Foi em 7 de julho de 1812 que o padre Pedro Pereira de Mesquita criou a Freguesia de São Francisco de Paula, hoje conhecida como Pelotas. A cidade do sul do Rio Grande do Sul nasceu da riqueza do charque, virou Capital Nacional do Doce por lei federal e guarda o único monumento brasileiro erguido ao ideal republicano em pleno regime monárquico.
A cidade que nasceu do charque e do açúcar
Antes mesmo da freguesia, em 1780, o português José Pinto Martins fundou às margens do Arroio Pelotas a primeira charqueada da região. Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), a prosperidade do estabelecimento atraiu novas charqueadas e formou o povoado que mais tarde viraria cidade. Em 7 de julho de 1812, por iniciativa do padre Pedro Pereira de Mesquita, a Freguesia de São Francisco de Paula foi oficialmente criada por Resolução Régia.
O nome da cidade veio das embarcações usadas pelos peões para atravessar os rios da região: as “pelotas”, balsas rústicas feitas com varas de corticeira forradas de couro. Em 1832, a freguesia virou vila, e três anos depois ganhou foros de cidade com o nome atual. Os navios que levavam o charque para o Nordeste voltavam carregados de açúcar, matéria-prima que daria origem à tradição doceira mais famosa do Brasil.

Por que conhecer a Capital Nacional do Doce?
O título não é apelido. Em 2024, a Lei Federal 14.867 oficializou Pelotas como Capital Nacional do Doce, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A tradição já havia sido reconhecida pelo IPHAN em 2018 como Patrimônio Cultural Brasileiro, um selo que protege receitas de mais de dois séculos.
O berço da tradição é a Fenadoce, criada em 1986 e realizada anualmente desde 1988. A 30ª edição, em 2024, atraiu 311 mil visitantes e comercializou 1,9 milhão de doces, segundo dados da Câmara de Dirigentes Lojistas de Pelotas. A Cidade do Doce, área cenográfica que recria uma vila colonial portuguesa, reúne mais de 40 expositores certificados que produzem ao vivo as receitas tradicionais. Em Pelotas, açúcar e ovos viraram Patrimônio.

A cidade dos barões da carne-seca
O auge do ciclo do charque transformou Pelotas em uma das cidades mais ricas do Brasil imperial. A elite local importava azulejos de Portugal, lustres da França e pianos da Inglaterra. Segundo o IPHAN, a cidade chegou a abrigar nove barões, dois viscondes e um conde, dando origem à expressão “aristocracia do charque” ou “barões da carne-seca”.
O Conjunto Histórico de Pelotas foi tombado pelo IPHAN em 2018 e reúne sete setores de proteção: as praças José Bonifácio, Coronel Pedro Osório, Piratinino de Almeida, Cipriano Barcelos, o Parque Dom Antônio Zattera, a Charqueada São João e a Chácara da Baronesa. Um dos pontos mais curiosos do centro é o Obelisco Republicano de 1885, construído pelo Partido Republicano de Pelotas em homenagem a Domingos José de Almeida. É o único monumento brasileiro erguido ao ideal republicano em pleno regime monárquico, quatro anos antes da Proclamação da República.
O que fazer em Pelotas
O roteiro mistura charqueadas históricas, casarões neoclássicos e doces que viraram patrimônio. O centro é compacto e dá para conhecer caminhando, com paradas obrigatórias entre confeitarias e museus:
- Praça Coronel Pedro Osório: coração do centro histórico, com casarões dos charqueadores erguidos em 1880 e a Fonte das Nereidas trazida da França em 1873.
- Charqueada São João: construída em 1810, é a mais antiga preservada da região, com residência-sede de 32 metros e ruínas da antiga produção.
- Catedral São Francisco de Paula: começada em 1813, abriga afrescos do italiano Aldo Locatelli, considerados sua maior obra ao lado da Igreja de São Pelegrino em Caxias do Sul.
- Teatro Sete de Abril: inaugurado em 1831 para festejar a abdicação de Dom Pedro I, é um dos teatros em funcionamento contínuo mais antigos do Brasil.
- Caixa d’água da Praça Pedro Osório: estrutura de ferro importada de Paris em 1872 e concluída em 1875, com 15 metros de diâmetro e 45 colunas decoradas.
- Museu da Baronesa: instalado na Chácara dos Barões de Três Serros, construída em 1863, com 7 hectares de parque e acervo dos costumes pelotenses.
- Praia do Laranjal: a 12 km do centro, banhada pela Lagoa dos Patos, a maior laguna do Brasil, com pôr do sol sobre água doce.
A gastronomia pelotense é o motivo principal da visita. Cada doce conta uma história herdada das doceiras do século XIX:
- Quindim: clássico da confeitaria com gema, açúcar e coco, vendido em mais de 40 expositores certificados durante a Fenadoce.
- Pastel de Santa Clara: massa fina recheada com doce de ovos, um dos símbolos da confeitaria pelotense.
- Camafeu de nozes: bombom recheado com pasta de nozes coberto por doce de ovos cristalizado.
- Bem-casado: dois discos de massa unidos por doce de leite, símbolo afetivo dos casamentos no Rio Grande do Sul.
- Trouxa de amêndoa: massa amanteigada recheada com creme de amêndoas e gemas, herança direta da culinária portuguesa.
Quem deseja conhecer a história e as curiosidades da princesa do sul, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Diogo Elzinga, que conta com mais de 143 mil visualizações, onde Diogo Elzinga mostra por que Pelotas é considerada uma das cidades mais importantes do Rio Grande do Sul, destacando sua tradição doceira e arquitetura histórica:
Quando visitar a Princesa do Sul?
O clima é subtropical úmido, com as quatro estações bem definidas. O inverno é frio e úmido, quase sempre coincidindo com a Fenadoce. O verão é quente e ideal para a Praia do Laranjal. Veja como o calendário se distribui:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
A Fenadoce concentra o ápice cultural entre o final de julho e início de agosto, quando o frio favorece o consumo de doces e a estrutura climatizada do Centro de Eventos. A região do entorno produz pêssego, figo e morango em escala industrial, alimentando a maior fábrica de conservas do Rio Grande do Sul.
Como chegar a Pelotas
Pelotas fica a 250 km da capital gaúcha, no sul do Rio Grande do Sul. O acesso por carro é feito pela BR-116, com cerca de 3 horas de viagem desde Porto Alegre. Para quem chega de Rio Grande, a distância é de apenas 60 km pela BR-392, com estrada duplicada.
A cidade conta com o Aeroporto Internacional João Simões Lopes Neto, que recebe voos regulares de capitais brasileiras. A rodoviária central tem ônibus interestaduais diários para Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba e São Paulo. Quem segue para o Uruguai pelo Chuí também passa por Pelotas antes da fronteira.
Conheça a cidade onde o charque virou doce
Pelotas reúne em poucos quarteirões o casario neoclássico da aristocracia do charque, a tradição doceira reconhecida pelo IPHAN, a única Capital Nacional do Doce do Brasil e o único monumento republicano erguido durante a monarquia. A cidade fundada em 1812 segue produzindo quindins e pastéis de Santa Clara nas mesmas receitas que cruzaram o Atlântico há dois séculos.
Você precisa atravessar a Praça Coronel Pedro Osório, provar um quindim recém-feito na Fenadoce e entender por que essa cidade gaúcha guarda o sabor do Brasil imperial em cada confeitaria.

