Quando a candidatura de Flávio Bolsonaro foi anunciada, em dezembro do ano passado, houve um frisson na esquerda e receio na direita. O consenso, naquele momento, era o de que o senador partiria de uma base grande, composta pelos eleitores bolsonaristas, mas teria um teto baixo, em função da rejeição dos eleitores mais moderados. De lá para cá, Flávio subiu nas pesquisas e até passou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas, com o caso Dark Horse, caiu. E, com a perspectiva de um novo tarifaço a ser imposto pelos Estados Unidos, tomou outra queda nas enquetes eleitorais.
Segundo a pesquisa Quaest divulgada ontem, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro teria 38% dos votos em um eventual segundo turno, contra 44% de Lula. Isso significa uma perda de três pontos percentuais em relação à última pesquisa do instituto.
O novo cenário produziu um efeito secundário interessante. Romeu Zema e Ronaldo Caiado, que um mês atrás estavam em empate técnico com o presidente Lula nas simulações de segundo turno, também caíram. Ou seja, os recentes acontecimentos provocaram uma retração generalizada nos votos que seriam destinados à direita na etapa final do pleito.
Na prática, as pesquisas parecem ter retrocedido aos números observados em janeiro. No mesmo estudo Quaest, tivemos os seguintes números no início do ano: Lula com 45% e Flávio com 38% (indecisos com 2% e brancos/nulos/abstenções com 15%).
Isso quer dizer que a direita voltou à estaca zero? Aparentemente, sim. Mas isso quer dizer que o jogo está perdido? Não necessariamente. Voltemos aos números das pesquisas passadas. Em dezembro de 2025, segundo a Quaest, Lula liderava com 46% e Flávio marcava 36%. Em abril, no entanto, o presidente perdeu seis pontos e ficou atrás do senador, que adquiriu a mesma vantagem. Se Lula oscilou negativamente e se recuperou, isso pode também ocorrer com Flávio, dependendo do que ocorrer na ribalta político-econômica até o final da campanha.
Hoje, no entanto, o sentimento junto ao empresariado é de desânimo. Percebe-se que Flávio tem votos suficientes para levá-lo ao segundo turno. Mas ele não teria mais condições de unir os eleitores de direita e de centro em torno de seu nome. Essa, porém, é a fotografia atual, que pode mudar com a evolução de casos como os do Banco Master e do INSS.
Os dois candidatos que correm por fora (Renan Santos ainda está muito longe) têm um desafio complexo: Zema e Caiado precisam atrair votos de um eleitorado que hoje está majoritariamente com Flávio Bolsonaro. Esses eleitores votam majoritariamente em Flávio por identificação. O sobrenome Bolsonaro funciona como uma sigla emocional para uma parcela expressiva da direita e nenhum argumento racional consegue deslocar esse vínculo com facilidade.
Se Flávio chegar ao segundo turno, mesmo enfraquecido, vai precisar do voto de quem o está rejeitando agora. Mas se Zema ou Caiado passarem à etapa final das eleições, não há garantia de que o bolsonarista fiel vote em um deles. Em outubro, teremos a hora da verdade para quem rejeita Lula de fato: este eleitor terá de escolher um candidato que está longe de ser seu ideal. Caso contrário, verá o PT aboletado no Palácio do Planalto por mais quatro anos.
*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide
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