Você acreditaria se alguém propusesse erguer um muro flexível no fundo do oceano para impedir o fim do mundo? Um consórcio internacional de cientistas desenvolveu um projeto de R$ 418 bilhões para instalar uma cortina submarina na Antártida, com o objetivo único de frear o derretimento acelerado da geleira mais perigosa do planeta Terra.
Por que a Geleira Thwaites é chamada de “Geleira do Juízo Final”?
Localizada na Antártida Ocidental, a Geleira Thwaites possui dimensões comparáveis às do estado do Paraná e concentra uma das maiores massas de gelo do globo terrestre. Em alguns pontos centrais, a sua camada congelada ultrapassa impressionantes 2.000 metros de espessura vertical.
O apelido aterrorizante não é exagero. Desde o ano 2000, a geleira perdeu mais de um trilhão de toneladas de gelo compacto. O seu colapso total poderia elevar o nível global dos oceanos em cerca de 65 centímetros, o que seria suficiente para provocar as seguintes catástrofes em cadeia:
- Inundação permanente de dezenas de cidades costeiras em todos os continentes.
- Deslocamento forçado de centenas de milhões de pessoas que vivem perto do nível do mar.
- Destruição de infraestruturas bilionárias ligadas a portos e ao comércio marítimo global.

Como funciona o projeto da cortina submarina na Antártida?
A situação é extremamente urgente porque correntes oceânicas profundas e quentes estão avançando sob a plataforma de gelo flutuante da Thwaites, derretendo a sua base de sustentação por baixo. Para barrar esse fenômeno invisível, o glaciologista John Moore, da Universidade da Lapônia, desenvolveu o projeto Seabed Curtain Project em parceria com a Universidade de Cambridge.
A estrutura colossal funcionaria como uma gigantesca barreira flutuante ancorada no leito marinho a 650 metros de profundidade. A lona flexível se estenderia verticalmente por 150 metros de altura ao longo de 80 quilômetros de extensão, bloqueando fisicamente o fluxo de água quente que viaja pelo cânion do Mar de Amundsen.

Quais são as vantagens de uma cortina flexível no fundo do mar?
O material definitivo ainda não foi escolhido pelos engenheiros navais, mas precisa ser flexível o suficiente para resistir a impactos brutais de icebergs submersos. Um estudo de viabilidade técnica publicado na PNAS Nexus comprovou que as cortinas de lona possuem enormes vantagens sobre a construção de diques rígidos de concreto.
A tabela abaixo detalha por que o consórcio internacional optou por uma cortina submarina em vez de barreiras sólidas tradicionais:
| Critério de avaliação | Barreira sólida (concreto/pedra) | Cortina flexível ancorada |
|---|---|---|
| Logística de instalação | Exige navios pesados de perfuração | Muito mais barata e rápida de implantar |
| Resistência ao impacto | Pode trincar sob o choque de icebergs | Absorve o impacto e retorna à posição |
| Reversibilidade do dano | Impossível de remover do leito marinho | Fácil de desativar em caso de risco ambiental |

Quanto custa instalar uma barreira de proteção na Antártida?
Os orçamentos preliminares divulgados pela Business Insider indicam que a obra deve custar entre US$ 40 bilhões e US$ 80 bilhões, com uma taxa de manutenção anual de até US$ 2 bilhões. Na cotação de março de 2026, o teto desse valor astronômico chega à casa dos R$ 418 bilhões.
Embora pareça uma quantia absurda, os pesquisadores alertam que os custos do “não fazer nada” são apocalípticos. Os prejuízos econômicos com infraestrutura destruída e o reassentamento forçado de populações costeiras ultrapassariam rapidamente a marca dos trilhões de dólares caso a geleira desabasse no oceano.
Para você entender a gravidade desse derretimento contínuo, selecionamos o conteúdo do canal Olhar Digital, que atualiza diariamente mais de 945 mil inscritos. No vídeo a seguir, descubra como o Tratado da Antártida pode influenciar essa obra de geoengenharia:
Onde estão sendo realizados os testes da cortina submarina?
Apesar do senso de urgência, os pesquisadores estão avançando com cautela. A equipe da Universidade de Cambridge iniciou os ensaios com protótipos em miniatura de 30 centímetros dentro de tanques de laboratório controlado. A próxima fase ocorrerá em um fiorde isolado na Noruega, onde a equipe testará modelos maiores com aproximadamente 10 metros de altura.
Segundo a reportagem investigativa da Science News, o pesquisador Bowie Hagan declarou que seria um suicídio econômico tentar construir a obra real na Antártida agora. Apenas com o sucesso absoluto dessas etapas intermediárias, que já exigem um aporte extra de US$ 10 milhões, será possível validar a tecnologia final para a escala polar.

Quais são os riscos ambientais de uma obra de geoengenharia polar?
O plano da cortina submarina dividiu fortemente a comunidade científica global. Uma grande parcela dos biólogos alerta que fechar um fluxo de água no oceano pode causar impactos imprevisíveis no ecossistema frágil do Mar de Amundsen e sufocar a biodiversidade única da região.
Por outro lado, o grupo que defende a intervenção argumenta que o mundo falhou miseravelmente em reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Diante de um colapso iminente que reescreverá o mapa-múndi, intervenções tecnológicas agressivas deixam de ser uma opção curiosa de laboratório e passam a ser a última salvação da nossa espécie.

