que Cananéia merece pelo menos uma viagem
Poucos lugares no Brasil reúnem 495 anos de história, três selos da UNESCO, ostras premiadas pela ONU e golfinhos que aparecem em frente ao píer durante a caminhada da manhã. Cananéia é o tipo de destino que devolve o tempo a quem chega.
Você precisa conhecer Cananéia e sentir o peso de pisar na primeira povoação do litoral brasileiro com vista para um mar de manguezais.














