A crise do Banco Master deixou de ser um problema restrito ao sistema financeiro e chegou até mesmo no futebol brasileiro. Com a liquidação da instituição e, mais recentemente, o pedido de recuperação judicial da Fictor, clubes e entidades esportivas passaram a conviver com incertezas sobre contratos, receitas e, sobretudo, riscos de imagem.
O episódio reacende um debate estrutural: até que ponto o futebol brasileiro se tornou parte de engrenagens financeiras complexas, sem mecanismos mínimos de governança e análise de risco?
Para Amir Somoggi, da Sports Value, o problema começa pela ausência quase total de regulação no uso do esporte como plataforma de exposição de marcas financeiras.
“Não há nenhuma regulação. Cada um faz o que bem entende. Só existem limitações para tabaco e bebida. No Brasil, não há nem para apostas, que já deveriam ser proibidas, na minha opinião”, afirma.
Na prática, bancos, fundos e empresas financeiras podem investir pesado em clubes, ligas e atletas sem qualquer filtro regulatório específico, sendo tratados apenas como ações comuns de marketing, mesmo quando envolvem estruturas altamente alavancadas, captação via mercado de capitais e milhares de investidores pessoa física.
RJ da Fictor: impacto direto e risco de imagem para o Palmeiras
Com a Fictor agora em recuperação judicial, o impacto é direto para o Palmeiras, que tem patrocínio da Fictor.
“Isso é um baita problemão, porque o clube para de receber e ainda tem riscos de imagem. Infelizmente os clubes estão tão loucos atrás de dinheiro que se esquecem de cuidar do seu maior ativo: a marca”, diz Somoggi.
Segundo ele, muitas empresas utilizam o futebol como instrumento de “brand wash”, ou seja, para limpar ou suavizar sua reputação por meio da associação com grandes marcas esportivas.
“Muitas empresas pagam caro para fazer esse brand wash, e os clubes aceitam sem avaliar direito quem está do outro lado.”
Falta de compliance: o “easy money” do futebol
Um dos pontos centrais levantados por Somoggi é a inexistência de áreas estruturadas de compliance e análise de risco dentro dos clubes brasileiros.
“Os clubes deveriam ter área de compliance e análise de risco, mas preferem esse easy money que gera impactos à sua marca.”
Diferentemente de empresas listadas em bolsa ou instituições financeiras, a maioria dos clubes:
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não realiza due diligence profunda de patrocinadores;
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não exige transparência sobre cadeia de funding;
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não avalia risco de contraparte;
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e não possui comitês formais de governança.
O resultado é que contratos milionários são assinados com base apenas em valor financeiro e visibilidade imediata, sem considerar sustentabilidade, reputação ou solidez do parceiro.
Vítimas ou parte do problema?
Para Somoggi, o futebol começa como vítima, mas acaba se tornando parte do problema ao aceitar qualquer tipo de exposição.
“O futebol, a princípio, é vítima. Mas como não se importam em promover marcas com problemas, acabam virando parte do problema.”
Na prática, clubes e ligas passam a funcionar como plataformas de legitimação reputacional, emprestando sua credibilidade e alcance social a grupos financeiros que, muitas vezes, operam com alto grau de risco.
E os clubes viram credores?
Apesar das perdas financeiras potenciais, Somoggi explica que, do ponto de vista jurídico, os clubes dificilmente se tornam credores formais em processos como o da Fictor.
“Eles não viram credores, porque são meros promotores de marca. Mas podem ficar sem os recursos e com a imagem arranhada, afastando marcas boas e corretas.”
Ou seja, o prejuízo não aparece como crédito judicial, mas como:
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quebra de fluxo de caixa;
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perda de contratos futuros;
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deterioração da reputação;
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e aumento do risco percebido por patrocinadores sérios.
Caso Master-Fictor: um alerta estrutural para o futebol brasileiro
O caso Master–Fictor inaugura um novo patamar de discussão no esporte nacional. O futebol brasileiro, cada vez mais integrado ao mercado de capitais, passa a conviver com riscos típicos de estruturas financeiras:
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risco de contraparte;
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risco reputacional;
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risco jurídico;
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e risco sistêmico.
Sem regulação específica, sem compliance robusto e sem cultura de análise de risco, os clubes acabam expostos a crises que nascem fora de campo, mas impactam diretamente sua sustentabilidade.
A crise escancara uma contradição: o futebol busca se profissionalizar como negócio, mas ainda opera com padrões de governança muito distantes do mundo corporativo que o financia.
E, como mostra o caso Master, o preço dessa assimetria pode ser alto, não só em dinheiro, mas em credibilidade.













