Nesta semana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse à diretora-geral do Fundo Monetário Internacional, Kristalina Georgieva, que nunca foi esquerdista. A declaração foi proferida em uma conversa informal e captada por câmeras que cobriam a reunião do G7, na França. Ao dizer que nunca foi de esquerda, Lula tentou enganar alguém. Ou foi a diretora do FMI ou os eleitores que o seguem desde que ele se candidatou ao governo do estado de São Paulo, em 1982.
É bem verdade que o presidente nunca foi um marxista clássico ou militou em organizações leninistas na juventude, como seus colegas José Dirceu, Dilma Rousseff ou José Genoíno. Lula sempre foi marcado pelo pragmatismo político e se aliou a forças conservadoras quando seu interesse falou mais alto. Mas é inegável sua vocação para o esquerdismo, como podemos ver toda a vez que ele tenta jogar pobres contra riscos em seus discursos políticos.
Mas talvez seja mais interessante fazer o próprio Lula contradizer o Lula que diz nunca ter sido esquerdista.
Na primeira convenção do Partido dos Trabalhadores, em agosto de 1981, ele disse o seguinte em seu discurso aos militantes de sua agremiação: “Os trabalhadores são os maiores explorados da sociedade atual. Por isso sentimos na própria carne e queremos, com todas as forças, uma sociedade que terá que ser uma sociedade sem exploradores. Que sociedade é esta senão uma sociedade socialista? […] O socialismo que nós queremos irá se definindo nas lutas do dia a dia, do mesmo modo como estamos construindo o PT. O socialismo que nós queremos terá que ser a emancipação dos trabalhadores”.
Em 1987, no Seminário Internacional do Instituto Cajamar, o presidente declarou o seguinte: “Eu acho o PT um dos partidos mais revolucionários que já surgiu na história desse país. É revolucionário porque nasceu com a ideia definida de que era preciso organizar a classe trabalhadora dando a ela consciência política para que ela se descobrisse enquanto força trabalhadora da sociedade”. Esse registro está em um site que possui uma URL para lá de sugestiva: emdefesadocomunismo.com.br.
Em uma edição do Encontro do Foro de São Paulo, em 2013, um trecho de seu discurso foi o seguinte: “Quero debitar parte da chegada da esquerda ao poder na América Latina pela existência dessa ‘cosita’ chamada Foro de São Paulo. Devemos muito aos companheiros cubanos”.
Na abertura do mesmo evento, em 2023, Lula afirmou que a América Latina viveu “seu melhor momento em 500 anos” entre 2002 e 2010, com políticos de esquerda no poder, e citou como conquista “a vitória do nosso companheiro Hugo Chávez na Venezuela”. Na mesma ocasião, disse que ser chamado de comunista era motivo de “orgulho”.
Essas são apenas alguns exemplos que podem ser pinçados em uma pesquisa rápida pela internet. Lula pode até enganar uma burocrata do FMI com sua infinita capacidade de encantar os interlocutores. Mas não será capaz de iludir a sociedade brasileira com esse tipo de balela.
*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide
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