Recentemente, a imprensa publicou várias matérias sobre um voo particular no qual estavam o presidente da Câmara, Hugo Motta, e o senador Ciro Nogueira. No desembarque, uma parte da bagagem não passou pelos aparelhos de raios x, o que motivou a abertura de um inquérito pela Polícia Federal. A PF apura os possíveis crimes de contrabando ou descaminho e prevaricação (não pagamento de impostos de importação com colaboração de fiscal ou funcionário público).
Essas suspeitas, de fato, precisam ser investigadas. Mas o que chama a atenção neste episódio é o fato de que dois parlamentares – sendo que um é o segundo nome da sucessão presidencial, atrás apenas de Geraldo Alckmin – estavam utilizando uma aeronave de propriedade de um empresário que explora jogos online.
A proximidade com esse tipo de atividade não seria muito recomendável para quem está na vida pública e eventualmente precisa legislar sobre temas relacionados ao jogo. Mas o ocorrido não é algo isolado: existe uma predileção entre as autoridades pela aviação executiva.
Segundo levantamento feito pela Folha de S. Paulo em 15 de abril, 58 parlamentares utilizaram jatinhos particulares emprestados em 2025, além de quatro ministros do Supremo Tribunal Federal e quatro ocupantes da Esplanada dos Ministérios.
Não estamos falando da maioria das autoridades. Mas é um grupo que reúne nomes ilustres, como o do próprio Motta e os três juízes mais comentados do STF: Dias Toffoli, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes. O uso desses jatinhos, em si, não é uma prova de que esses mandachuvas fizeram alguma coisa de errado. Mas levantam suspeitas indesejáveis.
Um voo de ida e volta como o de Motta e Nogueira pode custar cerca de R$ 3 milhões. Essa prática pode levar a questionamentos incômodos: aquele que arcou com esses custos poderia se beneficiar da atuação dessas autoridades? Vamos dizer que não. Na melhor das hipóteses, assim, esse uso de jatinhos configuraria um flagrante conflito de interesses.
Essa combinação de custos elevados, relações pouco transparentes e benefícios privados oferecidos a quem ocupa cargos públicos cria um ambiente que desgasta a confiança da sociedade nas instituições. Quando autoridades recorrem a serviços tão caros oferecidos por pessoas físicas ou empresas com interesses na atividade regulatória, abrem espaço para dúvidas sobre a independência de suas decisões e sobre a natureza das contrapartidas envolvidas.
Os políticos já enfrentam desafios suficientes para preservar sua credibilidade. O uso de jatinhos por autoridades, mesmo quando não configura ilegalidade, expõe fragilidades éticas que poderiam ser evitadas com regras mais claras, transparência absoluta e uma compreensão mais rigorosa sobre o peso simbólico de cada gesto de quem exerce o poder.
A falta de preocupação com essas questões éticas mostra que ou autoridades acham que suas atividades ficarão anônimas ou que não precisam prestar contas de seus atos para a sociedade. Qualquer uma das opções é muito ruim. Precisamos construir um Brasil em que esse tipo de proximidade tóxica entre poder público e setor privado não ocorra mais.
*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide
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