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Sem estrada pavimentada e a mais de uma semana de barco: como 91 mil pessoas vivem no coração isolado da Amazônia

Vitor Por Vitor
03/04/2026
Em Cidades

A segunda maior cidade do Acre fica a 648 km da capital e o único jeito confortável de chegar é de avião. A outra opção é um barco pelo Rio Juruá, um dos mais sinuosos do planeta, em uma travessia que pode ultrapassar duas semanas. Seja bem-vindo a Cruzeiro do Sul, a Capital do Juruá.

Por que chegar a Cruzeiro do Sul é uma expedição por si só?

A BR-364, que liga Rio Branco à segunda maior cidade do estado, tem cerca de 648 km de extensão. O trecho tornou-se “transitável” de forma permanente apenas em 2011, mas ainda acumula buracos, erosões e trechos sem pavimentação que fazem a viagem de ônibus durar entre 15 e 24 horas dependendo da época do ano. No período das chuvas, entre dezembro e maio, trechos da estrada ficam intransitáveis e o acesso terrestre se torna ainda mais incerto. A população de 91.888 habitantes, segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), convive com essa realidade há décadas.

A alternativa é o barco pelo Rio Juruá. A navegação comercial e de passageiros sobe o rio desde sua foz, no Solimões, percorrendo mais de 2.400 km até Cruzeiro do Sul. O trajeto completo supera duas semanas. Pelo rio, chegam balsas com combustível, alimentos e mercadorias que abastecem a cidade, já que os produtos perecíveis importados por terra chegam com preços muito acima da média nacional. O Aeroporto Internacional de Cruzeiro do Sul, a 15 km do centro, é a porta de entrada mais rápida, com voos regulares para Rio Branco e Manaus. Sem ele, a cidade seria ainda mais distante do restante do país.

Sem estrada pavimentada e a mais de uma semana de barco: como 91 mil pessoas vivem no coração isolado da Amazônia
Sem estrada pavimentada e a mais de uma semana de barco: como 91 mil pessoas vivem no coração isolado da Amazônia (imagem ilustrativa)

O Rio Juruá que abraça a cidade é o mais sinuoso do planeta

Cruzeiro do Sul está na margem esquerda do Rio Juruá, considerado um dos rios mais sinuosos do mundo. Com 3.283 km de extensão total, suas curvas são tão pronunciadas que um trecho em linha reta de poucos quilômetros pode exigir dezenas de km navegando pelas suas voltas. A expressão local “sacados” designa os lagos em forma de ferradura que o rio forma ao longo das suas margens, onde ribeirinhos plantam feijão, milho, melancia e batata nas vazantes. No período de cheia, de dezembro a maio, o Juruá invade as terras baixas e transforma a rotina da cidade. Muitos moradores constroem suas casas em palafitas, herança direta dos tempos dos seringais, quando seus antepassados já viviam às margens dos rios e aprenderam a conviver com o sobe e desce das águas. Enquanto em outras cidades amazônicas as enchentes geram desabrigados em massa, em Cruzeiro do Sul boa parte da população permanece em casa, com as canoas substituindo os carros nas ruas mais baixas.

Seringais e ayahuasca: as raízes de uma cultura amazônica fora do comum

A história de Cruzeiro do Sul está profundamente ligada ao ciclo da borracha. A cidade foi fundada em 28 de setembro de 1904, quando a sede do Departamento do Alto Juruá foi transferida para o Seringal Centro Brasileiro, às margens do Juruá. Durante décadas, os seringais definiram a economia, a organização social e até a arquitetura da região, com casas em madeira erguidas nas margens dos rios. Foram os seringueiros que, ao entrar em contato com populações indígenas da região, conheceram a ayahuasca, bebida ritual preparada com cipó-mariri e folhas de chacrona. A tradição, presente em dezenas de etnias do Vale do Juruá, espalhando-se pelos seringais do Acre no início do século XX, deu origem a doutrinas como o Santo Daime. O Governo do Estado do Acre reconhece o turismo espiritual como uma das vertentes do etnoturismo acreano, e a Comunidade do Rio Croa, a 20 km de Cruzeiro do Sul, recebe visitantes para vivências na floresta e cerimônias com ayahuasca, além do contato com famílias de ex-seringueiros que hoje vivem da agricultura familiar e do turismo.

O que fazer na cidade e nos arredores do Vale do Juruá?

Cruzeiro do Sul é a base para explorar uma das regiões mais isoladas e biodiversas do Brasil. Os principais roteiros são:

  • Rio Croa: balneário de águas escuras com características de lago, a 20 km do centro pela BR-364. A comunidade abriga 70 famílias de ex-seringueiros e oferece hospedagem, restaurante com comida regional, passeios de barco e cerimônias de ayahuasca mediante agendamento prévio.
  • Parque Nacional da Serra do Divisor: quarto maior parque nacional do Brasil, com 843 mil hectares na fronteira com o Peru. Administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), é considerado o local de maior biodiversidade da Amazônia, com mais de 1.200 espécies de animais. O acesso é feito por ônibus até Mâncio Lima (40 min de Cruzeiro do Sul) e depois de barco pelo Rio Moa.
  • Catedral de Nossa Senhora da Glória: cartão-postal da cidade, construída em 1957 com tijolos importados da Alemanha. Sua arquitetura em oito lados foi projetada por padres alemães com inspiração nas ocas indígenas. É a maior catedral católica do Acre.
  • Porto do Juruá e Feira do Peixe: o porto fluvial, a 4 km do centro, concentra o movimento de embarcações que abastecem a cidade. A feira de peixes do Juruá reúne espécies locais como tambaqui, pirarucu e matrinxã.
  • Igarapé Preto: balneário de águas frias e escuras próximo ao aeroporto. Ponto de lazer dos moradores, com quiosques e área para banho.
  • Passeio de barco pelo Juruá: saindo do porto, é possível contratar barqueiros para navegar pelos igarapés e sacados do rio, observar botos-cinza e visitar comunidades ribeirinhas às margens do Juruá.

 

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Uma cidade que sobrevive apesar do mapa

Cruzeiro do Sul não é um destino para quem busca comodidade logística. É um destino para quem quer entender o que significa viver dentro da Amazônia, não ao lado dela: onde o rio ainda é a principal estrada, os seringais moldam a memória e a ayahuasca é parte da vida cotidiana de comunidades que existem há séculos.

Quem chega até lá, seja de avião ou de barco, costuma sair com a certeza de ter visto um Brasil que a maioria dos brasileiros nunca vai conhecer.

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