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A metrópole gélida de 300000 habitantes onde os prédios ficam suspensos para não afundarem

Vitor Por Vitor
26/03/2026
Em Cidades

Mais de 300 mil habitantes vivem em Yakutsk, capital da República de Sakha, no extremo leste da Rússia. A cidade é a maior do planeta construída inteiramente sobre permafrost contínuo, uma camada de solo que permanece congelada o ano inteiro. Todos os prédios ficam suspensos sobre estacas de concreto para não aquecerem o chão e afundarem na terra descongelada.

Por que uma cidade inteira precisa ficar suspensa no ar?

O permafrost sob Yakutsk se estende a profundidades de 250 a 450 metros. No verão, a camada superficial (chamada “camada ativa”) descongela até 3 metros de profundidade e se transforma em lama instável. Se um edifício tocasse o solo diretamente, o calor gerado por aquecimento interno derreteria o permafrost abaixo da fundação, criando afundamentos desiguais e colapsos estruturais.

A solução é radical. Todas as construções são erguidas sobre estacas de concreto cravadas a pelo menos 15 metros de profundidade, conforme recomendação do Instituto Melnikov de Permafrost, o único centro de pesquisa do tipo no mundo, fundado em Yakutsk em 1960. Entre a base do prédio e o chão existe um vão livre que permite a circulação de ar frio, mantendo o solo congelado. Tubulações de água, esgoto e aquecimento também correm acima do solo, formando uma rede aérea visível em todas as ruas da cidade.

A metrópole gélida de 300000 habitantes onde os prédios ficam suspensos para não afundarem
Yakutsk une a resistência de 300 mil habitantes ao frio extremo ao desafio de erguer uma capital sobre solo congelado // Créditos: Wikipedia / Wikimedia Commons

O frio que faz o motor funcionar 24 horas por dia

Yakutsk registrou sua temperatura mais baixa em 5 de fevereiro de 1891: -64,4°C. Em janeiro de 2023, os termômetros marcaram -62,7°C, o menor valor em duas décadas. A média de janeiro gira em torno de -36,9°C. A cidade nunca registrou temperatura acima de zero entre 10 de novembro e 14 de março. No inverno, o sol aparece por menos de quatro horas, e uma névoa de gelo (ice fog) reduz a visibilidade a poucos metros.

Carros deixados ao ar livre precisam manter o motor ligado durante meses. Se desligados, não voltam a funcionar. Escolas só fecham quando a temperatura cai abaixo de -55°C. Peixes e carnes são vendidos em mercados ao ar livre, onde o frio natural substitui qualquer refrigerador. A amplitude térmica anual chega a 102°C, uma das maiores do planeta: o mesmo termômetro que marca -50°C no inverno pode alcançar mais de 30°C no verão.

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A metrópole gélida de 300000 habitantes onde os prédios ficam suspensos para não afundarem
Yakutsk brilha como a capital da República de Sakha, integrando a engenharia de precisão à sobrevivência em um clima implacável // Créditos: Wikipedia / Wikimedia Commons

Diamantes e mamutes sob o gelo

A economia de Yakutsk gira em torno da mineração. A região da Yakútia responde por cerca de um quinto da produção mundial de diamantes, operação liderada pela empresa Alrosa. Além de diamantes, o subsolo guarda reservas de ouro, prata, gás natural e petróleo.

O permafrost também funciona como um freezer natural para a ciência. O Museu do Mamute, vinculado à Universidade Federal do Nordeste (NEFU), abriga fósseis da Era do Gelo em estado de conservação impressionante, incluindo mamutes-lanosos, bisões e cavalos pré-históricos. Já o Reino do Permafrost, escavado no solo congelado, funciona como museu de esculturas de gelo que nunca derretem, mantidas pela temperatura constante do subsolo.

Leia também: A monumental capital de barro com a maior torre de terra do planeta foi construída nas portas do deserto há 500 anos

A ameaça que vem do aquecimento

Cientistas do Instituto Melnikov de Permafrost alertam que a temperatura média em Yakutsk subiu 2,5°C na última década. O aquecimento acelera o derretimento das camadas superiores do permafrost, desestabilizando fundações que foram projetadas para um solo permanentemente congelado. Alguns edifícios da era soviética já apresentam rachaduras e inclinações de até 40 centímetros.

Em junho de 2020, um prédio residencial de dois andares se partiu ao meio após o descongelamento do solo sob uma de suas estacas. O governo russo estimou que o país pode enfrentar danos de até 7 trilhões de rublos (cerca de US$ 97 bilhões) em infraestrutura sobre permafrost até 2050, segundo o diretor do Instituto Melnikov. A Rússia planeja instalar 140 estações de monitoramento subterrâneo para acompanhar o ritmo do degelo.

Quem tem curiosidade sobre climas extremos, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Ruhi Cenet Documentaries, que conta com mais de 16 milhões de visualizações, onde Ruhi Cenet mostra como é a vida em Yakutsk, na Rússia, a cidade mais fria do mundo:

Conheça a cidade que só existe porque o frio persiste

Yakutsk é um caso único de engenharia urbana: uma metrópole que não luta contra o frio, mas depende dele para continuar de pé. Cada estaca cravada no permafrost, cada tubulação exposta ao ar gelado e cada vão sob os prédios lembram que a cidade só se sustenta enquanto o solo permanecer congelado.

Se você busca entender como o ser humano se adapta aos limites do planeta, Yakutsk é o lugar onde essa resposta está literalmente sob seus pés.

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