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O “microfone” do fundo do mar: como os cabos de internet submarinos estão ajudando o Japão a prever terremotos e tsunamis

Laila Por Laila
04/03/2026
Em Engenharia

Pesquisadores no Japão encontraram uma forma inovadora de usar a infraestrutura já existente de cabos de internet submarinos para detectar terremotos e tsunamis. Transformando esses cabos em verdadeiros “microfones” gigantes, a tecnologia permite monitorar vibrações no fundo do oceano com precisão inédita, oferecendo segundos preciosos para alertas à população.

Como os cabos submarinos podem funcionar como sensores sísmicos?

A técnica utilizada é chamada de Distributed Acoustic Sensing (DAS). Ela consiste em enviar pulsos de laser através das fibras ópticas dos cabos. Quando uma vibração, causada por um tremor, uma onda ou até mesmo correntes marinhas, deforma a fibra em algum ponto, parte da luz é refletida de volta (retrodispersão de Rayleigh).

Analisando essas reflexões, os cientistas conseguem transformar um único cabo em uma série de milhares de sismômetros virtuais ao longo de sua extensão. Com resolução de poucos metros, é possível localizar e medir a intensidade dos tremores com detalhamento muito maior do que com equipamentos isolados.

Analisando essas reflexões, os cientistas conseguem transformar um único cabo em uma série de milhares de sismômetros virtuais ao longo de sua extensão

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O que torna essa tecnologia tão eficiente para o Japão?

O Japão está situado em uma das regiões tectonicamente mais ativas do planeta, onde a placa do Pacífico desliza sob a placa da Eurásia. Essa zona de subducção, conhecida como Fossa de Nankai, é responsável por megaterremotos históricos e tsunamis devastadores, como o de 2011.

Desde 2022, o país investiu na construção de uma rede submarina de monitoramento que se estende por cerca de 5.700 quilômetros de cabos de fibra óptica no fundo do mar, conectando aproximadamente 150 estações de observação equipadas com sismômetros e medidores de pressão. Essa infraestrutura permite o acompanhamento em tempo real da atividade sísmica.

Desde 2022, o país investiu na construção de uma rede submarina de monitoramento que se estende por cerca de 5.700 quilômetros de cabos de fibra óptica no fundo do mar, conectando aproximadamente 150 estações de observação equipadas com sismômetros e medidores de pressão

Qual é a diferença entre os métodos tradicionais e o uso dos cabos?

Os sismômetros convencionais são dispositivos pontuais, instalados em locais específicos. Já a tecnologia DAS aproveita cabos que já existem para transmitir dados de internet, criando uma malha contínua de sensores de baixo custo relativo e alta capilaridade. A tabela abaixo resume as principais diferenças:

Característica Sismômetro tradicional Sensor em cabo submarino (DAS)
Cobertura Pontual (um ponto específico) Distribuída ao longo de km do cabo
Custo de instalação Alto para cada unidade Utiliza infraestrutura já existente
Resolução espacial Limitada ao ponto de medição Métrica (a cada poucos metros)
Aplicação submarina Difícil e cara Ideal para grandes profundidades

Como o Japão está usando essa tecnologia na prática?

Instituições como a JAMSTEC (Agência de Ciência e Tecnologia Marinha) e o Instituto de Prevenção de Desastres do Japão integram os dados dos cabos submarinos aos sistemas nacionais de alerta. A rede cobre áreas críticas como a Fossa de Nankai, onde a detecção precoce de ondas primárias (P-waves) pode antecipar a chegada de um tsunami em até 20 minutos.

A melhoria dos sistemas de alerta após a tragédia de 2011 incluiu a construção dessa rede submarina, considerada hoje a mais avançada do mundo. Ela permite, por exemplo, a evacuação imediata de áreas costeiras e a paralisação de trens e rodovias assim que um tremor é detectado.

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A melhoria dos sistemas de alerta após a tragédia de 2011 incluiu a construção dessa rede submarina, considerada hoje a mais avançada do mundo

Que resultados já foram obtidos com essa tecnologia?

Testes internacionais com cabos submarinos, como um conduzido em um cabo do Google com 10 mil quilômetros de extensão no Pacífico, conseguiram detectar mais de 20 terremotos de magnitude superior a 5, além de 30 tempestades. No Japão, a rede N‑net já se mostrou capaz de identificar tremores com rapidez suficiente para emitir alertas cerca de 20 segundos antes da chegada das ondas mais fortes a certas localidades.

Os benefícios observados vão além da sismologia. A mesma infraestrutura pode ser usada para monitorar correntes marinhas, ruídos de navios e até a passagem de baleias, ampliando o conhecimento sobre o oceano. Algumas vantagens adicionais incluem:

  • Antecipação de tsunamis: a detecção de P-waves no assoalho oceânico permite prever a formação de ondas gigantes com minutos de antecedência.
  • Cobertura de áreas remotas: regiões oceânicas sem instrumentos passam a ser monitoradas em tempo real.
  • Baixo custo operacional: a manutenção é integrada à das redes de telecomunicações.
  • Alta sensibilidade: vibrações imperceptíveis em terra são captadas com clareza no fundo do mar.

Essa tecnologia substitui os sismômetros tradicionais?

Embora seja extremamente promissora, a técnica DAS não substitui completamente os sismômetros convencionais, mas os complementa de forma poderosa. Em terra, os instrumentos tradicionais continuam essenciais. No oceano, porém, os cabos submarinos preenchem uma lacuna histórica: a falta de monitoramento contínuo e de alta resolução no fundo do mar.

O Japão, com sua experiência em desastres naturais, sai na frente ao integrar essas duas abordagens. A combinação de cabos submarinos, bóias, satélites e sismômetros terrestres forma um sistema de alerta precoce robusto, que já salvou vidas durante os tremores de 2025 e 2026. A lição deixada por Fukushima está sendo respondida com engenhosidade e tecnologia de ponta.

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