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A cidade de 4.500 anos que já tinha esgoto planejado e banheiros em todas as casas muito antes da civilização moderna

Vitor Por Vitor
06/03/2026
Em Cidades

Enquanto a maioria das civilizações antigas erguia palácios e templos para seus reis, uma cidade no vale do rio Indo investia em banheiros, drenos e água limpa para todos. Mohenjo-daro, no atual Paquistão, funcionou entre 2600 e 1900 a.C. com um sistema de saneamento que só seria igualado milênios depois.

Uma metrópole de tijolos idênticos no meio do deserto

Mohenjo-daro ocupava cerca de 300 hectares às margens do Indo, na província de Sindh. A população chegou a 40 mil habitantes, segundo estimativas publicadas pelo Oxford Handbook of Cities in World History. As ruas seguiam um traçado em grade retilínea, com vias principais cortando a cidade de norte a sul e de leste a oeste.

Todos os tijolos seguiam a proporção de 4:2:1 entre comprimento, largura e altura. Essa padronização, garantida por moldes em uso desde aproximadamente 4000 a.C., é chamada de “proporção Indo” pelo arqueólogo Gregory Possehl. A mesma medida valia para cidades a centenas de quilômetros de distância, como Harappa e Dholavira. A proporção 4:2:1, aliás, continua sendo considerada ideal para alvenaria até hoje.

Mohenjo-daro, no atual Paquistão // Créditos: Wikipedia / Wikimedia Commons

Cada casa tinha banheiro, poço e conexão com o esgoto

Quase todas as residências da cidade possuíam área de banho privativa, com drenos conectados à rede pública. A água vinha de poços individuais nos pátios internos. No total, a cidade abrigava mais de 700 poços, conforme o estudo de Michael Jansen publicado no periódico World Archaeology em 1989.

Os banheiros funcionavam com descarga manual: o morador despejava um jarro de água no vaso, que escoava por tubulação de argila até um dreno compartilhado. O dreno alimentava uma fossa de absorção, esvaziada periodicamente. O resíduo sólido era possivelmente reaproveitado como fertilizante. Algumas casas tinham banheiro no segundo andar, conectado ao sistema de drenagem por tubos embutidos nas paredes de tijolo.

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O esgoto coberto que a Europa só conheceria séculos depois

Todas as ruas e vielas de Mohenjo-daro possuíam drenos subterrâneos. Os canos domésticos despejavam em galerias maiores, que corriam sob as vias principais e levavam os dejetos para fora da cidade por gravidade. As galerias eram cobertas com tijolos assentados na horizontal e possuíam aberturas de inspeção em intervalos regulares, para limpeza e manutenção.

Pequenas bacias de decantação ao longo do percurso retinham sedimentos, enquanto a água seguia adiante. Arqueólogos encontraram montes de areia esverdeada ao lado dessas bacias, evidência de que a manutenção era rotineira. Quando a cidade crescia e o volume de esgoto aumentava, os moradores simplesmente elevavam as paredes dos canais com novas camadas de tijolo para evitar transbordamento. Um dos drenos da área DK-G chegou a 2 metros de profundidade.

O Grande Banho e a engenharia da impermeabilização

O maior edifício público de Mohenjo-daro não era um templo nem um palácio. Era um tanque de água. Conhecido como Grande Banho, ele mede aproximadamente 12 metros de comprimento por 7 de largura, com 2,4 metros de profundidade. É considerado o primeiro tanque público do mundo antigo, segundo o Harappa Archaeological Research Project.

O piso foi construído com tijolos assentados de ponta, selados com gesso. Uma camada espessa de betume natural cobria as paredes e o fundo, garantindo impermeabilização total. Duas escadarias davam acesso ao tanque pelo norte e pelo sul, com plataformas nos degraus para que os banhistas não precisassem pisar diretamente no fundo. A água era fornecida por um poço em sala adjacente e escoava por um dreno no canto sudoeste.

Mohenjo-daro, no atual Paquistão // Créditos: Wikipedia / Wikimedia Commons

A cidade sem rei que priorizava higiene coletiva

Mohenjo-daro não apresenta evidências de palácios, templos monumentais ou túmulos reais. Essa ausência intriga pesquisadores há quase um século. Segundo estudo de Adam S. Green publicado no Journal of Archaeological Research em 2020, a falta de sinais de uma classe dominante não indica simplicidade, mas sim um modelo de governança possivelmente coletivo, sem paralelo entre as civilizações contemporâneas do Egito e da Mesopotâmia.

As casas não variavam drasticamente em tamanho ou conforto. Produtos de qualidade, como plataformas de banho e objetos de ornamento, circulavam entre todas as camadas da população. O próprio Sir John Marshall, que supervisionou as escavações nos anos 1920, observou que as melhores estruturas da cidade foram construídas para uso coletivo dos cidadãos, não para glorificar governantes.

Patrimônio Mundial ameaçado pelas mesmas forças que a cidade enfrentou

A UNESCO reconheceu Mohenjo-daro como Patrimônio Mundial em 1980, tornando-a o primeiro sítio da Ásia Meridional a receber o título. Desde então, o rio Indo e o clima semiárido continuam ameaçando as ruínas. Em 2022, chuvas extremas despejaram quase 780 mm sobre o sítio em dez dias, causando danos severos a muros e à cúpula da estupa budista erguida séculos depois sobre a cidade antiga.

Entre 1974 e 1997, a UNESCO coordenou uma campanha internacional que mobilizou cerca de 8 milhões de dólares para proteger o sítio. Missões emergenciais voltaram ao local em 2022 e 2023. A ironia é clara: a mesma água que os engenheiros do vale do Indo dominaram há 4.500 anos segue sendo o maior desafio para preservar o que resta da cidade.

Quem se interessa por arqueologia e história antiga, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal National Geographic, que conta com mais de 3,3 milhões de visualizações, onde é explorada a engenharia e o mistério de Mohenjo-daro, no Paquistão:

Leia também: Construída em formato de leque: a única capital brasileira totalmente no Hemisfério Norte que foi desenhada com inspiração nas ruas de Paris

A lição que Mohenjo-daro ainda ensina

Mohenjo-daro prova que saneamento básico não depende de tecnologia sofisticada, mas de planejamento e prioridade coletiva. Uma civilização sem escrita decifrada, sem reis conhecidos e sem monumentos de vaidade construiu o que talvez seja o sistema urbano mais democrático da Antiguidade.

Vale conhecer a história dessa cidade às margens do Indo, onde tijolos padronizados e drenos cobertos diziam mais sobre uma sociedade do que qualquer palácio poderia dizer.

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