Uma nascente que nunca deixou de jorrar abastece Itapororoca desde 1961. A água corre morro abaixo, sem precisar de bomba e sem cobrar nada, direto para as torneiras de mais de 18 mil pessoas na Zona da Mata da Paraíba. A 66 quilômetros de João Pessoa, essa cidade de nome indígena guarda uma história difícil de achar no Brasil: seis décadas sem que ninguém ali soubesse o que é uma conta de água para pagar.
Por que o nome Itapororoca vem das pedras e das águas?
No idioma tupi, itá quer dizer pedra e pororoca lembra o barulho da água batendo nas rochas. O nome descreve exatamente o que se passa debaixo do chão da cidade: pedras que vieram de vulcões antigos filtram e guardam a água que alimenta a fonte principal.
A história do município tem início em 1911, quando Itapororoca ainda era um pedaço de Mamanguape. A separação veio com a Lei nº 2.701, do dia 28 de dezembro de 1961, e a cidade foi oficialmente instalada em 15 de fevereiro de 1962. Desde o primeiro dia como cidade de pé sozinha, a água já chegava de graça nas casas.

Como é que uma cidade inteira consegue viver sem pagar pela água?
O segredo fica a uns 98 metros de altura em relação ao centro da cidade. A nascente, que está dentro do Parque Ecológico da Nascença, trabalha como se fosse uma caixa d’água natural. A diferença de altura faz com que a água desça sozinha até o reservatório que distribui para todo mundo, sem usar motor nem bomba nenhuma.
Os estudiosos da terra explicam que isso acontece porque ali existiu um vulcão que já não funciona mais. As rochas que sobraram chupam a água da chuva e vão soltando aos pouquinhos, o que mantém a fonte jorrando o ano inteiro. Mesmo nos períodos de seca brava no sertão paraibano, essa nascente nunca secou.
Uma lei do próprio município reconhece que o direito de pegar água sem pagar é algo que não pode ser tirado da população. No começo, o sistema levava água para umas mil famílias. Hoje, mais de cinco mil casas dependem da mesma fonte, só na parte urbana da cidade.
O que vai ser da água de graça ainda é uma pergunta sem resposta
O aumento do número de moradores ligou um sinal de alerta. A permissão para que a Companhia de Água e Esgotos da Paraíba (Cagepa) cuide do abastecimento já foi aprovada, mas até o comecinho de 2026 não tinha uma data certa para a empresa assumir o serviço.
Uma parte das pessoas que vivem lá acha que a mudança é boa, porque pode garantir que a água seja tratada e não falte. Outra parte tem medo de acabar um costume que fez a cidade ser do jeito que é. Os canos que levam a água ainda são antigos, e o tratamento é feito em casa mesmo, sem uma estação de tratamento grande no centro.
Como se chega nessa cidade onde a água não se paga?
Itapororoca está a 66 quilômetros de João Pessoa, o que dá mais ou menos 1 hora e 10 minutos de carro pegando a BR-101 e depois a PB-071. O aeroporto mais perto é o Presidente Castro Pinto, que serve a região da capital paraibana. Não existe um transporte feito para turistas, mas os ônibus que rodam entre as cidades ligam Itapororoca a Mamanguape e a João Pessoa.
Conheça a cidade que fez da água o seu jeito de ser
Itapororoca não é só a cidade onde não se paga conta de água. É um lugar onde a natureza deu as cartas desde o primeiro instante, e onde uma fonte sustentou famílias inteiras por gerações sem cobrar nada em troca. Com trilhas no meio da Mata Atlântica, plantações de abacaxi sem veneno e rochas que já foram de vulcão, a pequena cidade do Vale do Mamanguape guarda uma história que quase ninguém no resto do país conhece.

