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Investidor brasileiro ainda poupa, mas investe pouco, aponta Anbima

No Papo de Dinheiro, Marcelo Billi, da Anbima, explica por que muitos brasileiros ainda não se reconhecem como investidores, apesar do maior acesso ao mercado financeiro.

Redação BM&C NewsPor Redação BM&C News
30/04/2026

O número de investidores no Brasil avança, o acesso aos produtos financeiros aumentou e a digitalização reduziu barreiras de entrada. Ainda assim, uma parcela relevante da população continua fora do mercado de investimentos, sem reserva de emergência estruturada ou com dificuldade para transformar informação financeira em decisão prática. No Papo de Dinheiro, da BM&C News, o apresentador Felipe Nascimento recebeu Marcelo Billi, superintendente de Sustentabilidade, Inovação e Educação da Anbima, para analisar os principais pontos do Raio-X do Investidor Brasileiro.

A pesquisa busca mapear a jornada financeira da população, desde a capacidade de poupar até a escolha de produtos, fontes de informação e planejamento para aposentadoria. Segundo Billi, o estudo surgiu da necessidade de colocar o investidor no centro da discussão e consolidar dados que antes estavam dispersos em diferentes bases e instituições.

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“Então é toda a jornada, desde a decisão de poupar até a decisão de onde eu vou colocar o dinheiro de longo prazo da minha aposentadoria, como eu vou me preparar para isso, então é uma pesquisa bem ampla que tenta olhar todo esse espectro da vida do investidor no Brasil”, explica Marcelo Billi.

Poupança ainda não significa investimento

Um dos principais pontos levantados pela Anbima é a diferença entre poupar e investir. A pesquisa mostra que muitos brasileiros conseguem guardar dinheiro, mas não necessariamente aplicam esses recursos em produtos financeiros. Esse intervalo revela uma barreira estrutural: parte da população ainda não se reconhece como investidora, mesmo quando já possui algum grau de organização financeira.

Billi explica que esse comportamento aparece de forma mais clara nas pesquisas qualitativas. Muitos brasileiros associam investimento a algo complexo, restrito a pessoas ricas ou distante de sua realidade. Na prática, isso mantém recursos parados em instrumentos menos eficientes ou até fora do sistema financeiro, reduzindo o potencial de construção patrimonial.

“Às vezes ela acha assim, eu tenho pouco dinheiro e nem é verdade, às vezes, ela simplesmente acha que investir é para os ricos, é para uma coisa muito grande, então o meu lugar é a poupança e eu sou um poupador, não sou um investidor”, afirma Marcelo Billi.

Acesso melhorou, mas a linguagem ainda afasta

Nos últimos anos, a digitalização bancária, a expansão das plataformas de investimento e a redução dos tíquetes mínimos diminuíram uma das principais barreiras históricas ao mercado financeiro. Hoje, produtos de renda fixa, fundos e ativos de renda variável estão mais acessíveis do que no passado, inclusive para quem começa com pouco dinheiro.

O desafio, porém, migrou para a compreensão. A ampla oferta de produtos e o excesso de jargões técnicos criam uma barreira informacional. Termos como CDI, IPCA, liquidez, volatilidade, retorno e rentabilidade fazem parte do vocabulário do mercado, mas nem sempre são entendidos da mesma forma pelo investidor comum, o que pode dificultar a tomada de decisão.

“E tem um gap muito grande de como as pessoas interpretam aquela informação e o que é aquela informação”, aponta Marcelo Billi.

Influenciadores financeiros ganham espaço na educação do investidor

A pesquisa também mostra a relevância das redes sociais, do YouTube, do Instagram e de outros canais digitais como fontes de informação financeira. Para a Anbima, influenciadores, imprensa e profissionais de distribuição passaram a exercer papel importante na tradução do mercado financeiro para uma linguagem mais próxima do público.

Segundo Billi, o sucesso de muitos influenciadores está ligado à identificação. Em vez de exigir que o investidor se torne especialista em produtos, muitos comunicadores conseguem apresentar finanças de forma mais simples, conectada ao cotidiano e aos objetivos das pessoas. Essa proximidade pode ajudar na educação financeira, desde que venha acompanhada de transparência e senso crítico.

“Na minha avaliação, muito do sucesso dos influenciadores vem deles terem conseguido construir essa relação que dá uma confiança, porque a linguagem é simples, porque ele é alguém que tem uma certa situação que a pessoa se identifica”, avalia Marcelo Billi.

Transparência e incentivo comercial entram no radar

A Anbima acompanha centenas de influenciadores de finanças no Brasil e possui regras para instituições financeiras que utilizam esses profissionais em seus processos de distribuição. O objetivo é tornar claro quando existe conexão comercial entre a comunicação feita nas redes e a oferta de produtos ou serviços financeiros.

Para o investidor, a principal recomendação é avaliar o incentivo por trás de cada indicação. Produtos financeiros não são universais: uma aplicação adequada para o curto prazo pode não servir para aposentadoria, compra de imóvel ou diversificação patrimonial. Por isso, a repetição de uma mesma recomendação para diferentes objetivos deve acender um alerta.

“Então os sinais que você precisa ver é, poxa, essa pessoa tá me oferecendo sempre a mesma coisa, né? Não pode ser que sempre a mesma coisa serve para eu resolver a coisa que eu vou deixar em um mês e para comprar minha casa?”, alerta Marcelo Billi.

Autoconhecimento financeiro ajuda a reduzir erros

Outro ponto central da conversa foi a necessidade de o brasileiro entender sua própria relação com o dinheiro antes de escolher produtos. Para Billi, saúde financeira não depende apenas de conhecimento técnico, mas também da capacidade de reconhecer hábitos, limitações, objetivos e comportamentos. Esse processo vale tanto para quem está endividado quanto para quem está começando a investir.

A reflexão sobre orçamento, renda líquida, gastos e objetivos ajuda a filtrar escolhas. Quando o investidor sabe se o dinheiro será usado no curto, médio ou longo prazo, grande parte dos produtos deixa de fazer sentido automaticamente. Isso reduz a sensação de excesso de opções e torna a decisão mais alinhada à realidade individual.

“Quando você sabe quem você é, quando você refletiu muito sobre que tipo de riscos você realmente quer correr, e quando você sabe para que o seu dinheiro vai servir, fica muito mais fácil”, destaca Marcelo Billi.

Caminho deve ser gradual, sem buscar o investimento da vez

Na reta final do programa, Marcelo Billi destacou que a passagem de poupador para investidor deve ocorrer de forma gradual. Para quem está começando, a construção de uma carteira diversificada exige tempo, aprendizado e adequação ao perfil. Sair diretamente da poupança para uma carteira complexa pode gerar frustração e afastar o investidor do mercado.

A principal síntese da conversa é que o avanço do mercado financeiro brasileiro depende menos de acesso e mais de confiança, simplificação e orientação adequada. Para investidores, empresários e profissionais do setor, o desafio é construir uma comunicação que una clareza, transparência e foco nos objetivos reais das pessoas, evitando modismos e promessas de retorno fácil.

“Não é verdade, não tem um produto da vez e, de novo, existem carteiras e alocações e um conjunto de investimentos que vão ser bons para você, dependendo de quem você é e dos objetivos que você tem”, conclui Marcelo Billi.

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