No Painel BM&C, Carlos Honorato e Miguel Daoud avaliam que barreiras externas ao agro revelam falhas de rastreabilidade, estratégia, coordenação institucional e responsabilidade fiscal.
A pressão externa sobre a carne brasileira passou a ocupar um espaço maior do que o debate setorial sobre frigoríficos, produtores e exportadores. No programa, a avaliação foi que embargos, exigências regulatórias e barreiras comerciais expõem uma vulnerabilidade mais ampla do Brasil na economia global.
O tema envolve balança comercial, geração de dólares, câmbio, emprego, renda e investimento. Para os analistas, o país construiu escala e competitividade no agronegócio, mas ainda enfrenta dificuldades para transformar esse peso produtivo em poder de barganha, rastreabilidade e estratégia internacional.
Rastreabilidade vira teste para a reputação da carne brasileira
A União Europeia não é o maior destino da carne brasileira, mas exerce influência relevante sobre padrões regulatórios globais. Por isso, as exigências do bloco foram analisadas no programa não apenas pelo impacto comercial imediato, mas também pelo efeito reputacional que podem gerar sobre outros compradores.
Miguel Daoud destacou que o ponto central não está na qualidade da carne brasileira, mas na capacidade do Brasil de comprovar processos, origem e conformidade documental. Na avaliação dele, o país já conhecia as exigências e deveria ter tratado o tema como prioridade estratégica para preservar credibilidade.
“O que nós estamos perdendo é credibilidade”, avaliou Miguel Daoud.
China, Estados Unidos e Europa aumentam exigências ao Brasil
O debate também passou pela atuação de outros mercados relevantes. A China suspendeu frigoríficos brasileiros, enquanto os Estados Unidos vêm endurecendo exigências comerciais e sanitárias. Para os participantes, esse movimento mostra que a rastreabilidade deixou de ser uma demanda isolada da Europa.
Honorato ponderou que o Brasil precisa separar, com precisão, o que é exigência técnica, o que é pressão comercial e o que faz parte da disputa geopolítica. A dificuldade está justamente em responder com velocidade e coordenação a um ambiente externo mais competitivo, regulado e sujeito a interesses estratégicos.
“Essa avaliação do técnico vs. comercial vs. geopolítico precisa ser muito bem feita”, ponderou Carlos Honorato.
Agro competitivo esbarra em falhas de coordenação
A discussão mostrou que o Brasil tem escala, qualidade e presença internacional, mas ainda convive com gargalos de fiscalização, documentação, logística e coordenação entre órgãos públicos. Em um mercado global mais exigente, essas fragilidades podem reduzir a capacidade de defesa dos produtos brasileiros.
Daoud avaliou que o mundo caminha para regras mais rígidas sobre alimentos, e o Brasil precisa acompanhar esse movimento para continuar exportando para mais de 170 países. Segundo ele, compradores passam a exigir não apenas qualidade, mas comprovação técnica e rastreabilidade ao longo da cadeia.
“O mundo está cada vez mais exigente. Não é só a Europa, todos os países estão cada vez mais exigentes e nós temos que atender”, destacou Miguel Daoud.
Brasília amplia gastos enquanto mercado cobra estratégia
O Painel BM&C também relacionou o problema externo do agro à falta de planejamento interno. Na avaliação dos analistas, enquanto o país precisa investir em fiscalização, rastreabilidade, infraestrutura e capacidade operacional, Brasília amplia despesas, fundos eleitorais, emendas e benefícios.
Honorato afirmou que o problema fiscal brasileiro não se resume à falta de dinheiro. Para ele, a dificuldade está na forma como os recursos são alocados, na ausência de prioridades e na falta de responsabilidade institucional com o gasto público.
“É falta de responsabilidade institucional e falta de responsabilidade com o gasto público”, observou Carlos Honorato.
Juros, crédito e investimento entram na conta fiscal
A expansão das despesas públicas tem efeito direto sobre a economia real. Juros mais altos, crédito mais caro e menor previsibilidade reduzem a capacidade de empresas e produtores planejarem investimentos de médio e longo prazo, especialmente em setores que dependem de capital intensivo.
Daoud avaliou que a falta de um projeto econômico para o país prejudica a indústria, o agronegócio e os serviços. Segundo ele, o Brasil discute repetidamente as consequências de sua estrutura econômica, mas avança pouco sobre as causas que limitam produtividade, investimento e planejamento.
“O que falta pro Brasil é um projeto, porque o que a gente discute cotidianamente são as consequências hoje da nossa estrutura econômica”, analisou Miguel Daoud.
Mercado precifica risco fiscal e eleitoral
No mercado financeiro, a deterioração das expectativas aparece na curva de juros, no câmbio e no desempenho dos ativos locais. Para os analistas, a confiança não volta apenas por discurso, mas por medidas capazes de sinalizar responsabilidade fiscal, previsibilidade e coordenação econômica.
Daoud explicou que contratos futuros incorporam a percepção de risco sobre juros, dólar, inflação e atividade. Em um ambiente de incerteza fiscal e eleitoral, essa precificação acaba sendo trazida para o presente, afetando bolsa, crédito e decisões de investimento.
“Então, as taxas de juros, todos os contratos futuros que são de trilhões de reais que são negociados lá na frente, eles começam a incorporar essa precificação, são os juros, o dólar”, explicou Miguel Daoud.
Cenário eleitoral amplia cautela dos investidores
O debate também abordou a leitura do mercado sobre a eleição de 2026. Para Honorato, os investidores observam não apenas os nomes colocados na disputa, mas a reputação fiscal, a previsibilidade e a capacidade de cada campo político apresentar uma agenda econômica viável.
A avaliação é que o risco eleitoral já pesa sobre os ativos brasileiros. De um lado, há preocupação com a continuidade de uma política fiscal expansionista. De outro, há dúvidas sobre a capacidade da oposição de apresentar uma alternativa estável, coordenada e com plano econômico consistente.
“Ele está precificando o risco eleitoral de ter dois candidatos que você já conhece a reputação”, apontou Carlos Honorato.
Desafio do Brasil combina comércio exterior e responsabilidade fiscal
A conclusão do debate aponta para um desafio duplo. No comércio internacional, o Brasil precisa reforçar rastreabilidade, certificação, fiscalização e capacidade de negociação para preservar mercados estratégicos e evitar perda de credibilidade no agro.
Na economia doméstica, a pressão fiscal segue no centro da leitura de risco. Sem controle de gastos, planejamento de longo prazo e coordenação institucional, o país tende a conviver com juros elevados, investimento limitado e maior vulnerabilidade diante de choques externos e políticos.














