A instabilidade econômica, política e tecnológica deixou de ser um evento pontual e passou a fazer parte da rotina das empresas brasileiras. Em um ambiente marcado por juros elevados, disputas comerciais, tensões geopolíticas e mudanças aceleradas no comportamento do consumidor, especialistas avaliam que esperar a volta de um cenário totalmente previsível pode representar um risco estratégico para os negócios.
Na avaliação de André Atarão, sócio da Alfaiate Consultoria em Estratégia, muitas empresas ainda tomam decisões como se a turbulência atual fosse passageira. Segundo ele, parte dos empresários adia investimentos, contratações e planos de expansão à espera de uma melhora mais clara no ambiente econômico.
“Existe uma diferença importante entre prudência e paralisia. Prudência é revisar cenários, proteger caixa, priorizar investimentos e aumentar eficiência operacional. Paralisia é transformar a incerteza em desculpa para não decidir”, afirma Atarão.
O diagnóstico aparece em um momento em que indicadores econômicos seguem mostrando um ambiente de cautela. O Indicador de Incerteza da Economia, da Fundação Getulio Vargas, recuou em maio após dois meses de alta, mas a média móvel trimestral continuou em trajetória ascendente. A própria FGV relacionou o comportamento recente do indicador à volatilidade do cenário externo, aos choques nos preços internacionais do petróleo e aos reflexos sobre combustíveis e alimentos.
Além disso, o ambiente internacional voltou a pesar sobre as expectativas das empresas brasileiras. O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos propôs novas tarifas sobre importações de diversos países, incluindo o Brasil, em uma medida que ainda passa por etapas de consulta e avaliação. O episódio reforça a percepção de que cadeias produtivas e decisões de investimento estão cada vez mais expostas a fatores externos.
No Brasil, o custo financeiro segue como um dos principais entraves. Levantamento da Confederação Nacional da Indústria aponta que 56% dos empresários industriais pretendem investir em 2026, mas os juros altos continuam sendo uma barreira relevante. Entre as empresas que não pretendem investir, parte informou ter adiado ou cancelado aportes que estavam em andamento.
Para Atarão, esse tipo de ambiente exige uma mudança na forma como as empresas planejam. Modelos muito rígidos, baseados em horizontes previsíveis, perdem eficácia diante de ciclos econômicos mais curtos e de mudanças rápidas no mercado.
“O ambiente empresarial atual exige uma nova lógica de gestão. Empresas precisam trabalhar com cenários alternativos, revisões constantes, decisões progressivas e capacidade rápida de adaptação”, avalia o especialista.
Segundo ele, isso não significa agir sem critério. A recomendação é que empresas fortaleçam caixa, revisem prioridades, acompanhem indicadores de mercado e adotem processos de decisão mais ágeis. O risco, segundo Atarão, está em confundir cautela com imobilismo.
“Muitas vezes, o empresário acredita que está reduzindo risco ao esperar. Mas, na prática, ele apenas troca um risco controlável, o de agir, por um risco muito mais perigoso: o de ficar para trás”, afirma.
A transformação tecnológica também amplia a pressão sobre as empresas. A inteligência artificial vem redesenhando setores inteiros, enquanto consumidores mudam hábitos em ciclos cada vez mais curtos. Nesse contexto, perder o momento certo de investir, lançar produtos ou reposicionar a marca pode comprometer competitividade.
Para o especialista, as empresas que atravessam melhor esse período não são necessariamente as maiores ou as que têm mais recursos, mas aquelas com maior capacidade de execução, revisão de rota e adaptação.
“A questão não é mais quando a previsibilidade vai voltar. A questão é quais empresas conseguirão aprender a operar, crescer e competir mesmo sem ela”, diz Atarão.














