O recorde que nenhuma outra cidade quer quebrar
O estacionamento subterrâneo de bicicletas da Estação Central de Utrecht abriu em agosto de 2019, custou 30 milhões de euros e ocupa três pavimentos sob a praça principal da cidade. Com 12.500 vagas, superou com folga o antigo recorde de Tóquio, que acomodava 9.400 bikes. O projeto foi financiado pela prefeitura, pela operadora ferroviária NS e pela gestora de infraestrutura ProRail. As primeiras 24 horas de uso são gratuitas.
O bicicletário funciona 24 horas por dia e conta com câmeras que indicam em tempo real quais corredores têm vagas disponíveis. Nos horários de pico, chegam a entrar e sair duas bicicletas por segundo pelas rampas de acesso. Mesmo assim, a demanda supera a oferta: a cidade projeta expansão para chegar a 33 mil vagas na área da estação.
A lógica por trás do projeto vai além do estacionamento. Utrecht abriu a primeira ciclovia dos Países Baixos em 1885 e desde então trata a bicicleta como principal modal urbano. Semáforos são programados para priorizar ciclistas, zonas de tráfego calmo cobrem o centro histórico e o carro, na prática, é o modal menos conveniente para circular pela cidade. “Descobrimos que se você construir, as pessoas vão usar”, resumiu a vice-prefeita da cidade ao New York Times.

Dois mil anos de história abaixo dos paralelepípedos
Quem pedala pelo centro de Utrecht cruza um dos territórios mais antigos da Europa Ocidental. Os romanos ergueram um forte às margens do Reno no século I d.C., no exato local onde hoje fica a Praça Dom. Sob o calçamento da praça é possível visitar vestígios desse passado no museu subterrâneo DOMunder, que leva o visitante por 2.000 anos de história em um tour guiado por áudio.
Dominando o horizonte desde 1382, a Torre Dom é a torre de igreja mais alta dos Países Baixos, com 112 metros. Ela foi construída entre 1321 e 1382 e, desde 1674 está separada da nave da catedral, destruída por um tornado naquele ano e nunca reconstruída. A visita inclui 465 degraus até o topo e, em dias claros, vista de Amsterdã a Rotterdam.
A poucos minutos do centro, a Casa Rietveld Schröder representa outro capítulo raro da história da cidade. Projetada em 1924 pelo arquiteto Gerrit Rietveld para a viúva Truus Schröder, a residência foi construída sem paredes fixas no andar superior e é considerada a única expressão pura do movimento De Stijl na arquitetura. Patrimônio Mundial da UNESCO desde 2000, só pode ser visitada em tour guiado, com no máximo 12 pessoas por vez.

Como é viver na quarta maior cidade holandesa
Utrecht tem cerca de 330 mil habitantes e é a cidade que mais cresce nos Países Baixos. A presença da Universidade de Utrecht, a maior do país, garante à cidade uma proporção incomum de jovens e uma vida cultural vibrante que não depende de grandes eventos para acontecer. O centro histórico movimenta-se ao ritmo de estudantes, pesquisadores e moradores que encontram nos canais o espaço público mais democrático da cidade.
A infraestrutura voltada à mobilidade ativa tem impacto direto na saúde da população. Estudos citados pela prefeitura indicam que o uso cotidiano da bicicleta reduz riscos de doenças cardiovasculares, obesidade e diabetes tipo 2. O silêncio nas ruas centrais, sem o ronco constante dos motores, é uma das primeiras coisas que os visitantes notam ao descer do trem.

O que explorar além da Dom Tower
A cidade combina monumentos medievais com espaços cotidianos de alta qualidade. O Oudegracht, o canal mais antigo dos Países Baixos, percorre dois quilômetros pelo centro histórico com um nível adicional de adegas históricas convertidas em cafés, restaurantes e ateliês. Pedalar ao longo do canal de manhã cedo, com as casas holandesas ainda na sombra, é uma das experiências mais memoráveis que a cidade oferece.
Outras atrações que merecem tempo:
- Torre Dom: 465 degraus até o mirante a 112 m de altura. Visita obrigatoriamente guiada, saindo da Praça Dom.
- Casa Rietveld Schröder: Patrimônio da UNESCO (2000), única obra arquitetônica pura do De Stijl. Tour guiado com reserva antecipada obrigatória. A 20 min de bicicleta do centro.
- Museu Speelklok: Coleção única de instrumentos musicais autômatos, de caixinhas de música do século XVIII a órgãos de rua do século XX. Funciona no centro histórico.
- Kasteel de Haar: O maior castelo dos Países Baixos, em estilo neogótico, a 15 km do centro. Cercado por jardins e fosso; acessível de bicicleta por ciclovias.
- Museu Catharijneconvent: O maior acervo de arte religiosa holandesa, instalado em um convento medieval junto ao centro.
Quem busca o que fazer na Holanda além de Amsterdã, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Traços do Mundo, que é referência em viagens, onde o casal mostra o que conhecer em um dia em Utrecht:
Quando o clima da Holanda trabalha a seu favor
Utrecht tem clima oceânico temperado, com chuvas distribuídas o ano todo e neve pouco frequente no inverno. O período mais agradável para visitar vai de maio a setembro, quando os dias chegam a 16 horas de luz e as temperaturas ficam entre 18°C e 23°C.
Primavera
Verão
Outono
Inverno
Temperaturas aproximadas com base em dados de Climates to Travel. Condições podem variar. Consulte a previsão antes de viajar.
Uma cidade que pedala para o futuro
Utrecht não é a Holanda folclórica dos cartões-postais. É uma cidade medieval que decidiu, deliberadamente, construir seu futuro em cima de duas rodas. O resultado é um lugar onde o espaço público pertence às pessoas, o silêncio tem valor e a mobilidade virou sinônimo de saúde.
Quem tiver a chance de visitar Utrecht vai entender, já nos primeiros quilômetros de ciclovia, por que tantas cidades do mundo chegam aqui para aprender como funciona uma cidade feita para pessoas.

