Na cidade de Warnes, na Bolívia, uma ideia simples começou a ganhar forma no ano 2000. A boliviana Ingrid Vaca Diez lidera o projeto Casas de Botellas, que reaproveita garrafas PET como material de construção e já ergueu mais de 300 moradias populares em cinco países da América Latina, usando cerca de 80 garrafas por metro quadrado.
Quem é Ingrid Vaca Diez e como surgiu o projeto Casas de Botellas?
Ingrid Vaca Diez é uma boliviana que vive em Warnes, no departamento de Santa Cruz. Incomodada com o acúmulo de lixo plástico e a falta de moradia digna para famílias vulneráveis, ela começou a experimentar formas de transformar garrafas descartadas em material de construção. O método foi aperfeiçoado ao longo dos anos e hoje é referência em tecnologia social na América Latina.
O projeto Casas de Botellas ganhou escala e já construiu moradias na Bolívia, Argentina, México, Panamá e Uruguai. Em cada país, a técnica é adaptada aos materiais disponíveis, mas mantém a mesma lógica: transformar resíduo em recurso e oferecer habitação a quem mais precisa.

Como as garrafas PET viram material de construção?
Na técnica desenvolvida por Ingrid, as garrafas são preenchidas com materiais de reaproveitamento, como leite em pó vencido, fuligem, areia ou esterco. Depois de cheias, elas se tornam peças rígidas que funcionam como “tijolos ecológicos” na estrutura das paredes.
As garrafas são empilhadas e fixadas com uma mistura de barro ou argila, que também serve como revestimento final. Essa camada de barro dá acabamento, isola termicamente e reforça a superfície, escondendo o plástico e deixando a casa com aparência de construção convencional.

Quantas garrafas são necessárias para construir uma casa?
Os cálculos do projeto indicam uma média de 80 garrafas por metro quadrado de parede. Esse número pode variar conforme o tamanho das embalagens e o desenho arquitetônico, mas ajuda a dimensionar a logística necessária para cada obra.
A primeira casa construída por Ingrid, no ano 2000, tinha 170 metros quadrados e consumiu aproximadamente 36 mil garrafas PET. O volume impressionante serviu como vitrine para explicar o método em oficinas e demonstrações, atraindo a atenção de comunidades e governos interessados em replicar a ideia.
A tabela abaixo resume os números e a expansão do projeto Casas de Botellas:
| Indicador | Número/Detalhe |
|---|---|
| Primeira casa | 170 m², construída no ano 2000 em Warnes (Bolívia) |
| Garrafas na primeira obra | Aproximadamente 36 mil unidades |
| Densidade média | 80 garrafas por metro quadrado de parede |
| Total de casas construídas | Mais de 300 moradias populares |
| Países atendidos | Bolívia, Argentina, México, Panamá e Uruguai |
| Materiais de preenchimento | Areia, esterco, fuligem, leite em pó vencido |
Por que o projeto Casas de Botellas se espalhou pela América Latina?
A proposta de Ingrid Vaca Diez combina dois problemas graves em um só lugar: o acúmulo de lixo plástico e o déficit habitacional. Ao transformar resíduo em moradia, o projeto oferece uma solução de baixo custo que pode ser replicada em comunidades carentes de toda a região.
O modelo também se beneficia da mobilização comunitária. As famílias atendidas participam da coleta, triagem e preenchimento das garrafas, reduzindo custos e fortalece o senso de pertencimento. A técnica é ensinada em oficinas e pode ser adaptada com materiais locais, facilitando a disseminação.
Alguns fatores explicam o sucesso da expansão do projeto:
- Baixo custo: Os materiais são resíduos ou insumos baratos, como barro e areia.
- Envolvimento da comunidade: As famílias participam ativamente da construção.
- Redução de lixo: Cada casa retira milhares de garrafas do meio ambiente.
- Conforto térmico: As paredes de barro mantêm a temperatura interna estável.
- Escalabilidade: O método pode ser ensinado e replicado em qualquer lugar.
O projeto pode ajudar no déficit habitacional brasileiro?
Ingrid Vaca Diez já manifestou interesse em levar a proposta ao Brasil, onde o consumo de plástico é alto e as redes de reciclagem são avançadas. O país também enfrenta um grave déficit habitacional: em abril de 2025, a Agência Brasil noticiou que registros do CadÚnico apontavam mais de 335 mil pessoas em situação de rua, número que pode ser ainda maior devido à subnotificação.
Iniciativas como o Casas de Botellas não resolvem o problema sozinhas, mas mostram caminhos possíveis para políticas públicas que aliem sustentabilidade e inclusão social. A parceria com governos locais, ONGs e empresas poderia viabilizar a construção de moradias dignas com baixo impacto ambiental.

Quais são os desafios para replicar o modelo em escala?
Apesar do sucesso, o projeto enfrenta obstáculos típicos de tecnologias sociais. A logística de coleta e armazenamento das garrafas exige espaço e organização. A padronização mínima é necessária para garantir a segurança das construções, demandando treinamento e supervisão.
Outro ponto é a duração das obras. Diferente da construção convencional, o método artesanal pode ser mais lento, especialmente quando depende de mutirões e da disponibilidade de materiais. Ainda assim, para famílias sem acesso a moradia, o esforço coletivo se transforma em conquista concreta.
O projeto Casas de Botellas prova que a criatividade e o trabalho comunitário podem transformar realidades. Mais de 300 famílias hoje moram em casas construídas com garrafas que iriam para o lixo. E o exemplo de Ingrid Vaca Diez continua inspirando novas gerações a olhar para os resíduos com outros olhos.

