O cenário para a próxima decisão sobre a Selic coloca em rota de colisão dois movimentos de direções opostas. De um lado, a queda do petróleo alivia pressões sobre combustíveis, alimentos e transporte. De outro, a deterioração fiscal e o aumento de gastos em ano eleitoral travam a margem de manobra do Banco Central. Para o economista Alex André, entrevistado pela BM&C News, o mercado trabalha com a expectativa de um corte de 0,25 ponto percentual, mas o que está em jogo é se esse será o último movimento de afrouxamento monetário por um longo período.
A análise do economista parte de uma constatação incômoda: mesmo diante de uma trégua pontual nos preços, as expectativas seguem em deterioração. O mercado não reage ao discurso, reage ao risco.
O alívio inflacionário não se traduziu em confiança
Segundo Alex André, a queda do petróleo trouxe impacto direto sobre os índices de inflação, com reflexos favoráveis em combustíveis, alimentos e custos de transporte. A combinação deveria, em tese, abrir espaço para uma continuidade do ciclo de cortes da Selic. O problema é que o alívio dos preços não veio acompanhado de melhora nas expectativas.
Na avaliação do economista, a revisão do Boletim Focus reflete uma mudança de percepção: o mercado já não acredita que os juros cairão muito mais. A possibilidade de a Selic permanecer próxima de 14% por um período prolongado ganhou força.
O fiscal voltou ao centro e mudou o jogo
O que impede uma trajetória mais suave de juros não está na inflação corrente, mas na conta Brasil. Alex André destacou que o aumento de gastos públicos, a aprovação de pautas com impacto orçamentário e a proximidade do ano eleitoral deterioraram a confiança do mercado. A dívida pública avança, e o risco-país reflete a perda de previsibilidade.
Para o economista, o Banco Central está cada vez mais pressionado por variáveis que escapam ao controle da política monetária. O fiscal voltou a ditar o ritmo — e a limitar a margem de ação.
Juros altos por mais tempo deixaram de ser ameaça e viraram cenário-base
Na leitura de Alex André, o Brasil entrou em uma armadilha: a política monetária sozinha não resolve, mas segue sendo a única ferramenta acionada. O resultado é a manutenção de juros elevados por um período mais longo do que o mercado antecipava há poucos meses. O Excel fecha. O caixa é que cobra.
A perspectiva é de que a Selic permaneça elevada enquanto o cenário fiscal não se estabilizar. E estabilização, em ano eleitoral e com pautas de expansão de gastos em tramitação, parece distante. O ciclo de cortes pode estar chegando ao fim antes do previsto — não porque a inflação não permite, mas porque o risco fiscal não deixa.
Assista à entrevista completa da BM&C News neste link: https://www.youtube.com/watch?v=0GswdG0SuNM











