A Promotoria de Justiça do Patrimônio Público do Ministério Público de São Paulo analisa uma representação que aponta possíveis conexões entre o escândalo do Banco Master e as privatizações da Empresa Metropolitana de Águas e Energia, a EMAE, e da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, a Sabesp.
O documento foi protocolado em 20 de março de 2026 pelo deputado estadual Antônio Donato, do PT-SP, líder da oposição na Assembleia Legislativa de São Paulo. A representação pede a instauração de inquérito civil para apurar eventual improbidade administrativa e possíveis irregularidades nas operações envolvendo ativos públicos estaduais.
Segundo a representação, as privatizações da EMAE, realizada em abril de 2024, e da Sabesp, concluída em julho do mesmo ano, teriam pontos de conexão com estruturas financeiras ligadas ao Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro.
O documento afirma que o banco teria atuado na estruturação e no financiamento de grupos empresariais interessados na aquisição dos ativos públicos.
O que a representação aponta sobre a privatização da Sabesp?
A privatização da Sabesp ocorreu em julho de 2024, quando o governo paulista abriu mão do controle acionário da companhia. À época, segundo a representação, a empresa era avaliada em mais de R$ 56,2 bilhões, com ações negociadas a R$ 82,00.
O bloco de controle, equivalente a 15% das ações, foi vendido a R$ 67,00 por papel, totalizando R$ 6,9 bilhões. A Equatorial Energia foi a única concorrente na disputa.
A representação afirma que especialistas do Observatório Nacional das Águas, da Agência Reguladora dos Serviços Públicos do Estado e da Associação dos Profissionais Universitários da Sabesp avaliaram o desconto em 44% abaixo do preço de mercado. Em fevereiro de 2026, segundo o documento, as ações da Sabesp eram negociadas a R$ 152,50.
O documento também aponta que o BTG Pactual coordenou a oferta pública de outros 17% das ações da Sabesp ao mesmo preço de R$ 67,00 por papel. A demanda teria superado R$ 200 bilhões para uma oferta de R$ 7,9 bilhões. A representação levanta suspeitas de favorecimento a clientes específicos na alocação das ações e afirma que bancos como Itaú BBA e Citi teriam sido excluídos de decisões estratégicas.
Durante o processo, Karla Bertocco presidia o Conselho de Administração da Sabesp e, simultaneamente, ocupava cargo no Conselho da Equatorial, única empresa interessada na compra do bloco de controle.
A representação aponta essa sobreposição como um dos pontos a serem analisados pelo Ministério Público.
Carlos Piani aparece como elo entre Ambipar, Equatorial e Sabesp
A representação aponta Carlos Piani como uma figura central na estrutura descrita. Segundo o documento, ele presidiu o Conselho de Administração da Ambipar entre março de 2023 e setembro de 2024, período que coincide com a valorização superior a 800% das ações da companhia.
Essas ações teriam sido usadas como lastro do Fundo Phoenix no leilão da EMAE. Entre junho e julho de 2024, Piani também acumulou a presidência do Conselho de Administração da Equatorial, justamente durante o processo de venda do controle da Sabesp.
Em outubro de 2024, ele assumiu a presidência da Sabesp privatizada. Sob sua gestão, a companhia adquiriu o controle da EMAE em outubro de 2025. Para a representação, esse movimento encerra um ciclo no qual o ativo voltou ao ambiente societário de um agente que havia participado de etapas anteriores da estruturação financeira.
Fundo Phoenix foi criado menos de um mês antes do leilão da EMAE
O leilão da EMAE ocorreu em 19 de abril de 2024, na Bolsa de São Paulo. O Fundo Phoenix venceu a disputa com uma proposta de aproximadamente R$ 1,04 bilhão, superando a oferta da EDF.
Um dos pontos destacados na representação é a data de constituição do fundo: 20 de março de 2024, menos de um mês antes do certame.
A EMAE é responsável pela gestão das represas Billings e Guarapiranga e pelo fluxo do Rio Pinheiros para geração de energia elétrica em quatro usinas, incluindo a Henry Borden.
Segundo a representação, o pagamento da aquisição da EMAE foi viabilizado pelo Banco Master, via Trustee DTVM, em parceria com Nelson Tanure e Tércio Borlenghi Junior, fundador da Ambipar. A operação teria ocorrido por meio de uma emissão privada de debêntures da Phoenix S.A., no valor de R$ 520,15 milhões, conforme parecer técnico da Superintendência de Registro de Emissores da CVM citado no documento.
Após assumir o controle da EMAE, o grupo liderado por Tanure teria aplicado cerca de R$ 160 milhões do caixa da companhia em CDBs emitidos pelo Letsbank, controlado pelo Banco Master. A representação também afirma que a EMAE adquiriu aproximadamente R$ 300 milhões em debêntures da Light, empresa também sob controle de Tanure.
Banco Master é citado como peça central na estrutura financeira
A representação descreve o Banco Master como peça central na estruturação financeira das duas operações. Segundo o documento, o banco teria atuado por meio de intermediações financeiras cruzadas e instrumentos societários que, de acordo com o deputado Antônio Donato, serviriam para ocultar a real cadeia de comando econômico.
O documento também cita Fabiano Zettel, pastor, cunhado de Daniel Vorcaro e colaborador do Grupo Master. Segundo a representação, ele teria atuado como uma das peças do Banco Master na parceria para aquisição da EMAE.
A representação afirma ainda que Tanure, Zettel, a REAG gestora de fundos e a Trustee DTVM são investigados no âmbito das operações Carbono Oculto e Compliance Zero por suspeitas de lavagem de dinheiro e fraudes financeiras.
CVM é citada em trecho sobre ações da Ambipar
A representação também faz referência a uma investigação concluída pela Comissão de Valores Mobiliários em maio de 2025. Segundo o documento, a Ambipar lançou em março de 2024 um programa de recompra de ações que concentrou cerca de 70% dos papéis em circulação.
Na sequência, fundos vinculados ao Banco Master e à gestora Reag teriam adquirido um volume significativo dessas ações, com participação da Trustee DTVM na administração operacional.
A representação afirma que esse circuito financeiro teria produzido uma valorização superior a 800% das ações da Ambipar entre abril e outubro de 2024. O documento aponta que a dinâmica teria características de formação artificial de preço e simulação de liquidez, condutas que podem se enquadrar no artigo 27-C da Lei 6.385/76, que trata de manipulação de mercado.
MP-SP avalia conexão com outro procedimento
A representação foi inicialmente encaminhada à Subprocuradoria-Geral de Justiça, que remeteu o caso à Promotoria de Patrimônio Público por entender que os envolvidos não têm foro privilegiado estadual.
O Ministério Público informou ao gabinete do deputado que o caso está sendo analisado para verificar possíveis semelhanças com outro procedimento já atribuído à 5ª Promotoria de Patrimônio Público.
Entre os pedidos apresentados estão a instauração de inquérito civil, a apuração de eventual improbidade administrativa, o compartilhamento de informações com o Ministério Público Federal e com a Polícia Federal em caso de indícios de ilícitos de competência da União, além da eventual propositura de Ação Civil Pública.
O inquérito civil é um procedimento investigatório conduzido pelo Ministério Público para apurar fatos que possam configurar dano ao patrimônio público, ao meio ambiente ou a interesses coletivos. Ele não tem caráter criminal, mas pode subsidiar uma Ação Civil Pública ou ser encaminhado à esfera penal se houver indícios de crime.
O que diz a Sabesp
Em nota, a Sabesp informou que a aquisição da EMAE foi uma operação corporativa direta, transparente, aprovada pelo Conselho de Administração e validada pelos órgãos reguladores competentes. Destacou ainda que a a análise financeira foi rigorosa, passando pelo escrutínio do CADE, que verificou aspectos concorrenciais, e da ANEEL, que avaliou a capacidade técnica, idoneidade financeira, regularidade jurídica e fiscal da Sabesp. “A transação responde a uma lógica operacional e técnica de integrar a gestão de saneamento com o controle de recursos hídricos, particularmente as represas Billings e Guarapiranga, que são críticas para o abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo”, aponta a posição oficial enviada via a assessoria de imprensa.
Veja a íntegra da nota da Sabesp
“A Sabesp informa que a aquisição da EMAE foi uma operação corporativa direta, transparente, aprovada pelo Conselho de Administração e validada pelos órgãos reguladores competentes. A análise financeira foi rigorosa, passando pelo escrutínio do CADE, que verificou aspectos concorrenciais, e da ANEEL, que avaliou a capacidade técnica, idoneidade financeira, regularidade jurídica e fiscal da Sabesp. A transação responde a uma lógica operacional e técnica de integrar a gestão de saneamento com o controle de recursos hídricos, particularmente as represas Billings e Guarapiranga, que são críticas para o abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo.
Sobre o processo de desestatização da Sabesp, em 2024, a própria Justiça de São Paulo julgou totalmente improcedente a ação popular que questionava a venda de ações para a Equatorial, descartando qualquer irregularidade. A decisão também deixa claro que nunca existiu conflito de interesses envolvendo a referida conselheira.
A Companhia informa, ainda, que seu diretor-presidente comandava o Conselho de Administração da Equatorial Energia durante o processo de desestatização da Sabesp em 2024. A Equatorial tornou-se acionista de referência da Sabesp, adquirindo 15% das ações. A indicação dele para a presidência da Sabesp foi uma consequência natural dessa participação acionária, trazendo sua vasta experiência em gestão de grandes empresas e infraestrutura para a companhia.
Não existe qualquer relação entre o executivo e a estruturação do referido fundo ou a valorização das ações mencionadas pela reportagem. Questões relativas à valorização e desvalorização de ações são de competência exclusiva da CVM, que realiza as apurações necessárias. Tanto a Sabesp quanto o seu diretor-presidente não tinham conexão com a EMAE até 2025, quando a Sabesp celebrou o acordo de aquisição.
A Sabesp ressalta que, como empresa de capital aberto na B3 e na NYSE, está sujeita a requisitos rigorosos de compliance e governança corporativa. Todas as nomeações para diretoria e conselho passam por avaliação formal de conformidade, e a empresa mantém comitês independentes de auditoria e compliance”.













