O pelourinho original de 1648 ainda está de pé na Praça da Matriz, talhado em pedra de lioz vinda de Portugal. A 30 km dali, foguetes decolam de uma das bases mais próximas do Equador no mundo. Entre as duas paisagens, mais de 150 comunidades quilombolas convivem com sobradões coloniais sem telhado. Alcântara, no Maranhão, foi elevada à categoria de vila em 22 de dezembro de 1648 e é considerada Patrimônio Nacional pelo IPHAN desde 1948.
Por que Alcântara é considerada Cidade Monumento Nacional?
A história começa antes da chegada portuguesa. A região era ocupada pela aldeia tupinambá de Tapuitapera, que significa terra dos tapuias em tupi. Os franceses chegaram primeiro, em 1612, e estabeleceram boas relações com os indígenas. Os portugueses tomaram a região em 1615 e fundaram um pequeno presídio entre 1616 e 1618, segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
Em 22 de dezembro de 1648, depois da expulsão dos holandeses que haviam invadido o Maranhão em 1641, a aldeia foi elevada à categoria de vila com o nome de Santo Antônio de Alcântara. O nome veio da terra do donatário da Capitania de Cumã, Antônio Coelho de Carvalho, em referência a uma antiga ponte romana próxima a Lisboa (a palavra Alcântara significa a ponte em árabe). Em 1836, virou cidade e, exatos 300 anos depois da elevação a vila (em 1948), foi declarada Cidade Monumento Nacional pelo IPHAN.

Vale a pena visitar a cidade que parou no tempo desde 1850?
Vale para quem busca uma viagem no tempo concentrada e literal. Alcântara tem cerca de 21 mil habitantes em 1.458 km², segundo o IBGE, e fica do outro lado da Baía de São Marcos, a 32 km de São Luís. O isolamento que destruiu a economia colonial preservou o conjunto arquitetônico quase intacto.
A vida na cidade gira em torno do turismo histórico e das comunidades tradicionais. Mais de 150 comunidades quilombolas certificadas pela Fundação Cultural Palmares formam a maior concentração quilombola do Brasil. Em 2024, a Advocacia-Geral da União (AGU) mediou um acordo histórico que titulou cerca de 78 mil hectares como território quilombola após 40 anos de impasse com o Centro de Lançamento de Alcântara.

Reconhecimento patrimonial: 400 imóveis tombados pelo IPHAN em 1948
Alcântara reúne um conjunto patrimonial e tecnológico raríssimo no Brasil:
- Cidade Monumento Nacional desde 1948: o IPHAN tombou cerca de 400 imóveis de valor histórico em 22 de dezembro de 1948, na data do tricentenário da elevação à vila.
- Centro de Lançamento de Alcântara (CLA): base da Força Aérea Brasileira a 2°18′ de latitude sul, uma das posições mais próximas da linha do Equador no planeta, com economia de até 30% de combustível em lançamentos orbitais, segundo a Agência Espacial Brasileira (AEB).
- 500º lançamento em março de 2023: marco alcançado com a Operação Astrolábio, parceria entre o CLA e a empresa sul-coreana Innospace.
- Maior concentração quilombola do Brasil: mais de 150 comunidades certificadas pela Fundação Cultural Palmares, ligada ao Ministério da Cultura.
- Pelourinho original de 1648: em pedra de lioz importada de Portugal, ainda preservado na Praça da Matriz, é considerado um dos mais imponentes do Brasil colonial.
O conjunto arquitetônico inclui igrejas barrocas, sobrados azulejados, ruínas de palacetes inacabados e o Forte de São Sebastião. A combinação rara de patrimônio colonial, território quilombola e base espacial coexiste em pouco mais de 1.450 km².
O que fazer no centro histórico tombado de Alcântara?
O passeio começa no Porto do Jacaré, sobe pela Ladeira do Jacaré e termina na Praça da Matriz. Os principais atrativos são:
- Praça da Matriz e Pelourinho: praça principal da cidade com o pelourinho original de 1648 em pedra de lioz, uma das estruturas mais bem preservadas do Brasil colonial.
- Igreja Matriz de São Matias: ruínas da antiga matriz jesuítica do século XVII, com fachada principal e paredes laterais em alvenaria de pedra e cal preservadas.
- Igreja e Convento do Carmo: fundados em 1646 e 1665 pela Ordem dos Carmelitas Calçados, com altar-mor de madeira revestido em ouro e pia em pedra de lioz importada de Portugal.
- Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos: construída por africanos escravizados entre 1781 e 1803, no bairro Caravela, restaurada nos anos 1980.
- Museu Histórico de Alcântara: instalado em sobrado revestido com azulejos portugueses, expõe mais de 900 peças do período colonial, incluindo móveis, louças e arte sacra.
- Casa do Divino: sobrado azulejado dedicado à Festa do Divino Espírito Santo, celebração que acontece 50 dias após a Páscoa, uma das mais tradicionais do Maranhão.
- Casa de Cultura Aeroespacial: centro de interpretação do CLA com maquetes e protótipos dos foguetes lançados na base.
- Ilha do Livramento: a praia mais bonita da região, com faixa de areia clara cercada por mangue, acessível por barco.
- Revoada dos guarás: passeio de barco pelos igarapés para observar a revoada das aves de plumagem vermelha intensa que se reúnem ao entardecer nos manguezais.
A gastronomia mistura influências indígenas, portuguesas e africanas. Os pratos típicos para experimentar são:
- Doce de espécie: doce tradicional preparado durante a Festa do Divino, feito com coco, açúcar e especiarias, distribuído pelas famílias durante a procissão.
- Camarão alcantarense: preparado fresco na orla, com tempero local e acompanhado de arroz e feijão verde.
- Caranguejo do mangue: extraído nos manguezais que cercam a cidade, servido em caldinho ou cozido com tempero regional.
- Cuxá: prato típico maranhense feito com vinagreira, gergelim, camarão seco e farinha, servido com peixe fresco.
Quem busca viajar no tempo em Alcântara, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal DEVA NO AR, que conta com mais de 60 mil visualizações, onde Deva e João mostram as ruínas e a história da incrível cidade fantasma no Maranhão:
Qual a melhor época para visitar Alcântara?
O clima é tropical úmido com duas estações bem definidas: o período chuvoso vai de janeiro a junho e o período de estiagem de julho a dezembro, com temperatura média de 27°C, segundo o IBGE. A melhor época para visitar é durante a estiagem, quando o mar fica mais calmo para a travessia.
Veja como cada época se comporta na cidade:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à Cidade Monumento do Maranhão?
O acesso a Alcântara é feito principalmente pela Baía de São Marcos. As opções saindo de São Luís são:
- Catamarã: travessia direta de aproximadamente 1h30 saindo do Terminal Hidroviário da Praia Grande até o Porto do Jacaré, no centro histórico.
- Ferry-boat: travessia de 1h saindo do Terminal de Ponta da Espera até o Porto de Cujupe, com ônibus complementar de 20 minutos até o centro.
- Por terra: trajeto longo de mais de 400 km dando volta na Baía, com cerca de 8h de viagem, raramente usado por turistas.
O Aeroporto Internacional de São Luís — Marechal Cunha Machado recebe voos diretos das principais capitais do Brasil. De lá, o turista segue para o terminal hidroviário e faz a travessia.
Por que Alcântara merece pelo menos uma viagem na vida
Poucas cidades do Brasil reúnem 378 anos de história colonial, tombamento patrimonial integral pelo IPHAN, a maior concentração quilombola do país e a base de lançamento de foguetes mais próxima do Equador. Alcântara é o tipo de lugar que empilha quatro séculos da história brasileira em um pedaço de península maranhense.
Você precisa atravessar a Baía de São Marcos e caminhar pelas ruas de pedra de Alcântara, vendo casarões sem telhado e ouvindo o som distante de um foguete decolar.

