Entre colinas verdes e estradas de terra cercadas por parreirais, Cordislândia aparece como um ponto improvável no mapa do vinho brasileiro. Com apenas 3.200 habitantes e a 806 metros de altitude no Sul de Minas Gerais, a cidade conquistou o apelido de Toscana Brasileira ao reunir vinhos premiados internacionalmente, hospedagens sofisticadas e uma paisagem que lembra o interior da Itália.
Como 3.200 habitantes criaram uma rota do vinho em Minas
A história começa com um fazendeiro que foi chamado de “louco”. Luiz Porto decidiu plantar videiras em Cordislândia quando ninguém acreditava que o Sul de Minas pudesse produzir vinhos finos. Em 2012, a família fez a primeira vinificação comercial com mudas importadas de Bordeaux, na França. O ceticismo durou pouco: os rótulos começaram a acumular medalhas em concursos internacionais.
O segredo está na técnica de dupla poda, desenvolvida pela Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (EPAMIG) no campo experimental de Caldas. A poda invertida desloca o ciclo da videira para o inverno, quando o Sul de Minas oferece dias ensolarados, noites frias e tempo seco, condições parecidas com o verão europeu. O resultado são vinhos com cor intensa, acidez marcante e taninos macios.
O selo que colocou a região no mapa mundial do vinho
Em fevereiro de 2025, o Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) reconheceu a Indicação de Procedência “Vinhos de Inverno Sul de Minas”, incluindo Cordislândia entre as dez cidades contempladas. O selo atesta que os vinhos são produzidos com uvas vitis vinifera no sistema de dupla poda.
A conquista veio acompanhada de resultados expressivos. Em 2024, vinícolas da região figuraram entre os dez melhores vinhos brasileiros segundo a revista britânica Decanter. Em 2025, o rótulo Isabela Syrah 2023, da Vinícola Maria Maria (Boa Esperança, a 120 km de Cordislândia), foi o único brasileiro a receber ouro no Decanter World Wine Awards.
Quais vinícolas visitar em Cordislândia e no Sul de Minas?
O circuito enoturístico da região cresce a cada safra. As visitas são feitas com agendamento prévio, o que garante atendimento personalizado.
- Vinícola Luiz Porto (Cordislândia): 15 hectares de vinhedos, 14 rótulos entre tintos, brancos e espumantes. Oferece passeio a cavalo pelos parreirais, degustação e loja. O Syrah da linha Luiz Porto já recebeu medalha de bronze no Decanter, em Londres.
- Vinícola Estrada Real (Três Corações, 60 km): pioneira na dupla poda, fundada em 2001 pelo pesquisador Murillo Regina. Ganhou Grande Ouro na Wines of Brazil Awards 2020 com o Syrah Gran Reserva 2018.
- Vinícola Maria Maria (Boa Esperança, 120 km): fazenda onde café e videira dividem espaço. Premiada por cinco edições consecutivas no Decanter. Restaurante com almoço harmonizado.
- Vinícola Bárbara Eliodora (Campanha e São Gonçalo do Sapucaí, 30 km): figurou entre os dez melhores vinhos brasileiros na Decanter 2024. Degustações guiadas com vista para os vinhedos.
Quem busca conhecer o charme das pequenas cidades do Sul de Minas, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Rota 408 – Cidades do Brasil, que conta com mais de 6 mil visualizações, onde Sheila e Cleiton mostram o cotidiano e a Igreja Matriz de Cordislândia:
O que fazer além das degustações na Toscana mineira?
As vinícolas da região oferecem experiências que iam ser impensáveis em Minas anos atrás: vindima participativa, pisa das uvas, piqueniques no parreiral e jantares com chefs convidados. Algumas propriedades organizam noites de observação de estrelas com vinho em mãos.
Fora dos vinhedos, o cenário é típico do Sul de Minas. Estradas de terra cortam colinas cobertas de café e pastagens. Empórios artesanais vendem queijos maturados, azeites locais, geleias e pães de fermentação natural. A hospitalidade mineira aparece no café passado na hora, nas prosas de porteira e nas pousadas boutique com chalés privativos, banheira e lareira.
Quando o clima favorece o enoturismo na região?
O inverno seco é a melhor época para visitar. As noites frias realçam o charme das lareiras nas pousadas, e a colheita de inverno acontece entre junho e agosto. O verão é chuvoso, com pancadas concentradas à tarde.
| Estação | Meses | Temperatura | Chuva | O que fazer |
|---|---|---|---|---|
| Verão | Dez-Fev | 17-29°C | Alta | Passeios pela manhã, empórios |
| Outono | Mar-Mai | 14-27°C | Média | Vinícolas, degustações ao ar livre |
| Inverno | Jun-Ago | 11-24°C | Baixa | Vindima, lareiras, jantares harmonizados |
| Primavera | Set-Nov | 15-28°C | Média | Trilhas rurais, piqueniques |
Temperaturas aproximadas da região de Três Corações/Cordislândia com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à Toscana Brasileira saindo de BH e São Paulo?
Cordislândia fica a cerca de 340 km de Belo Horizonte, aproximadamente 4 horas pela BR-381 (Fernão Dias) até Três Corações e depois por estradas estaduais. De São Paulo, são cerca de 380 km, também pela Fernão Dias, com desvio a partir de Lavras ou Três Corações. O acesso final é por estrada asfaltada. Não há aeroporto na cidade, mas o aeroporto mais próximo com voos regulares é o de Varginha, a cerca de 70 km.
Um brinde ao interior que reinventou o vinho brasileiro
Cordislândia prova que grandes experiências podem nascer em cidades pequenas. No Sul de Minas, colinas que já foram apenas cafeeiras agora dividem espaço com parreirais que produzem rótulos premiados no mundo inteiro, e a hospitalidade mineira transforma cada visita em algo que vai além da taça.
Você precisa percorrer essas estradas de terra, brindar o pôr do sol entre vinhedos e sentir por que essa cidadezinha de três mil habitantes ganhou o apelido que ganhou.

