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Painel BM&C debate discursos de Trump e Lula na ONU

Renata Nunes Por Renata Nunes
24/09/2025
Em Análises, Entrevista, Exclusivas, Exclusivo, INTERNACIONAL, PAINEL BM&C, Política Internacional

O Painel BM&C, apresentado por Paula Moraes, reuniu Bruno Musa, consultor da Portfel, Miguel Daoud, analista de economia e política e Roberto Dumas, mestre em economia, para destrinchar os impactos dos discursos de Trump e Lula na ONU. Enquanto Lula falou em “genocídio” em Gaza, criticou a “tirania do veto” no Conselho de Segurança e defendeu a soberania, Trump reforçou a linha dura do “America First”, rejeitou o reconhecimento da Palestina e classificou a ONU como palco de “palavras vazias”. Nesse cenário, o Brasil aparece no meio do tabuleiro, lidando com tarifas de 50% impostas pelos EUA e novas sanções direcionadas a figuras do Judiciário.

Além disso, os especialistas colocaram holofotes sobre os custos econômicos de um discurso de prestígio internacional quando o país enfrenta fragilidades fiscais. Nesse sentido, o programa discutiu a dívida pública dos EUA e o risco à confiança no dólar, bem como os dilemas fiscais domésticos. Por outro lado, os convidados ponderaram que a política é também teatro, aplaudida cinco vezes, a fala de Lula buscou plateias distintas, a comunidade internacional e a base interna, ao passo que Trump mirou seu eleitorado com uma retórica assertiva.

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Trump e Lula na ONU: Brasil saiu mais forte após o embate de narrativas?

Para Bruno Musa, o discurso de Lula foi “mais duro nas entrelinhas” do que aparentou, citou Cuba e Venezuela, defendeu o Estado palestino e cobrou reforma do Conselho de Segurança, acenos que agradam parte do “Sul Global”, mas tensionam Washington. Enquanto isso, Dumas avaliou que houve exageros e certa incongruência ao mencionar democracia e, em seguida, relativizar regimes autoritários; ainda assim, reconheceu a experiência de Lula no palco da ONU e seu objetivo de se afirmar como líder internacional.

Daoud destacou a estratégia de comunicação, Lula falou para múltiplas bolhas e foi aplaudido, capitalizando dividendos simbólicos no exterior e políticos no Brasil. Entretanto, os três convidados convergiram que aplausos não significam liderança efetiva; podem refletir o “protocolo” da arena multilateral. Nesse sentido, a possível conversa entre Trump e Lula, presencial ou por videoconferência, virou peça central, oportunidade de distensionar ou “emparedar” narrativas.

Encontro entre Trump e Lula: acordo ou novo atrito?

Segundo Musa, o convite público de Trump coloca Lula diante de um custo reputacional, recusar seria incoerente com sua disposição ao diálogo; aceitar pode trazer pressões sobre temas sensíveis (censura, sanções e relações com a China). Daoud aposta que, se ocorrer, a reunião tende a ser online, com roteiro previamente combinado, reduzindo ruídos e exposições. Dumas, por sua vez, considera talvez não tenha o “momento Zelensky” ao vivo, mas vê probabilidade de cada lado usar o encontro para fortalecer a própria narrativa.

  • Cenário 1 – Distensão controlada: conversa com recados públicos de respeito à soberania e manutenção de canais, mas sem aliviar tarifas de 50% no curto prazo.
  • Cenário 2 – Pressão e contranarrativa: Trump endurece o tom sobre temas jurídicos e de liberdade de expressão; Lula responde enfatizando democracia e não interferência.
  • Cenário 3 – Compasso de espera: encontro esfria, segue por teleconferências técnicas, enquanto tarifas e sanções permanecem como instrumentos de barganha.

As tarifas vieram para ficar? E o que pesa mais na economia?

Dumas resgatou lições históricas sobre câmbio, déficits gêmeos e política fiscal, lembrando que depreciação do dólar, sozinha, não resolve desequilíbrios externos quando o gasto público é elevado. Nesse sentido, tarifas muito altas tendem a frear a atividade e contaminar cadeias produtivas globais, inclusive as americanas. Musa, por outro lado, enxerga “tarifas para ficar”, mas em patamar menor que os atuais 50%, algo intermediário, por exemplo, 5%–10%, que preserve a barganha política sem estrangular a economia.

Daoud reforçou que os EUA também são vulneráveis, há extensa presença de empresas americanas com produção na China, o que torna custosa uma ruptura abrupta. Por outro lado, defendeu que o Brasil não pode ficar excessivamente dependente de um único comprador (como a China), recomendando diversificação comercial. Enquanto isso, a fragilidade fiscal brasileira, citada pelos três, limita a margem de manobra para absorver choques externos ou sustentar políticas anticíclicas.

Para o trio, a ONU perdeu capacidade de mediação efetiva, seja por restrições financeiras, seja pela captura ideológica e pelos vetos das grandes potências. Nesse sentido, o palco global serve mais como vitrine de discursos e construção de capital político do que como arena de resolução. Ainda assim, os convidados ponderaram que, em um mundo com mais de 20 conflitos ativos, algum grau de coordenação multilateral continua desejável, mesmo que menos eficaz que no passado.

Quais as implicações imediatas para o Brasil?

Enquanto o governo sustenta uma retórica de soberania, a economia segue pressionada por juros globais, tarifas e incertezas sobre sanções. Além disso, a movimentação da Febraban em Washington sinaliza que o sistema financeiro monitora um risk tail (risco de cauda), improvável, porém relevante, de transbordamentos sobre operações externas. Por outro lado, a avaliação predominante é que eventuais medidas permaneceriam focalizadas, sem atingir o país como um todo no curto prazo. O mercado deve ficar de olho nos seguintes pontos:

  • Roteiro do encontro Trump e Lula: formato, pauta e tom dos comunicados pós-reunião.
  • Tarifas e sanções: sinais de acomodação ou escalada, e impactos setoriais (agronegócio, manufatura, finanças).
  • Agenda doméstica: resposta fiscal do Brasil e a estratégia política rumo a 2026.
  • Diplomacia econômica: diversificação de mercados e salvaguardas para reduzir dependências críticas.

O Painel BM&C indica que a disputa de narrativas entre Trump e Lula transcende a retórica e entra no terreno da economia real. A curto prazo, a expectativa é de tensão administrada; a médio prazo, decisões sobre tarifas, sanções e disciplina fiscal dirão se o Brasil convertirá prestígio retórico em ganhos concretos ou se pagará um preço maior por sua estratégia de posicionamento internacional.

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