A escalada da tensão no Oriente Médio já começa a produzir efeitos no circuito internacional de feiras e eventos de negócios. Segundo Rico Azeredo, Head de Novos Negócios da NürnbergMesse Brasil, o movimento inicial do setor não é o cancelamento imediato das feiras, mas sim o adiamento das agendas, estratégia utilizada para preservar a realização dos encontros presenciais e evitar perdas comerciais.
De acordo com o executivo, o adiamento costuma ser a primeira resposta do mercado em cenários de instabilidade. A decisão busca preservar oportunidades de networking e negócios geradas pelas feiras, além de permitir tempo para que o cenário geopolítico se estabilize. Segundo Azeredo, durante períodos de crise, eventos originalmente programados para o primeiro semestre podem ser transferidos para o segundo semestre ou até para o ano seguinte.
Ele explica que a experiência recente da pandemia levou organizadores e expositores a reverem cláusulas contratuais relacionadas a eventos de força maior, como guerras ou crises sanitárias. Isso trouxe regras mais claras sobre limites de adiamento. Caso a instabilidade se prolongue por muito tempo, algumas feiras que já foram remarcadas podem acabar sendo definitivamente canceladas ou empurradas para ciclos futuros, como 2027.
Feiras internacionais sentem impacto nos custos e na visitação
Outro efeito imediato da instabilidade geopolítica aparece nos custos logísticos e no comportamento dos visitantes internacionais. Segundo Azeredo, quando eventos em determinadas regiões são afetados, compradores e empresas passam a buscar alternativas mais próximas geograficamente.
Nesse contexto, feiras regionais acabam absorvendo parte da demanda que antes se concentrava em grandes eventos realizados no Oriente Médio. Empresas que viajariam para a região podem optar por eventos mais próximos de seus mercados domésticos para reduzir riscos e custos de deslocamento.
O executivo destaca que o principal impacto observado nesses momentos costuma ser o aumento no preço das passagens aéreas e nas despesas logísticas. Esses fatores acabam reduzindo a participação internacional em diversos eventos ao redor do mundo, mesmo naqueles que continuam confirmados.
Grandes hubs globais tendem a concentrar a demanda
A reorganização do calendário global de eventos também pode beneficiar grandes hubs internacionais consolidados. Segundo Azeredo, feiras globais realizadas principalmente na Europa — especialmente na Alemanha — costumam absorver parte da demanda deslocada.
Eventos de grande porte têm vantagem nesse cenário porque reúnem compradores e expositores de diversas regiões do mundo, o que aumenta a probabilidade de fechamento de negócios mesmo em períodos de incerteza. Por essa razão, empresas que deixam de participar de feiras regionais afetadas por crises geopolíticas podem optar por eventos globais mais consolidados.
Ele cita como exemplo o setor médico-hospitalar, no qual eventos internacionais servem como ponto de encontro de empresas e compradores de diversas partes do mundo. Quando um evento regional é cancelado ou adiado, participantes tendem a migrar para feiras globais ou para eventos altamente especializados em determinado nicho.
Ainda assim, Azeredo ressalta que o aumento dos custos de deslocamento e logística pode limitar a participação de algumas empresas, especialmente em setores mais sensíveis ao orçamento de marketing e comercial.
Impacto direto para o Brasil tende a ser limitado
Apesar da reorganização do calendário global de eventos, o impacto direto para o Brasil tende a ser mais restrito. Segundo Azeredo, o país pode capturar parte da demanda apenas em situações específicas, como quando empresas internacionais buscam acesso ao mercado brasileiro ou quando eventos originalmente realizados no Oriente Médio tinham foco relevante em compradores da América Latina.
Ele explica que, caso a instabilidade geopolítica se prolongue, algumas empresas que participariam de feiras no Oriente Médio podem redirecionar suas estratégias comerciais para eventos realizados em outros mercados, incluindo o Brasil. No entanto, esse movimento depende do perfil da indústria e do interesse das empresas em acessar compradores locais.
De forma geral, Azeredo avalia que o principal impacto global da instabilidade atual continua concentrado na logística internacional e na reorganização temporária do calendário de feiras. O setor tende a reagir com adiamentos e ajustes de agenda antes de tomar decisões mais definitivas sobre cancelamentos.













