Em junho de 2025, uma equipe franco-egípcia anunciou um feito sem precedentes na arqueologia subaquática: o resgate, do fundo do porto de Alexandria, de 22 blocos monumentais pertencentes ao Farol de Alexandria, uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo, submersa há mais de 1.600 anos.
O que foi encontrado no fundo do porto de Alexandria?
Os blocos foram erguidos do fundo do mar por uma operação de mergulho técnico supervisionada pela arqueóloga e arquiteta Isabelle Hairy, do CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique) da França, em parceria com o CEAlex (Centre d’Études Alexandrines) do Egito. Os elementos resgatados incluem:
- Dintéis e jambas monumentais da entrada principal do farol, com pesos individuais entre 70 e 80 toneladas
- Uma soleira e grandes lajes de pavimento pertencentes ao piso da estrutura original
- Partes de um pílone com porta de estilo egípcio do período helenístico, monumento até então desconhecido
Os novos blocos serão escaneados em terra e devolvidos ao fundo, preservados no local de origem onde estiveram submersos por mais de 16 séculos.

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O que é o projeto PHAROS e qual é seu objetivo com o Farol de Alexandria?
O trabalho faz parte do projeto PHAROS (Phare d’Alexandrie: Histoire, Archéologie et Représentations), financiado pela Fondation Dassault Systèmes. Reunindo historiadores, numismatas, arqueólogos e arquitetos, o projeto busca coletar todas as representações históricas conhecidas do Farol de Alexandria, desde sua construção no século IV a.C. até sua destruição definitiva no início do século XV d.C.
Segundo o Ancient Near East Today, o projeto integra os 22 blocos a uma coleção de mais de 100 fragmentos já digitalizados diretamente no fundo do mar por fotogrametria de alta resolução, técnica que registra cada superfície em três dimensões sem precisar mover as peças.

O que foi o Farol de Alexandria e por que ele desapareceu?
Construído na ilha de Faros, no porto de Alexandria, o farol foi erguido durante o reinado de Ptolomeu II Filadelfo, por volta de 280 a.C., com projeto atribuído ao arquiteto Sóstrato de Cnido. Estimativas históricas apontam para uma altura entre 100 e 140 metros, o que o tornava uma das estruturas mais altas do mundo antigo, superada apenas pelas Pirâmides de Gizé.
Terremotos sucessivos o destruíram progressivamente entre os séculos IX e XIV d.C. Em 1303, um sismo de grande intensidade deu o golpe final. O que restou foi desmontado entre 1303 e 1477 para servir de material de construção da Fortaleza de Qaitbay, que ainda existe no local.
Como a fotogrametria submarina está reconstruindo o Farol de Alexandria bloco por bloco?
O canal INCRÍVEL, com mais de 18,4 milhões de inscritos, mostra como a tecnologia moderna auxilia pesquisadores a resgatar e estudar os vestígios do Farol de Alexandria sem danificar os artefatos submersos:
Segundo a revista Archaeology, as ruínas submersas foram descobertas pela primeira vez em 1995 pelo arqueólogo francês Jean-Yves Empereur, 30 anos antes desta operação de resgate. Desde então, campanhas de mergulho identificaram milhares de objetos no fundo do porto, como colunas, esfinges, obeliscos e blocos de granito, mas nunca havia sido realizada uma operação nessa escala.
Como será a reconstrução virtual do Farol de Alexandria?
Com os dados coletados pelo projeto PHAROS, qualquer pessoa poderá percorrer uma versão digital do Farol de Alexandria em realidade virtual, bloco por bloco, do chão até o topo. Os 22 blocos resgatados em 2025 somam-se a um acervo de mais de 100 fragmentos já modelados em 3D, tornando possível reconstruir pela primeira vez a aparência e a engenharia da entrada monumental da estrutura.
A tabela abaixo resume as principais etapas do projeto desde a descoberta das ruínas até o resgate de 2025:
| Ano | Marco | Responsável |
|---|---|---|
| 280 a.C. | Construção do farol por Ptolomeu II Filadelfo | Arquiteto Sóstrato de Cnido |
| 1303–1477 | Destruição e desmonte para construção da Fortaleza de Qaitbay | Período mameluco |
| 1995 | Descoberta das ruínas submersas no porto de Alexandria | Jean-Yves Empereur (França) |
| 2023 | Início das prospecções do projeto PHAROS | Isabelle Hairy / CNRS e CEAlex |
| 2025 | Resgate de 22 blocos de até 80 toneladas do fundo do mar | Equipe franco-egípcia |
O resgate que transforma escombros em patrimônio digital da humanidade
Resgatar blocos de 80 toneladas do fundo do mar e devolvê-los escaneados ao mesmo lugar onde estiveram por 1.600 anos é uma solução que protege o patrimônio sem removê-lo do contexto original. O Farol de Alexandria não será reconstruído em pedra, mas em dados, e isso pode ser mais duradouro do que qualquer estrutura física.
O que o projeto PHAROS entrega não é apenas uma reconstrução virtual. É a primeira vez que a humanidade terá, com base em evidências físicas digitalizadas, uma resposta concreta para uma das perguntas mais antigas da arqueologia: como era, de fato, uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo.

