Na África do Sul, um engenheiro civil com mais de duas décadas de experiência desenvolveu uma solução que promete revolucionar a construção civil e a gestão de resíduos. Abraham Avenant lidera a produção do RESIN8, um agregado que transforma plástico em concreto para blocos estruturais, pavers e outros elementos. O material já é usado em projetos habitacionais e de infraestrutura, processando centenas de toneladas mensais e mobilizando uma rede de coletores.
Como funciona o RESIN8, o agregado que transforma plástico irreciclável em concreto?
Desenvolvido pela CRDC Global, o RESIN8 é um eco-agregado patenteado que substitui parte da brita e da areia no concreto convencional. O processo começa com a granulação de qualquer tipo de plástico, mesmo aqueles sujos, misturados ou contaminados que as recicladoras tradicionais rejeitam, como embalagens multilaminadas, sacolas, isopor e canudos.
O plástico é triturado, misturado com aditivos minerais e extrudado até formar grânulos de 6,5 mm. Esse material é então incorporado ao concreto por fabricantes parceiros, resultando em blocos até 15% mais leves que os convencionais, com melhor desempenho térmico e total conformidade com as normas sul-africanas e internacionais, como os testes realizados nas universidades de Stellenbosch e Cyril Attwell e a certificação ASTM.

Quais são as vantagens técnicas do concreto feito com plástico irreciclável?
Os blocos produzidos com RESIN8 não apenas são mais leves, mas também mantêm a resistência estrutural exigida para obras de habitação e infraestrutura. Estudos comprovam que o material atende aos padrões de construção, oferecendo isolamento térmico superior e durabilidade compatível com o concreto tradicional.
Do ponto de vista econômico, a grande inovação é criar valor para resíduos que antes não tinham mercado. “Se 2,8% de todo o concreto produzido no mundo incorporasse RESIN8, o problema global da poluição plástica estaria resolvido”, afirmou Avenant à Concrete Trends. A tabela abaixo compara as características do concreto convencional e do concreto com RESIN8.
| Característica | Concreto Convencional | Concreto com RESIN8 |
|---|---|---|
| Matéria-prima principal | Cimento, areia, brita | Cimento, areia, RESIN8 (agregado de plástico reciclado) |
| Peso dos blocos | Referência | Até 15% mais leve |
| Desempenho térmico | Padrão | Melhor isolamento |
| Destino do plástico irreciclável | Aterros ou meio ambiente | Transformado em material de construção |
| Certificações | Normas técnicas | Testado por universidades e ASTM |
Como o programa “The Bag That Builds” transforma plástico em moradia?
Para alimentar a produção da fábrica em Blackheath, na Cidade do Cabo, a CRDC criou o programa comunitário “The Bag That Builds” (A Sacola que Constrói). Sacolas reutilizáveis são distribuídas em escolas e comunidades, e qualquer plástico pode ser depositado, não é necessário separar. A sacola inteira entra no processo de conversão.
Esse sistema estruturou uma rede com mais de 500 coletores parceiros, que recebem pagamento pelo material entregue. Antes, embalagens de salgadinhos e copos descartáveis eram ignorados por não terem valor comercial. Agora, passaram a valer dinheiro e se transformam em matéria-prima para construção. Mais de 85 toneladas de plástico já foram coletadas por esse programa, o equivalente a 53 mil sacolas em 18 pontos da Península do Cabo.
Que projetos na África do Sul já utilizam blocos com plástico reciclado?
O maior assentamento informal da Província do Cabo, Khayelitsha, com cerca de 400 mil moradores, é um dos locais que já utilizam a tecnologia. A construtora Bitprop incorporou o RESIN8 em 2022, e hoje 70% das casas construídas usam blocos com plástico reciclado. Cada residência de 108 m² absorve 6,2 toneladas de plástico, o equivalente a 6.100 blocos.
Outros projetos incluem o corredor de ônibus BRT AZ Berman, que desviou 71 toneladas de plástico e economizou 284 toneladas de agregado natural, e o V&A Waterfront, onde foi executada a primeira laje armada do mundo com RESIN8, utilizando 2,4 toneladas de plástico (1,2 milhão de embalagens).

Qual é o impacto ambiental e social da iniciativa?
A planta de Blackheath processa 610 toneladas de plástico por mês, produzindo 725 toneladas de RESIN8. A África do Sul gera 2,4 milhões de toneladas de plástico anualmente, com apenas 14% recicladas. O restante vai para aterros, rios ou praias. Iniciativas como essa ajudam a desviar parte desse volume e a reduzir a poluição.
Além do benefício ambiental, o programa gera emprego e renda. Uma parceria com o rugby sul-africano, por exemplo, coletou em três eventos internacionais de 2023: 1.862 sacolas, 65.000 blocos produzidos, 15 casas construídas em 2024 e 79 empregos diretos gerados. A iniciativa recebeu o Climate Action Award do Comitê Olímpico Internacional.
- Redução de resíduos: Cada tonelada de plástico desviada evita custos de aterro e poluição ambiental.
- Eficiência construtiva: Blocos mais leves facilitam o transporte e a montagem, reduzindo o consumo de cimento.
- Inclusão social: Mais de 500 famílias são remuneradas pela coleta de plástico, integrando-as à cadeia produtiva.
- Economia circular: O RESIN8 transforma um passivo ambiental em ativo para a construção civil.
- Escalabilidade: A meta é instalar 20 fábricas nos próximos cinco anos, processando 800 toneladas mensais cada.
O canal Rivers are Life, com mais de 15,4 mil inscritos, publicou um vídeo curto explicando como o RESIN8 está mudando o jogo dos resíduos plásticos. A produção mostra o processo de transformação e o impacto positivo do material em projetos ao redor do mundo.
A trajetória de Abraham Avenant, engenheiro com 25 anos de estrada, prova que a experiência técnica aliada à inovação pode resolver problemas complexos. O agregado que transforma plástico irreciclável em concreto já é realidade na África do Sul e aponta um caminho promissor para a construção civil global: unir sustentabilidade, eficiência e impacto social em larga escala.

